Extremo Ocidental

Os últimos campistas

De Caminha a Sagres, é possível viajar quase sempre à beira-mar. Durante cerca de 800 quilómetros, percorremos a costa ocidental portuguesa, com uma moto, uma tenda e um bloco de notas. Esta é a última paragem.

Rudolph levanta-se cedo. Não por o sol atingir a tenda em cheio, como um raio laser, a partir das 8 da manhã, mas por disciplina. Engole um sumo, bolachas com tomate cru e um chá. Ajusta a prancha e a vela no tejadilho do seu Golf vermelho de 1998 e conduz pela estrada nua e plana até à praia do Martinhal.

Ao fim da manhã, depois de quatro horas de windsurf, vai a Sagres comer o prato do dia, sempre no mesmo restaurante, volta à praia para mais cinco horas agarrado ao vento, com a sua vela triangular verde e branca. O jantar é uma sandes e mais chá. Deita-se cedo, quando não vai a um dos bares beber uma ou duas cervejas com os amigos de várias nacionalidades que já aqui fez.

A maior parte do tempo passa-o sozinho. Tem 44 anos, não tem filhos e deixou a namorada na Alemanha. Estes dez dias são só para ele. Diz que tem convívio suficiente durante o ano, na consultora jurídica onde trabalha, em Düsseldorf. “A nossa vida é feita na artificialidade”, explica ele. “O trabalho e até os hábitos de relacionamento com os outros são baseados em convenções e artifícios, materiais e mentais. Mas o ser humano precisa também do contacto com o mundo, com a natureza não humana. Sentir a temperatura e as suas mudanças, o sol, o vento, a humidade, os mosquitos à noite. Não podemos ter medo dessas coisas, fugir delas. Faz-nos bem mergulhar no mundo natural, interagir com ele, como se fôssemos um dos seus elementos. Dormir numa tenda significa uma entrega muito profunda. É estarmos na natureza sem defesas, no nosso momento mais vulnerável, quando não teríamos capacidade de reagir a qualquer agressão. É uma espécie de pacto de confiança com a natureza”.

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Não há muitas tendas no parque de campismo de Sagres. Nem no de Odeceixe, nem no do Pessegueiro, em Porto Covo, nem em nenhum dos que vi, de Caminha a Sagres. Muitos parques estão cheios, mas não de campistas. As pessoas têm, ou alugam, os chamados “alvéolos”, que são uma degeneração do conceito de bungalow, transformado numa espécie de propriedade imóvel constituída por uma caravana com avançado, algumas paredes de lona grossa, madeira ou chapa, pavimentos de madeira, cimento ou tijoleira, electrodomésticos, jardim e outras provas concludentes de habitação permanente ou sazonal. Nalguns casos, vim a confirmar, escavaram-se secretamente caves ou andares subterrâneos sob o perímetro dos “alvéolos”, para usar como adegas ou quartos de hóspedes.

Este tipo de “campismo” garante há décadas as férias de milhares de famílias portuguesas. Para os que compraram, ou, de alguma forma menos clara, tomaram posse de um destes “alvéolos” num dos muitos parques instalados ao longo da costa, isto significa ter uma casa de praia, numa zona vigiada, com segurança, restaurante, café e supermercado, instalações sanitárias, corrente eléctrica, WiFi, piscina, zona de lavagem de veículos. A distância entre “alvéolos” é de pouco mais de um metro, ou menos de um metro, em certos casos, mas permite, a custo acessível, dormir a poucos minutos da praia, em zonas de dunas ou pinhal, onde uma verdadeira casa custaria centenas de milhares de euros.

A generalidade os parques de campismo, municipais ou privados, reserva hoje mais de 90% do seu espaço a esta dúbia actividade. Lá a um canto, quase sempre ao sol, ou nas áreas mais ventosas, podem montar-se as tendas, que são cada vez menos.

Carlos e Filomena foram a uma loja de Porto Covo comprar remendos para o colchão insuflável. Acampam há muitos anos no parque do Pessegueiro. “Dantes, toda aquela zona era de tendas”, diz Carlos, de calções e T-shirt branca, a chegar do seu jogging matinal. “Depois aumentaram a zona dos bungalows e agora aumentaram o parque, com toda esta zona para tendas. Mas há muito poucas.” A nova área encontra-se quase vazia, mas já não há lugares nas centenas de “bungalows”. Não tardará muito, portanto, até que a zona de tendas seja invadida pelos “alvéolos”.

