Salazar, os monumentos e o betão armado

Há um curioso denominador comum entre as duas principais esculturas que, em Lisboa e no Porto, celebram a gesta dos Descobrimentos e esse momento fundador da expansão que foi a Tomada de Ceuta: ambos são projectos posteriores aos concursos originalmente lançados para o efeito, e ambos resultaram da intervenção, directa ou indirecta, de Salazar, o presidente do conselho do Estado Novo.

No caso de Lisboa, o actual Padrão dos Descobrimentos resulta da adaptação de um projecto bastante anterior no tempo. Instalado em 1960, a assinalar o 5.º centenário da morte do infante D. Henrique, o Padrão é a reprodução, agora em material duradouro (betão, pedra rosal e calcário), da escultura efémera que Leopoldo de Almeida realizou, a convite de Cottinelli Telmo, para a Exposição do Mundo Português de 1940. Mas esta foi uma escolha política, não estética. Tratou-se - por decisão directa de Salazar - da "trasladação" para Lisboa do projecto de imortalizar a figura do infante no promontório de Sagres inicialmente lançado no final da década de 1920.

Foi em 1933 que o Governo lançou o primeiro concurso para a realização do monumento naquele lugar mítico, e que viria a ser ganho pelo arquitecto Rebelo de Andrade e pelo escultor Rui Gameiro. Salazar considerou-o "um formidável desastre artístico" e, três anos depois, um novo concurso foi promovido. O arquitecto Carlos Ramos, o pintor Almada Negreiros e o escultor Leopoldo de Almeida (com uma estátua monumental do infante) foram os vencedores, mas o resultado foi igualmente ignorado.

Um terceiro concurso - desta vez internacional - foi lançado em 1954, de que saiu vencedor o projecto Mar Novo (João Andresen /Júlio Resende/ Barata Feyo). Salazar voltou a não gostar ­- e José-Augusto França, citado pela historiadora de arte Lúcia Almeida Matos, no seu livro Escultura em Portugal no Século XX, 1910-1969, lamentava, em 1957, ter-se perdido "a primeira oportunidade de haver em Portugal uma amostra de arquitectura viva, honrada e actual".

O líder do Estado Novo decidiu então que o monumento seria feito em Lisboa, com a reconstrução - anacrónica - do monumento da Exposição de 1940, que entretanto tinha sido destruído por uma tempestade.

No Porto, aconteceu algo parecido. Igualmente com o pretexto do 5.º centenário da morte do infante, a Escola de Belas Artes lançou em 1959 um concurso para um monumento no Largo do Ouro, um dos cais históricos da cidade. O concurso foi ganho pelo projecto conjunto do escultor Lagoa Henriques, do arquitecto então recém-formado Alcino Soutinho e de dois estudantes da escola, Augusto Amaral e... Álvaro Siza. Tratava-se de uma espécie de passeio público, com árvores feitas de betão e uma escultura de bronze. "O nosso projecto era interessante, porque era um arranjo da marginal, uma intervenção urbana, mais do que apenas uma escultura", recordou Soutinho (ver revista O Tripeiro, de Outubro de 2013). "Trabalhámos com verdadeiro espírito de equipa, evitando, não sem esforço, qualquer preconceito à volta do que seja "a integração das artes"", acrescentou Siza, citado por Lúcia Almeida Matos.

Sem que estejam documentadas as razões, o projecto haveria de avançar apenas com a assinatura de Lagoa Henriques. Soutinho atribuiu a decisão de novo à intervenção de Salazar, "que não gostava do betão". E o escultor que depois haveria de fazer o Fernando Pessoa para a esplanada d"A Brasileira, em Lisboa, acabou mesmo por concretizar o seu projecto no Porto, no actual Largo de António Calém. Com o título A Conquista de Ceuta, este monumento manteve algo do projecto colectivo original de criar um novo espaço público, demarcado por uma parede-cenário em granito com o mapa-múndi dos Descobrimentos Portugueses e citações de textos da época, e um grupo escultórico ao centro simbolizando o trabalho e o envolvimento dos portuenses na preparação da armada que saiu desta cidade liderada pelo infante D. Henrique.