Freguesia das Avenidas Novas tem Avós do Coração para estudantes deslocados

Projecto vai juntar estudantes universitários carenciados com idosos que vivem sozinhos naquela freguesia de Lisboa, resolvendo de uma só vez dois problemas cada vez mais frequentes. Candidaturas ainda estão a decorrer.

Foto: PÚBLICO
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Foto: PÚBLICO

A transição para a universidade é sempre uma altura de mudança para os estudantes e ainda mais para os que se vêem obrigados a mudar de residência. A Junta de Freguesia das Avenidas Novas, em Lisboa, encontrou uma forma de tentar minimizar o impacto desta experiência, sobretudo no orçamento das famílias, e de ao mesmo tempo apoiar os idosos que vivem sozinhos na freguesia.

O projecto Avós do Coração arranca este ano lectivo de 2015/2016, embora tenha já uma experiência-piloto, e visa promover o acolhimento, durante um ano, de estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa – situada na Avenida de Berna, que fica naquela freguesia –, em casas de idosos residentes na zona.

“Em termos práticos, o sénior disponibiliza um quarto no seu domicílio a um estudante do ensino superior que, por motivos económicos, tem dificuldade em arranjar alojamento”, explica ao PÚBLICO por escrito o presidente da junta, Daniel Rodrigues (PSD).

Os jovens têm que vir de fora da área metropolitana de Lisboa e comprovar as dificuldades financeiras para suportar a despesa de alojamento. Os candidatos devem procurar os Serviços de Acção Social da FCSH, que é parceira deste projecto. Já os idosos têm de ter mais de 60 anos, residir nas Avenidas Novas sozinhos ou com o cônjuge, e ter em casa condições para acolher um estudante universitário. Podem ser referenciados por outras instituições que colaboram com a junta, como a Associação Coração Amarelo ou a própria PSP, ou podem dirigir-se à junta de freguesia e pedir, por iniciativa própria, para serem incluídos no projecto.

Depois do primeiro contacto é feita a inscrição de cada um dos interessados, que serão mais tarde entrevistados – primeiro individualmente, depois em conjunto (estudante e idoso) – e seleccionados. O processo que se segue é muito parecido com a celebração de um normal contrato de arrendamento. "Feita a selecção, é dado um período de reflexão sobre a aceitação do contrato que regulamenta a participação no projecto, apresentado durante as entrevistas, e, no caso de aceitação das condições presentes no mesmo, dá-se a assinatura entre ambas as partes", explica o autarca. As candidaturas ainda estão a decorrer.

A ideia de criar o programa Avós do Coração surgiu numa das primeiras reuniões da Comissão Social de Freguesia, um órgão que integra entidades públicas e organizações da sociedade civil e tem como objectivo encontrar respostas para os problemas identificados no território. "O facto de na freguesia se encontrar uma grande percentagem de idosos, que vivem sozinhos e muitas vezes isolados, foi um dos principais problemas a ser discutido", conta Daniel Gonçalves.

A Associação Coração Amarelo, que participa na comissão, apontou um caminho: uma das idosas acompanhadas pela instituição, que se queixava de solidão, tinha dito que não se importaria de receber em casa uma pessoa que lhe fizesse companhia. Daí até à solução foi um pequeno salto. A associação contactou a FCSH para perceber se algum estudante matriculado estaria disponível para ir morar com a senhora. "E, de facto, existia uma jovem disposta a aceitar o desafio."

A experiência correu tão bem que vai manter-se no ano lectivo que agora começa. "Este caso foi acompanhado e avaliado pelas várias entidades envolvidas, durante todo o ano lectivo, através de diversas visitas e contactos estabelecidos", garante o autarca, sublinhando que os psicólogos e assistentes sociais das várias instituições envolvidas fazem o acompanhamento das situações, nomeadamente com visitas ao domicílio.

A ideia não é inédita, e já se concretizou em moldes semelhantes noutros pontos do país. "Uma das nossas preocupações foi, precisamente, entrar em contacto com outros projectos para perceber como funcionavam e que pontos positivos e negativos tinham encontrado ao longo das suas experiências", diz o presidente da junta, que acredita na possibilidade de alargar a iniciativa a outras faculdades. "Fomos já contactados pelos Serviços Centrais da Universidade Nova de Lisboa para apoiar alunos de outras faculdades, para além da FCSH, que se encontrassem na mesma situação de carência económica e com dificuldades ao nível do alojamento", remata.