Carlos Jorge Guedes Pinto tem 54 anos e é motorista de camiões. Filomena Maria Santos Pereira Lages, 55 anos, é costureira. Vivem na Madalena, perto do Porto, ela trabalha na Maia, ele nas estradas do Norte. Acampam há 30 anos.

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Sagres

“Este colchão já é muito velho. E como deve ter ficado mal dobrado, e com humidade, furou”, explicam. No primeiro dia compraram remendos de câmara de ar de bicicleta. Carlos aplicou a cola nas zonas com fissuras e depois os remendos, deixando secar. Enquanto dormiam, porém, as emendas soltaram-se. “A cola não aderiu.” E a cama começou a esvaziar, lentamente. Acordaram no chão. Agora conseguiram um kit próprio para colchões de praia. “Se não funcionar, juro que vou dormir para o carro”, diz Filomena.

Mas acabaria por resultar. O colchão vai esvaziando, mas devagar. De madrugada, ouço-os, na tenda ao lado, a encher o colchão, com a bomba.

A tenda também já tem décadas. Correu muitos parques pelo país todo e tem-se aguentado. Desde o tempo em que Carlos e Filomena levavam os filhos para o campismo, até hoje, quando eles já se emanciparam. Uma filha está a trabalhar na Suíça, o que os tem levado lá, numa parte das férias. São os únicos períodos em que, no tempo de lazer, não estão a acampar.

Carlos, que trabalha há muitos anos na mesma empresa, não gosta de férias repartidas. “Alguns colegas meus fazem isso. Estão sempre a meter dias, até parece que têm mais tempo. Mas eu não gosto. Quero tudo seguido, que agora já não é um mês, são só três semanas. Mesmo assim, gosto de fazer as minhas férias de uma vez.”

Como Filomena tem horários mais flexíveis, conseguem reservar o período para uma viagem. O carro, a velha tenda e o velho colchão, equipamento de praia e de corrida, lá vão eles, quase sempre para os mesmos parques, durante anos seguidos até lhes apetecer conhecer outro. Isso permite-lhes, como são sociáveis, conhecer pessoas, de vários pontos do país, que reencontram nos anos seguintes, nos mesmos parques, nas mesmas praias.

Todas as manhãs, Carlos sai para correr, pelo menos uma hora. Mas já praticou outros desportos. Experimentou surf e skate. Acha importante manter-se em forma. O campismo faz parte dessa atitude de vida saudável e proximidade com a natureza. “Nós preferimos acampar a ficar fechados num hotel ou pensão”, diz Filomena. “Há parques muito bons. O da Figueira da Foz, por exemplo, gostámos muito. Limpo, organizado.”

Na vida de Carlos e Filomena, tudo parece ser limpo e organizado, e suceder com uma razão e um sentido. Não se queixam, não se lamentam das dificuldades da vida. Fazem críticas pontuais, sem grandes ressentimentos ou rancores. Parecem ter capacidade de saborear todos os momentos, mesmo quando o colchão se esvazia duas noites seguidas. Não estavam sequer mal-dispostos quando me mostraram os remendos de bicicleta descolados. Logo pela manhã, Filomena passava em frente da minha tenda e dizia: “Bom dia, vizinho.” E fazem campismo porque gostam e aprenderam a amar essa ideia de que a vida ao livre faz bem ao corpo e à alma.

Só uma vez saíram de um parque zangados. Carlos estava a lavar os dentes no tanque reservado à lavagem de roupa, quando um dos residentes dos “alvéolos” se insurgiu, indignado. Chamou-lhe porco e queixou-se a um funcionário do parque. Carlos disse: “Eu não estou a sujar nada. Porque o incomoda que eu esteja a lavar os dentes onde você lava as cuecas e as peúgas? Qual é o problema?”

O funcionário do parque admoestou-o e mandou-o embora do tanque, e Carlos, com Filomena, foram-se embora do parque na manhã seguinte, ofendidos. “Foi a única vez.”

Instalaram-se noutro lugar e esqueceram o caso. Por isso partiram, aliás. Para não perderem tempo com o que não é importante. “Ainda pensei deixar-lhe um saco com porcaria à porta da tenda, mas pensei: para quê? Fomos para sul, até ao Algarve, conhecemos lugares muito bons.”

