Ainda à espera do apocalipse?

Mais de 50 anos depois, Apocalípticos e Integrados continua a dizer-nos que a cultura de massas não tem de ser uma degeneração da sensibilidade. O Ípsilon revisita o livro de Umberto Eco, na companhia de três leitores que também são críticos.

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Apocalípticos e Integrados desperta interrogações oportunas, talvez até mais necessárias do que nunca, sobre a importância que o prazer, o consolo, a evasão ou o pensamento têm na relação que cada um estabelece com a literatura, a música e a banda desenhada, entre outras artes DR

Numa reedição da Relógio D'Água, Apocalípticos e Integrados, de Umberto Eco, regressa ao espaço público português com os ensaios e artigos que o tornaram numa das obras mais comentadas das ciências sociais e dos estudos da comunicação. O seu impacto foi tão amplo que a dicotomia explícita no título persiste noutros contextos e discursos, com frequência acerca de controvérsias semelhantes. Onde começa e acaba o mau gosto? A cultura de massas desapareceu ou degradou-se ainda mais? Ainda existem artes superiores e inferiores? A boa literatura é melhor do que o bom hip-hop? O cinema morreu?

Umberto Eco não responde propriamente a estas perguntas (não poderia fazê-lo), mas, a par dos prefácios, as análises incluídas em Apocalípticos e Integrados merecem ser revisitadas. Reler ou ler pela primeira vez os textos sobre a canção de consumo, a breve e certeira interpretação de Peanuts, de Charles Schulz, ou os ensaios dedicados ao kitsch não é um exercício estéril. Desperta interrogações oportunas, talvez até mais necessárias do que nunca, sobre a importância que o prazer, o consolo, a evasão ou o pensamento têm na relação que cada um estabelece com a literatura, a música e a banda desenhada, entre outras artes.

Confrontar o legado desta obra com a actualidade implica recordar o contexto do seu aparecimento em 1964, data da primeira edição em Itália. “[O livro] surgiu num momento em que se multiplicavam os números de consumidores dos media, em que se impunha reflectir sobre a teoria da comunicação, da cultura de massas e da indústria cultural”, recorda o professor universitário e ensaísta Arnaldo Saraiva. Umberto Eco juntava-se, assim, a um conjunto de autores que estudavam os mass media, como Marshall McLuhan, Abraham Moles, Clement Greenberg, Edgar Morin, Roland Barthes. A sua entrada nesse campo apresentava, contudo, contornos específicos, dados os antecedentes: “Foi depois de elaborar estudos sobre textos da Idade Média. Ele tinha uma invulgar cultura literária, linguística, histórica, sociológica, psicanalítica. E a sua escrita revelava um humor e uma verve inusuais em estudiosos ou pensadores. Não negavam, acentuavam a seriedade e a novidade das suas análises.”

Um enfant-terrible
O impacto dos ensaios de Umberto Eco tardou a sentir-se em Portugal. As edições das suas principais obras realizaram-se com atrasos de décadas (Apocalípticos e Integrados, por exemplo, só surgiu em 1991 numa tradução da Difel), ao contrário do que aconteceu em França, na Espanha ou no Brasil. “Nenhuma foi imediatamente conhecida em Portugal nem suscitou nos anos 60 e 70 seguintes o interesse dos nossos editores e intelectuais. É com a tradução de O Nome da Rosa, em 1983, que Eco se torna popular em Portugal”, assinala Saraiva. O que pode explicar esse alheamento? A nossa “condição periférica”? O desinteresse pelos temas tratados? “Nos anos 60, a intelligentsia portuguesa ainda vivia obcecada pela cultura francesa, embora começasse a voltar-se para a anglo-americana. Interessava-se por alguns romancistas e cineastas italianos, mas não, por exemplo, pelos poetas Novissimi e pelos ensaístas. E manifestava evidentes preconceitos contra a cultura de massas. Mesmo quando realista, ou neo-neo-realista, despreza o que considerava a cultura baixa e géneros e textos híbridos, a banda desenhada, a canção popular."  

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Três décadas depois, numa universidade lisboeta, Pedro Moura, crítico e estudioso de BD, encontrava-se, embora em circunstâncias mais favoráveis, com a obra de Umberto Eco: “O meu curso tinha a cadeira de Linguística e interessei-me por semiologia. Lembro-me de ter comprado vários ensaios dessa disciplina. Em Apocalípticos e Integrados, o que mais me chamou a atenção foi o destaque dado à banda desenhada. O Eco tratava com rigor académico a banda desenhada. Outros já tinham escrito sobre o tema, mas sem os mesmos instrumentos de análise, em textos impressionistas, de opinião. Ele não, nisso foi claramente pioneiro.”

