Movimento Vocês Fedem faz ultimato ao Governo libanês para resolver problema do lixo

Revolta que começou pela necessidade de limpeza urbana desafia a ordem política vigente desde a década de 1940.

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Protestos são também contra a ordem política, pela sua incapacidade para resolver problemas básicos ANWAR AMRO/AFP

A maior manifestação alguma vez organizada pela sociedade civil libanesa acentuou, este fim-de-semana, a pressão do movimento cidadão Vocês Fedem sobre um governo paralisado, agora confrontado com um ultimato, que termina terça-feira à noite, para encontrar uma “solução ambiental duradoura para o lixo”.

Dezenas de milhares de pessoas concentraram-se no sábado na Praça dos Mártires, no centro de Beirute, em mais um passo de um movimento já comparado às mobilizações de 2011 no mundo árabe. Foi “O sábado do povo”, como escreveu este domingo o diário As Safir.

“Os cidadãos primeiro”, “Abaixo o poder dos corruptos”, “Estamos fartos”, lia-se, segundo a AFP, em cartazes empunhados por manifestantes descontentes com o problema do lixo que se acumula nas ruas da capital e – mais do que isso – com a incapacidade das instituições para resolverem problemas básicos da população e contra o sectarismo. Foi dado um prazo de 72 horas ao Governo para solucionar o problema, ou a partir de terça-feira haverá uma "escalada das reivindicações".

“Pela primeira vez desde há muito, as forças da sociedade civil mobilizam-se por reivindicações sociais e não em resposta a um líder político ou sectário”, escreveu o jornal As Safir.

Ao contrário do que aconteceu uma semana antes, quando as autoridades reprimiram com violência os protestos, causando ferimentos a centenas de pessoas e a morte de pelo menos três, desta vez não houve incidentes de maior, apesar de dez detenções.

Aqueles incidentes levaram a que entre as reivindicações do Vocês Fedem estejam, para além da demissão do ministro do Ambiente, Mohammad Machnouk, o julgamento dos responsáveis pela violência do passado fim-de-semana, designadamente do ministro do Interior, Nohad Machnouk.

Para o As Safir, lido pela AFP, o carácter inédito das recentes manifestações prenuncia uma mudança, “sob uma pressão de rua que se libertou da divisão entre o 8 de Março e o 14 de Março” – menção a duas grandes concentrações organizadas em 2005 por dois blocos políticos rivais, a primeira pelo poderoso movimento xiita Hezbollah e a segunda pelo então primeiro-ministro sunita Saad Hariri.

O movimento contesta a classe política – que considera corrompida e incompetente –  e reclama a organização de eleições. “Precisamos de uma revolução para nos livrarmos destes políticos”, disse à Reuters um dos manifestantes, Habi Abu Hamdan, 23 anos, engenheiro civil desempregado. Nos dias que se seguiram às manifestações de há uma semana, centenas de pessoas concentraram-se junto a edifícios governamentais gritando: “Vocês fedem.”

É um desafio inédito ao sistema político instaurado no país desde a década de 1940, assente numa partilha de poder entre comunidades e numa tradição de “democracia consensual” que se traduz actualmente num bloqueio de funcionamento das instituições.

O Parlamento, paralisado pelos sectarismos, prolongou já por duas vezes o seu mandato resultante das eleições de 2009, devido às divisões políticas. Os deputados não têm também sido capazes de eleger um Presidente República, cargo que está vago desde Maio de 2014. No Governo, composto por xiitas, sunitas e cristãos –  formado em Fevereiro de 2014 após deze meses de impasse – a irredutibilidade de posições impede a tomada de decisões em matéria tão básicas como a recolha de lixo, que se amontoa.

 
 

   

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