Simples e estranho. Uma vez, encontrámo-nos na praia nudista. Carlos, nu, orgulhoso do seu físico de maratonista, conversava com os seus amigos naturistas à beira da água. “Todos os anos vimos a esta praia algumas vezes. Já conheço aqui muita gente.”

Conversámos muito, nos dois dias em que fomos vizinhos. Não de literatura ou cinema iraniano, mas nunca me aborreci. Quando parti, despedimo-nos como se fôssemos amigos. E somos.

Maria Evangelista, 38 anos, também está acampada no mesmo parque, embora eu só o venha a saber mais tarde. Uma vez, quando foi aos balneários, ouviu uma mulher dos “alvéolos” queixar-se de que tinha ali deixado uma toalha estendida e que lha tinham roubado. “De certeza que foi essa malta nova lá das tendas”, disse alto, para todos ouvirem.

Maria viveu nos dois mundos. Em criança, e durante toda a adolescência, vinha para aqui com os pais, para uma dessas caravanas com avançado, que estão instaladas o ano inteiro.

“É curioso que até quando as pessoas vão de férias levam todos os preconceitos e ideias de estratos sociais”, conta Maria. “Havia uma parte do parque a que chamavam a ‘rua dos ricos’, porque as caravanas eram mais bonitas. Ou porque faziam uns ‘jardins’ relvados mais engraçados em frente às caravanas, que estão lá permanentemente e pagam uma taxa anual. Aquilo funciona como uma micro-sociedade.”

Maria Evangelista, que hoje é terapeuta holística, bailarina, professora de Reiki e taróloga, com o nome de Hazel Claridade, faz agora verdadeiro campismo, no mesmo parque. “Eu nunca ali tinha feito campismo em tenda. Há uns anos havia muito mais tendas. Os meus pais faziam um campismo que incluía ventoinhas, aquecedor (no Inverno), microondas, televisão, antena de televisão, fritadeira eléctrica, tostadeira…”

Maria, que esteve dentro desse mundo, compreende o que ele significa para aquelas pessoas, que viviam em apartamentos, nos subúrbios das cidades. “Havia quem dissesse que aquele pedacinho de terra em frente à caravana, onde plantavam arbustos e flores, era o ‘quintal que não tinham’.”

Mas nesta espécie de cidade alternativa, os campistas já eram vistos como intrusos, marginais, ainda que se estivesse num parque de campismo. “Os das tendas eram sempre olhados de esguelha pelos das caravanas. Eram vistos como os ‘hippies’, os de ‘pé descalço’.”

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Porto Covo

Quando Maria Evangelista leu na Revista 2, no domingo passado, a reportagem da série Extremo Ocidental [de Norte para Sul: Um casino na aldeia; Quem desviou o Senhor dos Benguiados?; Edifício em ruínas junto ao mar, com porteiro; A última noite do Living Opera e Na praia, sem nada, a que Maria Envangelista se refere] lembrou-se de que me tinha visto no parque. Conversámos depois de me ter procurado no Facebook e escrito uma mensagem: “Quando passei por si, estava sentado na tenda e pareceu-me um eremita. Perguntei-me o que faria alguém tão profundamente solitário e sem bagagem ali. Imaginei um Lone Ranger, que virou as costas à sociedade, zangado com as suas injustiças.”

A viagem entre Porto Covo e Sagres é uma experiência de exaltação e liberdade. Vila Nova de Mil Fontes já entrou para o capítulo das praias clássicas. O seu desenho, com o rio Mira a entrar no mar num gesto largo de rochedos e dunas, está inscrito na imaginação dos portugueses, como a extensão branca da Figueira da Foz, o Sítio da Nazaré ou a baía de Sesimbra.

Mas quando se avança para sul todas as imagens platónicas se desvanecem. A Zambujeira do Mar e Odeceixe já parecem recantos exóticos e imprevisíveis, e as praias da costa de Aljezur são restritas a zonas oníricas, provocam tonturas, desfasamento e noções distorcidas do espaço. Carreagem é chegar a um planeta perfeito para recomeçar a vida humana e Monte Clérigo faz-nos perguntar porque não está toda a gente aqui.

É daqueles lugares com um toque de absoluto, onde decidimos purificar a nossa vida e juramos voltar todos os anos, todos os meses, para sentir de novo esta euforia viciante como uma droga.

