Editorial

O argumento geográfico

As massas de gente em fuga das guerras não vai parar. A União Europeia tem obrigação e tem interesse em encontrar respostas

Para além dos argumentos éticos, políticos e humanitários, há um quarto saber obrigatório no debate sobre a crise humanitária que, em dois anos, transformou o Mar Mediterrâneo num cemitério: o argumento geográfico.

É útil olhar para o mapa do Mar Mediterrâneo. A primeira coisa que salta à vista é o facto de haver muitos países. São 22. A seguir, vale a pena olhar para a linha de costa de cada um deles e verificar os quilómetros: Albânia, 362km; Argélia, 1644km; Bósnia-Herzgovina, 20km; Croácia, 5835km; Chipre, 648km; Egipto, 2900km; Eslovénia, 46km; Espanha, 4964km; França, 5500km; Grécia, 13.676km; Israel, 273km; Itália, 7600km; Líbano, 225km; Líbia, 1770km; Malta, 197km; Marrocos, 2945km; Mónaco, 4km; Montenegro, 294km; Palestina, 230km; Síria, 193km; Turquia, 8000km; e finalmente a Tunísia, com 1148km.

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Somados, são mais de 56 mil quilómetros de costa. O exercício serve apenas para evidenciar que há 56 mil possibilidades de partida e chegada para quem quer fugir.

A palavra “mediterrâneo” vem do latim “mediterraneus”, que junta “meio” e “terra”. Não há dúvida de que este é o mar que está “no meio de terra”. No norte está a Europa e a Anatólia já a fugir no lado asiático da Turquia; no Sul está a África; e a Leste, o Levante, Síria, etc. No “meio de terra” é um nome apropriado. As distâncias entre as terras banhadas pelo Mediterrâneo são tão pequenas que, desde tempos imemoriais, várias civilizações o atravessam – pelo menos desde 130 mil anos a.C.. De Aleppo, na Síria, até Bodrum, na Turquia, são 1200km por estrada, 15h a guiar. De Bodrum – a antiga Halicarnassus onde nasceu Heródoto – à ilha grega de Cos são apenas 23km. Se o mar estiver calmo, a travessia de Karabag, na Turquia, a Cos chega a demorar apenas 35 minutos.

Em Bruxelas todos parecem ter esquecido o bê-á-bá da geografia. Mas estas pessoas – a quem a ONU chama “refugiados”, os jornais “migrantes” e os governos europeus “ilegais” – não vão desistir.

Dos 260 mil que chegaram nos últimos meses à Europa através do Mediterrâneo, entre 60% a 80% vieram de países em guerra, sobretudo a Síria. Não devem ser tratados como ilegais prontos a serem repatriados. Não são jovens aventureiros à procura de qualidade de vida. São famílias a fugir da guerra e que deixaram para trás países destruídos. Há milhares de crianças em movimento. Em carros, comboios, barcos e aviões. E a pé. Nas últimas semana, deu-se uma clara aceleração. Só esta noite passaram sete mil pessoas, muitos delas sírios, da Macedónia para a Sérvia, a caminho da União Europeia. Depois de dias de espera, viram-se sorrisos de alívio. A urgência tem com certeza a ver com os timings do muro que a Hungria está a construir na fronteira com a Sérvia. Entrar na Hungria é entrar no espaço Schengen. Esta gente em fuga quer ir para o norte. E o norte – nós – tem a obrigação moral, política e humanitária de os receber.

Tem também, a favor disso, a inexorabilidade da geografia – que nos mostra que há 56 mil pontos de saída e de entrada no Mediterrâneo. Se não for por um ponto, estas pessoas, desesperadas e em fuga, entrarão por outro. Já não têm nada a perder a não ser a própria vida.