Os tempos, entretanto, tinham mudado. Nos anos 90, pareciam esbatidas as fronteiras entre alta e baixa cultura e, a par da semiologia, os contributos dos Estudos da Recepção e da Escola de Birmingham traziam um alívio a muitos leitores e espectadores. Parafraseando Eco, o entretenimento, a evasão, o jogo e o consolo já não tinham de ser sinónimo de automatismo, irresponsabilidade e gulodice desregrada, ideia partilhada por Pedro Mexia: “A descoberta de Apocalípticos e Integrados coincidiu com a minha propensão para gostar da alta e da baixa cultura. Sempre gostei muito de cinema, de música pop, e achei interessante o argumentário do Eco, a legitimação cultural que fez no livro."

Para o crítico literário, poeta e cronista do Expresso, interrogar a pertinência actual do debate desenvolvido pelo autor italiano conduz a uma reflexão curiosa. “Este artigo sai num suplemento que resolveu essa questão, ao tratar, ao mesmo tempo, de cinema, literatura, música pop, banda desenhada. Ainda há pessoas que acham que as coisas pertencem a patamares diferentes, mas creio que na prática a querela se resolveu, é pacífica."

Mas reler Apocalípticos e Integrados permite imaginar, pelo tom cauteloso e elegante da escrita de Umberto Eco, o ambiente do debate no interior da Universidade. “Em algumas passagens talvez esteja a pedir desculpa, mas temos de ter em conta o contexto em que o livro apareceu. Nos anos 60, o Eco parece um enfant-terrible, tem a capacidade de abordar assuntos que não eram considerados respeitáveis. Havia alguma provocação por um lado, humor até, mas também um interesse genuíno, um prazer”, diz Pedro Moura.

Arnaldo Saraiva fala de uma sensibilidade, mas também da capacidade de projectar um olhar distinto sobre as coisas. “Foi hábil e ecléctico o suficiente para não se colocar do lado dos integrados, ou para não arrumar em compartimentos fechados a alta, a média e a baixa cultura. Diz quais são os prós e os contras da cultura ou da sociedade de massas e não deixa de mostrar o que há de complexo em mensagens aparentemente simples, o que há de interessante no kitsch, o que há de significativo e criativo no esforço de produção de efeitos ou na maquilhagem ideológica e publicitária."

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Umberto Eco com José Saramago na cerimónia de entrega dos prémios Príncipe das Astúrias, em 1998: a sua obra chegou a Portugal com mais de 20 anos de atraso SERGIO PEREZ/ REUTERS

Cultura(s) de nicho
Um dos aspectos que Pedro Mexia recorta da sua leitura é a ideia de uma estética da recepção, que terá levado, entretanto, a inevitáveis sobre-interpretações. “Para um crítico inteligente, todos os objectos são interessantes e creio que o Eco é um autor que vê coisas que nós não vimos. Mas tenho uma colecção de artigos e livros sobre a música dos The Smiths – e algumas canções aguentam as interpretações feitas, mas outras não. No livro, o artigo sobre o Charlie Brown justamente aguenta a leitura, as ideias do Eco. Gosto muito da descrição que ele faz da série como uma enciclopédia das fraquezas humanas. Encontra aí uma mundividência, como eu a encontro na obra dos The Smiths. Julgo que as coisas que nos marcaram quando éramos novos têm um valor que é independente do seu valor estético."

O ponto de vista de Pedro Moura sobre O Mundo de Charlie Brown não só é mais académico, como sinaliza uma transformação. “Há um lado emocional que não impede a análise crítica, mas vale a pena lembrar que esse artigo foi escrito, porventura, nos primeiros anos da década de 60, numa época em que a BD não tinha memória de si, não existiam edições históricas. Acaba por ser um texto impressionista, com considerações genéricas, sem prejuízo da interpretação sensível que faz." Para o estudioso de BD, a conclusão é muito clara. Já não é possível considerar esta disciplina artística como fazendo parte da cultura de massas, pois em quase todos os países ocidentais a sua circulação presente é muito mais diminuta do que nos anos 1960-1970. “Há uma fragmentação e uma atomização de culturas de nicho, e uma restruturação variada da sua produção. A BD, mesmo das personagens que têm presença nos grandes ecrãs, não vende assim tanto. Logo a análise cultural que se faz dela, hoje em dia, deve ser diferente daquela que o Eco cumpriu, por mais importante que tenha sido."