A zona de Aljezur seria o próximo Algarve, dizia-se nos anos 1990, e houve quem comprasse terrenos a sonhar com um El Dorado de hotéis e aldeamentos de luxo, numa das zonas mais belas da Europa. Mas isso não aconteceu. A protecção do Parque Natural do Sudoeste Alentejano funcionou, nenhum horrendo complexo turístico foi construído, os especuladores perderam muito dinheiro, mas este mundo intacto é todo nosso, simultaneamente familiar e estranho, livre e preso no nosso olhar.

Já no Algarve, depois da fronteira de Odeceixe, a estrada da serra até Sagres, a Nacional 268, cria a ilusão de viajarmos em zonas inexploradas, mergulhando cada vez mais fundo num país secreto, fragrante e bravio. E a chegada ao fim proposto da viagem é sentida realmente como o término de qualquer coisa, um ponto para além do qual não há nada. Finisterra.

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Odeceixe

Entre Vila do Bispo, o Cabo de São Vicente e a Ponta de Sagres, é como estar numa bolha de vácuo, uma zona de horizontes extensos e planura, vento e mar por todo o lado. Parece não ter saída, não ter continuidade, embora não seja hostil. É um lugar bom para se estar, para ficar. Por alguma razão, não apetece seguir viagem. A não ser que seja uma grande viagem.

Frederike e Albert estacionaram a autocaravana perto do cabo de São Vicente, e falam como quem vive aqui desde sempre. “Percorremos toda a Europa, milhares de quilómetros, dormindo em lugares diferentes todas as noites, até que chegámos aqui. E decidimos ficar cá até ao fim das férias. Há aqui uma paz que não encontrámos em mais nenhum lugar da Europa.”

A autocaravana parece ser a versão moderna da tenda. Tornou-se muito mais popular nos últimos anos. Vemo-las às centenas por toda a costa atlântica, paradas junto ao mar, com casais jovens, idosos, famílias e viajantes solitários.

Ralph, um holandês de 37 anos, disc jockey de profissão, veio numa espécie de jipe equipado para atravessar uma zona de guerra. É um Mitsubishi preto, de vidros fumados, com pneus todo-o-terreno e tracção às quatro rodas, pára-choques de aço, dois pares de faróis de nevoeiro especiais. No interior, tem cama, fogão para cozinhar, frigorífico, depósitos de água e de combustível, computadores, aparelhagem musical de grande potência. “Posso viver aqui um ano, sem precisar de ajuda”, diz Ralph. “Viajo durante semanas sem falar com ninguém. Vou onde quero, com a minha música, os meus lugares preferidos, as minhas paisagens. Sou totalmente independente e autónomo.”

Ralph conta que se separou da namorada, se zangou com os pais, perdeu o emprego. Pegou no dinheiro que tinha e partiu sozinho. Não tem data para o regresso. Nem sabe se vai regressar. “Alguma coisa há-de surgir. Hei-de encontrar qualquer coisa que me faça querer regressar à vida ‘normal’.” Para já está em Sagres.

No parque de campismo de São Jacinto, onde não há “alvéolos” e a empresa Orbitur tem despedido pessoal todos os anos, o director tem visto o número de campistas diminuir, Verão após Verão. “As pessoas já não gostam de acampar”, disse João Gomes. “Tornaram-se comodistas, preferem uma casa, ou um hotel. Têm menos dinheiro, mas mesmo assim não querem ir para uma tenda. O campismo morreu.”

A autocaravana talvez seja o sucessor da tenda, numa sociedade em que já ninguém tem tolerância para o desconforto. É um híbrido de casa e tenda, ou apenas o veículo de uma triste transição para um mundo em que as pessoas deixarão de sair de casa.

“Na autocaravana temos mais conforto, temos segurança e podemos trazer sempre connosco todos os objectos de que precisamos”, diz Frederika. Tem, na traseira do veículo, duas bicicletas que ela e o marido usam para explorar as zonas onde estacionam. Mas há quem traga atrelados com motos e até carros pequenos, para os pequenos percursos locais.

“Não faço ideia se isto representa o futuro”, diz Ralph. “Sei que nunca ficaria numa tenda. Sentir-me-ia muito vulnerável. Aqui no meu camião posso ser eu próprio. Não tenho nunca de dar explicações a ninguém, sobre nada.”

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Sagres