Atacada em Cannes, a Netflix está numa relação com Veneza

Meses depois de ter sido acusada de destruir o cinema europeu, a plataforma digital que redefiniu o conceito de videoclube aterra na competição do Festival de Veneza com um filme que vai estrear… na Netflix.

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A Netflix chega a Portugal já em Outubro MIKE BLAKE/REUTERS

A Netflix avança rapidamente e em força para a Europa (a data anunciada o seu lançamento em Portugal é Outubro), ao mesmo tempo que se está a configurar como um actor de peso na produção de cinema. Depois das séries (House of Cards, Orange Is The New Black), a plataforma mundial de difusão legal de filmes e obras audiovisuais on-line está determinada a não depender apenas dos filmes de outros.

E não está a ser discreta nem modesta nas suas intenções em relação ao cinema: a companhia vai mudar-se para Hollywood em 2017 para estar “no centro da acção”, noticiou há dias o Los Angeles Times. O novo quartel-general está a ser construído no lote de um estúdio em Sunset Boulevard; os seus 200 mil metros quadrados representam o dobro do espaço das instalações actuais, em Beverly Hills. David Wells, o director financeiro da companhia, disse num comunicado que a nova localização sinaliza “uma nova etapa de crescimento e criação de conteúdos”.  

Enquanto isso, a primeira longa-metragem produzida pela Netflix vai ter a sua antestreia mundial esta quinta-feira no Festival de Cinema de Veneza, que abre no dia anterior. Filmado por Cary Fukunaga, o realizador da primeira temporada da série True Detective, Beasts of No Nation adapta o romance homónimo do escritor nigeriano-americano Uzodinma Iweala sobre uma criança africana que é obrigada a juntar-se a uma milícia para combater na guerra civil. O filme faz parte da competição de Veneza e promete trazer visibilidade – é para isso que os festivais existem, afinal – à própria Netflix em vésperas da sua chegada a Itália, marcada também para Outubro.

"Um sinal de alerta"
Quando estrear em meados desse mês, Beasts of No Nation estará disponível não só nas salas de cinema, mas também nos computadores dos assinantes da Netflix, que a companhia diz serem 65 milhões. Este novo modelo de distribuição e difusão simultânea de filmes em múltiplas plataformas está a provocar protestos acesos e acusações de que a Netflix está a matar as salas convencionais e o tradicional sistema europeu de financiamento público do cinema. Em Maio, no Festival de Cannes, o chefe de conteúdos da Netflix, Ted Sarandos, foi acossado por jornalistas franceses no final de uma conferência. Um deles perguntou a Sarandos se ele estava consciente de que em “cinco, dez, 15 anos”, o modelo da Netflix iria “destruir o ecossistema europeu”. Em causa estava o facto de a Netflix não ter obrigações de investimento na produção de cinema e do audiovisual europeus como os outros operadores (estações de televisão, plataformas de TV por cabo e fornecedores de Internet) por ser uma companhia extra-europeia.

Sarandos replicou que a Netflix fará “crescer o ecossistema do cinema europeu” porque oferece uma plataforma global aos realizadores do continente. Antes que ele pudesse continuar, um outro americano, sentado na primeira fila, agarrou o microfone para defender a Netflix como “uma companhia visionária” e atacar o regime europeu de financiamento do cinema. “Prefiro que os políticos gastem dinheiro em hospitais e escolas” do que em subsídios ao cinema, disse Harvey Weinstein. O poderoso produtor de Hollywood disse que a vinda da Netflix para Europa era “um sinal de alerta” que tinha incomodado “monopólios” europeus, “a começar pela televisão francesa TF1”.

Weinstein não é propriamente um participante imparcial nesse debate: a sua Weinstein Co. e a Netflix estão a desenvolver juntas o projecto de uma sequela de O Tigre e o Dragão, o popular filme de artes marciais realizado por Ang Lee em 2000.

E não é como se a Netflix não estivesse a provocar reacções nos Estados Unidos. Grandes cadeias de multiplexes, como a Cinemark, a Regal e a AMC, recusaram exibir Beasts of No Nation nas suas salas, argumentando que a estreia simultânea na Netflix viola as suas políticas e fragiliza, de forma intencional, o seu modelo de negócio. Uma outra cadeia, a Landmark Theatres, aceitou estrear o filme em 19 salas.

Director do Festival de Veneza há quatro anos, Alberto Barbera defendeu a presença da Netflix, alegando que o futuro dos festivais de cinema deve passar pela colaboração, não pelo confronto, com as plataformas de streaming. “A Netflix e, provavelmente, a Amazon no futuro vão certamente ser actores importantes na produção e na distribuição de filmes em todo o mundo. Não podemos ignorá-los”, disse à Hollywood Reporter, que adianta que Barbera visitou a Netflix em Los Angeles este ano, enquanto programava o festival.

Segundo Barbera, a forma como os filmes são vistos mudou e os festivais também devem mudar, sob pena de ficarem para trás. “Não é possível continuar com um sistema baseado no passado. Tudo está a mudar tão rapidamente que é forçoso encontrar uma solução”, disse. "Não me parece que as plataformas digitais vão matar a estreia em sala. Uns e outros devem trabalhar juntos para aumentar o número de espectadores e encontrar uma maneira de coexistirem.”

A Netflix tem outros filmes em produção, incluindo uma sátira militar protagonizada por Brad Pitt, War Machine, uma nova comédia de Pee-Wee Herman, Pee-Wee’s Big Holiday, e um falso documentário sobre concursos de mascotes do mesmo realizador de This Is Spinal Tap, Christopher Guest.