Frederick Forsyth teve mesmo um passado como espião

Autor dos best-sellers O Chacal e Os Cães da Guerra confirmou os rumores antigos de que teria trabalhado para uma agência de inteligência britânica: foram mais de 20 anos ao serviço do MI6, revela agora a sua autobiografia.

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Frederick Forsyth acumulou várias missões: repórter, escritor, agente secreto

Não é exactamente uma novidade, pelo menos para os fãs inveterados dos livros de espionagem de Frederick Forsyth (Ashford, 1938): há muito que se especulava que as semelhanças entre as suas ficções e a realidade tinham de ser mais do que mera coincidência, mas agora o escritor britânico veio assumir que de facto trabalhou como espião para os serviços de inteligência britânicos durante mais de 20 anos. Os detalhes das suas missões em África (esteve particularmente activo durante a Guerra do Biafra) e na ex-República Democrática Alemã (RDA) podem ser encontrados na autobiografia que será lançada já no próximo dia 10 de Setembro, The Outsider: My Life in Intrigue (Bantam Press).

O coming out do escritor era o desfecho mais esperado desde que se soube, há um mês, que as suas memórias estavam a caminho: "Longamente aclamado pelo estranho realismo dos seus thrillers de espionagem, Frederick Forsyth está agora pronto a revelar o segredo do seu conhecimento privilegiado: ele próprio foi um agente do MI6", escreveu então o repórter do The Telegraph, notando que a dupla condição de ex-piloto da Royal Air Force fluente em francês e alemão e o trabalho como jornalista "atrás de linhas inimigas", tanto do lado de lá da Cortina de Ferro como em África, faziam dele "uma escolha natural" para os serviços secretos.

Era mesmo, confirma-se finalmente, agora que o lançamento da autobiografia se aproxima e Forsyth começa a desdobrar-se em declarações (Sunday Times, BBC, Sky News) acerca das missões que lhe foram confiadas pelo MI6 ao longo de mais de 20 anos como espião, e a explicar que embora tenha chegado a trabalhar praticamente a tempo inteiro, paralelamente à sua carreira oficial como jornalista e correspondente de guerra, nunca foi pago para prestar informações. "Os tempos eram outros, o Zeitgeist, como dizem os alemães, era diferente... a Guerra Fria estava muito no ar. Quando alguém pedia um favor, era muito difícil dizer não", explicou o escritor em directo na BBC.
 
Do Biafra à Cortina de Ferro
Forsyth, que reinventou nas suas ficções acontecimentos e tensões que documentou como repórter (o ambiente furiosamente anti-De Gaulle na França pré-independência da Argélia e pré-Maio de 68, em O Chacal, de 1971; a brutalidade do mundo dos mercenários na Guerra do Biafra de 1967-1970, em Os Cães da Guerra, de 1974), estava justamente no Biafra quando foi abordado por um agente dos serviços de inteligência britânicos "que mais tarde se tornaria um grande amigo". O MI6 não tinha ninguém no terreno e o escritor passou o último ano do conflito a enviar não só as habituais reportagens (foi correspondente da BBC e da Reuters) como também relatórios de espionagem para o seu "novo amigo": "No fundo", disse na mesma entrevista à BBC, "o que eles queriam saber era a real dimensão do terror, e se era verdade que havia milhares e milhares de crianças a morrer. O Foreign Office, com a sua defesa apaixonada da ditadura de Lagos, negava [que houvesse uma calamidade], e estranhamente o MI6 tinha outro ponto de vista". Era, de resto, o ponto de vista do próprio Forsyth, que diariamente via miúdos "a morrerem como moscas" e defendia então o fim do apoio britânico ao regime nigeriano e um cessar-fogo imediato.

Depois do Biafra, Forsyth teve outras missões na Europa de Leste (mesmo antes destas revelações, já se tinha tornado muito popular a pequena história das noites em que literalmente dormiu com o inimigo na Checoslováquia e na RDA, onde terá tido um affair com a amante do ministro da Defesa) e na então Rodésia. Eram de facto outros tempos: "Não vi mal nenhum em contribuir." E mesmo não sendo formalmente remunerado, talvez tenha pelo menos beneficiado de uma certa abertura do MI6 em relação a algumas passagens dos seus thrillers. Havia um número para onde tinha de ligar se tivesse dúvidas acerca da "sensibilidade" de alguma da informação que pretendia usar: "Normalmente, a resposta era: ok, Freddie!"

Com 20 títulos publicados (The Outsider: My Life in Intrigue será o 21.º, sucedendo a A Lista da Morte, de 2013), a maioria dos quais thrillers de espionagem, Frederick Forsyth é, com Graham Greene e John Le Carré, um dos mais populares autores do género. Os seus livros (que em Portugal foram publicados pelas editoras Livros do Brasil, ASA e Bertrand) já venderam mais de 70 milhões de cópias; 12 deles foram adaptados ao cinema. A autobiografia pode não vir a ter a mesma sorte, mas não será por insuficiência de material: a vida de Forsyth, que em boa parte cruza a História do século XX, daria certamente um filme de aventuras.