Opinião

Duas classes médias

Um olhar que pudesse sobrevoar o Atlântico num desdobramento capaz de captar a “guerra de classes” que atinge neste momento a Europa do sul e a América Latina (com especial incidência no Brasil) talvez possa dar visibilidade a novos contornos da conflitualidade sociopolítica, tomando como referência a noção de “classe média”, que aqui sugiro desdobrar em duas categorias.

As classes antagónicas estruturadas no seculo XIX ganharam expressão política quando as contradições socioeconómicas começaram a coincidir com identidades coletivas inconciliáveis. Embora as divisões categoriais nunca tenham coincidido com grupos homogéneos, a narrativa marxista que na Revolução Industrial e depois disso opunha burgueses e proletários só ganhou expressão porque o operariado faminto e explorado dos núcleos industriais ingleses já estava em rebelião. Mais do que a “consciência de classe” foi a revolta coletiva que deu sentido à utopia socialista desenhada por Marx e Engels, e instrumentalizada por Lenine em 1917.

Ora, o fenómeno social que no seculo XX mais contrariou essa divisão dicotómica da sociedade no mundo ocidental foi a “classe média”. Esta categoria sociológica composta por todo um conjunto de novas camadas profissionais assalariadas foi a “terceira” pulverizou o velho conflito industrial ao protagonizar o exemplo de sucesso e comprovar a viabilidade da sociedade meritocrática. Porém, esta “nova” classe média não se limitou a replicar o individualismo empreendedor do pequeno empresariado do comércio e indústria. Protagonizou igualmente novos conflitos e lutas coletivas. Embora ao arrepio da velha luta de classes, estes setores profissionais foram conquistando estatuto e poder económico, enquanto o seu sindicalismo corporativista ajudava a consolidar o Estado providência.

É neste quadro que podemos falar em “duas classes médias”. No passado, o discurso dicotómico galvanizou as lutas operárias contra o capitalismo. Hoje, o discurso das oportunidades e do empreendedorismo atingiu um nível tal de irrealismo que levou a classe média a cindir-se em dois campos opostos. Os que pretendem ascender (ou recuperar o seu anterior estatuto) e os que exigem o exclusivo de um status distintivo. A guerra instalada entre esses setores assume, naturalmente, contornos diferentes em função do contexto socioeconómico e político que se vive em cada um dos continentes onde ela decorre. Deixando de lado por agora os EUA e o continente asiático – onde as classes médias constituem igualmente o barómetro do crescimento económico –, centremo-nos na Europa do sul e na América Latina.

Em países como Portugal e Grécia, onde o “sul do norte” tem sido vergado ao austeritarismo da Europa central, a força das elites e do poder alemão empurram as classes médias-baixas para o campo da classe trabalhadora e do “precariado”. A resistência esporádica, que emerge de tempos a tempos, exprime uma nova aliança entre uma classe média empobrecida e o novo proletariado qualificado do século XXI (veja-se as rebeliões de 2011-2012). Tendo deslizado com a crise, essa classe média debate-se hoje entre a nuvem ideológica neoliberal – a fatalidade da austeridade – e a revolta latente contra as medidas espartanas da disciplina ariana (e seus dóceis representantes domésticos). As classes médias do sul da Europa perderam a sua velha função de almofadas do modelo social europeu quando esse modelo começou a ruir. É verdade que a sua resistência foi passageira e hoje parece resignada à inevitabilidade claustrofóbica do dictat instalado; mas qualquer novo impulso de irreverência que volte a surgir da sociedade civil pressupõe uma luta da classe média ao lado dos segmentos mais precarizados.

No Brasil há outras demarcações a considerar. Digamos que há duas classes médias. Os quarenta milhões tirados da miséria na era do lulismo são a nova classe trabalhadora, que já incorporou direitos laborais, mas que se move, hoje, não tanto pelo trabalhismo ou pelo discurso sindicalista mas pela pulsão do consumo (e portanto pela miragem de um estatuto de classe média). Foi isso que ocorreu com os amplos movimentos de junho de 2013, que reuniram os novos segmentos descontentes das periferias urbanas com os velhos segmentos instalados em torno do discurso anti-corrupção. A exigência de melhores serviços públicos, de um Estado de direito, e o direito a uma vida digna, previsível e regulada, estiveram entre as preocupações dos manifestantes brasileiros há dois anos. Mas em 2015 os movimentos populares perderam o ânimo e o “petismo” encontra-se paralisado pela dimensão dos escândalos e a força mediática da direita reacionária.

Agora, as duas classes médias parecem desencontradas, mas a ausência de um projeto de esquerda que reagrupe a classe “C” com o operariado sindicalizado deixa o terreno livre para que a classe média instalada (classes A/B) possa bramir, de espada em punho e em registo vingativo, por uma “ordem moral” que ela própria sempre desprezou. O elitismo preconceituoso, disfarçado de nacionalismo amarelo e verde, não esconde o seu verdadeiro desígnio, visível no aplauso aos militares (e no apelo ao seu “regresso”).