Editorial

A Europa que tem as "costas largas"

Não há um caminho fácil para a crise dos refugiados. Mas o que é feito do plano de Abril?

A Europa continua à procura de respostas para a maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial e nos últimos dias os holofotes viraram-se para a Hungria, onde Viktor Orbán, não obstante o repúdio mostrado pelo Comissão Europeia, está a construir uma vedação de 175 quilómetros ao longo da fronteira com arame farpado e betão para travar a nova onda de migração vinda sobretudo da Síria e que atravessa os Balcãs para tentar chegar às fronteiras do Espaço Schengen. E continuamos todos os dias a ouvir relatos de casos degradantes em termos humanitários. Depois dos episódios de violência na Macedónia na semana passada, esta quarta-feira a polícia húngara lançou gás lacrimogéneo para impedir a saída de 200 pessoas de um centro de acolhimento em Roszke. Isto, no mesmo dia em que no Mediterrâneo a guarda costeira italiana socorreu uma embarcação com mais de 400 pessoas. No porão do barco estavam 50 mortos.

Foi, aliás, um naufrágio de um navio que fazia precisamente esta mesma rota – da Líbia em direcção à costa italiana –, e que provocou a morte de 900 migrantes, em Abril, que fez disparar os alarmes na Europa e levou os líderes europeus a uma grande cimeira de onde saiu um plano da Comissão que obrigava os 28 a acolher e a recolocar 40 mil migrantes. Além de o número ser claramente insuficiente (desde o início deste ano mais de 400 mil pediram asilo na UE), o que é feito deste plano quatro meses depois? De obrigatório passou a voluntário, caiu no esquecimento, e há casos caricatos de países como a Eslováquia, que diz aceitar “talvez uns cem ou duzentos” (a quota obrigatória inicial era de 1200), mas desde que sejam apenas imigrantes cristãos. Muçulmanos nem pensar. “Não temos aqui mesquitas”, ainda tentou justificar.

E as promessas feitas em Abril, e na altura resumidas pela chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, de atacar o problema nos países de origem da imigração? Ainda ontem a Reuters recordava que há sites na Internet e páginas de Facebook escritas em árabe, informando sobre formas de contactar os traficantes de pessoas e até com recomendações a dizer se são bons ou maus traficantes. Uma espécie de "tripadvisor" mórbido para pessoas desesperadas que fogem da guerra.

É sobre esta Europa que o anterior presidente da Comissão Europeia falou esta quarta-feira na Universidade de Verão do PSD. Durão Barroso diz que não se deve atirar as culpas à Europa, já que “são os governos europeus que não estão a ser capazes de se entender relativamente às propostas que a Comissão Europeia [fez por] solidariedade e responsabilidade na resposta a essa crise, essa emergência". Essa Europa que Barroso diz ter as "costas largas" simplesmente não existe. Existem 28 países que tomam decisões de uma forma isolada e quando as tomam de forma colegial são esquecidas passados quatro meses. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, diz que os imigrantes são uma ameaça à “prosperidade e à identidade” da Europa. Que identidade é esta?