Macedónia deixa entrar refugiados e envia-os “rapidamente” para a Sérvia

Activistas questionam-se sobre o súbito aparecimento de tantas carrinhas e autocarros “para levar migrantes esfomeados” à fronteira sérvia. “É este o plano humanitário do Governo?”

Depois de dias de caos e de confrontos, em que os militares da Macedónia usaram bastões, gás lacrimogéneo e granadas de atordoamento para impedir a entrada de refugiados naquele país, muitos terão já conseguido passar a fronteira. Alguns, angustiados com a espera, impacientes, depois de noites ao relento e à chuva, terão usado uma zona menos vigiada para entrar e, apesar de perseguidos pela polícia, conseguiram fugir por campos. Os outros, que continuavam do lado de lá da fronteira, na Grécia, acabaram por ser autorizados a entrar.

A Macedónia tinha declarado estado de emergência na quinta-feira e fechado as fronteiras a sul do país, impedindo os refugiados, a maior parte a fugir da guerra na Síria e de outros conflitos, de usar aquele país como passagem para chegar à Hungria e daí para qualquer outro país do espaço Schengen. Esse impedimento levou a situações de desespero e impaciência junto à fronteira, com pessoas a dormirem ao relento e com acesso limitado a comida ou a água.

O que terá acontecido ao final do dia de sábado poderá ter sido resultado deste desespero. Muitos dos refugiados que continuavam do lado grego arriscaram passar por uma zona na fronteira com menos vigilância e sem arame farpado. Segundo o jornal norte-americano The New York Times, os militares ainda perseguiram e agrediram os refugiados, que conseguiram, porém, correr e fugir pelos campos em redor. 

O Estado terá, depois, permitido a entrada dos restantes refugiados, disponibilizando mais comboios e autocarros para os levar “rapidamente”, escreve a Reuters, para o Norte da Sérvia. A súbita mudança de estratégia apanhou toda a gente de surpresa – refugiados e activistas – e no sábado à noite, segundo o New York Times, não tinha ainda sido dada uma explicação oficial.

Este jornal norte-americano cita, aliás, uma declaração feita pelo presidente de uma ONG de apoio a migrantes (Legis), Jasmin Redzepi, a um canal televisivo da Macedónia, questionando-se precisamente sobre o súbito aparecimento de tantas carrinhas e autocarros “para levar migrantes esfomeados” à fronteira sérvia. “É este o plano humanitário do Governo?”, perguntou Redzepi.

Uma longa viagem
O enviado da Reuters, que falou com alguns dos refugiados, conta que o sírio Abdullah Bilal, de 41 anos, estava espantado, mas satisfeito, com os comboios e autocarros à disposição. “Passei uma etapa, mas ainda é um longo caminho até ao meu destino. Com a ajuda de Alá chegarei à Alemanha”, dizia Mohannad Albayati, 35 anos, também sírio, a fazer toda esta viagem com a mulher, duas crianças e três irmãos.

A Macedónia tem sido criticada pelas organizações humanitárias por não aumentar a capacidade de receber refugiados que têm chegado em número recorde à Grécia e daí pretendem seguir viagem pelos Balcãs. Os refugiados começaram a chegar à Sérvia durante a noite de sábado, tendo sido necessário encontrar centros para os acolher. Fonte do Governo sérvio disse à Reuters que, na noite de sábado para domingo, já depois da meia-noite, o primeiro grupo de 200 pessoas cruzou a fronteira. “Até agora temos mais de cinco mil novas chegadas. Este é o maior número num dia até agora. Estão à espera em longas filas enquanto tratamos dos seus processos.”

Os números ainda não são absolutamente claros. O Wall Street Journal escrevia que, ao fim do dia de sábado, subitamente, a polícia permitiu que cerca de dois mil refugiados e imigrantes entrassem na Macedónia. O New York Times escreve que terão sido quatro mil os que conseguiram cruzar a fronteira, incluindo os que escaparam à vigilância policial (no caso, este jornal relata que houve refugiados que conseguiram contornar um cordão de militares com bastões) e os que foram depois autorizados a entrar. Alguns terão continuado a viagem para Norte, em direcção à fronteira sérvia, através de táxis ou de autocarros, mas a maioria dirigiu-se para a estação de comboios.

Na Europa, que enfrenta uma crise de refugiados, muitos líderes políticos insistem que estas pessoas em fuga são imigrantes económicos, quando as nacionalidades evidenciam que fogem de guerras (e mesmo quando não estão a fugir de conflitos, são, ainda assim, pessoas que chegam em situações de extrema vulnerabilidade e que precisam de ajuda).

Além disso, há países que se acusam mutuamente, tentando empurrar o problema para a fronteira mais próxima ou construindo muros, como a Hungria. A Macedónia, por exemplo, acusa a Grécia de ajudar os refugiados a viajar para o norte a um ritmo ao qual o país dos Balcãs não consegue responder. 

Num artigo publicado neste domingo no jornal Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, o vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Frank-Walter Steinmeier, defenderam que a política relativa ao direito de asilo na União Europeia deve ser unificada, reforçada, e os refugiados distribuídos pelos vários países de forma justa. Os governantes estão preocupados com o elevado número de refugiados que querem chegar à Alemanha e criticam o facto de só alguns países estarem a assumir responsabilidades.

No sábado, a chegada de centenas de refugiados a Heidenau, perto de Dresden, Alemanha, motivou protestos, com garrafas, pedras e petardos, entre a polícia e manifestantes de extrema-direita.