Se a música pop e a banda desenhada ganharam um estatuto académico, a verdade é que só com muito boa-vontade se nega a degradação dos sucedâneos hodiernos da cultura de massas. Basta ligar a televisão e rádio. Qualquer leitor concordará, por exemplo que acabaram traídas as expectativas cautelosas de Umberto Eco sobre a capacidade educativa da televisão. Pedro Mexia não discorda, mas complementa com um comentário que se articula com as mutações sofridas pela banda desenhada em termos de produção, circulação e recepção. “Uma pessoa letrada terá horror à televisão, sobretudo depois do espectáculo dos reality-shows, e, no entanto, a mesma pessoa concordará que tem havido melhor ficção nas séries americanas do que no cinema americano. Não é fácil negar a qualidade de séries com Os Sopranos, The Wire ou Mad Men. É claro que a televisão por cabo concorreu para isso. As coisas segmentaram-se, tribalizaram-se."

Cidadão, consumidor?
O mundo tornou-se mais complexo, mas as velhas dicotomias insistem em sobreviver. Se, como Pedro Mexia sugere, a controvérsia sobre a legitimidade cultural de certas artes parece sanada, a chama dos apocalípticos continua bem acesa. “Há a ideia de que a cultura chegou a um estado de exaustão, de que o cinema morreu, de que nas livrarias não há nada de interessante. É um discurso que se tornou muito comum. A hostilidade à massificação que o Eco refere, e identifica em autores com diferentes orientações políticas, não desapareceu”, afirma o crítico literário, que vislumbra nessa posição uma nota nostálgica. “Lembro-me de uma frase que julgo ser de George Steiner [ensaísta e crítico literário americano] em que ele diz que que as edições escolares têm cada vez mais notas de rodapé porque hoje os estudantes não sabem quem é Zeus. Há aí um lamento sobre uma progressiva perda de memória cultural."

Não será esse um lamento cada vez mais urgente? Afinal a situação ideal a que se refere Umberto Eco – a de um consumidor que também é cidadão – parece cada vez mais difícil de manter. “Acho que é muito complicado ou problemático impor qualquer dirigismo cultural, dizendo às pessoas o que devem querer, do que devem gostar”, responde Pedro Mexia. “Há aí uma dimensão que, não sendo equivalente, pode ser considerada paralela, que é a do cidadão enquanto votante. Não temos de dar, julgo eu, a sua escolha como boa ou má, apenas como válida. De outro modo, [muitos] não votariam. É verdade que há 50 mil pessoas que já viram O Pátio das Cantigas… Era melhor que acompanhassem o ciclo do Tati? Talvez, mas que alternativa nos resta?”

Pedro Mexia não se considera um optimista, mas elogia o acesso das pessoas à cultura e a importância da divulgação das grandes obras, posição em que Pedro Moura também se revê não sem enfatizar, no âmbito do seu trabalho, certas condições: “Para se criar um discurso crítico, temos de ser exaustivos e por vezes movidos pelos nossos princípios éticos, que têm de ser inabaláveis, ou não o serão, mas ao mesmo tempo é isso que o Eco discute como o equilíbrio entre ser-se apocalíptico ou integrado. Um excesso dessas posições não é bom." Arnaldo Saraiva procura o mesmo equilíbrio. Inspirado pelo contributo de Umberto Eco – uma referência incontornável, com Roland Barthes, para os ensaios de Literatura Marginalizada (1975-1980) e do livro Canções de Sérgio Godinho (1977-1983), títulos relevantes, a (re)descobrir na sua produção intelectual –, o professor e investigador não se vê como um apocalíptico: “Não, não sou. Mas não esqueço a advertência de Eco. Por vezes os apocalípticos fazem o jogo dos integrados, e vice-versa. O jornal, a rádio, o cinema, a televisão, o computador produziram grandes acelerações na educação e na democratização das sociedades. Mas sei do mal que fazem quando se submetem aos poderes económicos, políticos e religiosos, ou manipulam, narcotizam e imbecilizam as pessoas. As televisões de hoje cumprem quase todas, despudoradamente, este papel. E a Internet, com todo o bem que trouxe à humanidade, veio favorecer e facilitar as maiores perversões e falsificações."