Teremos sempre a Primavera

Perante a performance das patrióticas canções do Norte cheio de neve à espera da Primavera, Soon Mi-Yoo, sul-coreana, aponta ao silêncio. Procura entender, fazendo com que os vultos fantasmagóricos que deambulavam pela neve e nevoeiro da Coreia do Norte adquiram um rosto.

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Canções do Norte coloca no centro uma questão de crença: é a crença "deles", norte-coreanos, e a "nossa" crença - neles DR
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Vê-se Canções do Norte com a sensação de queda iminente. E a espaços ela acontece: a realizadora, a artista sul-coreana Soon Mi-Yoo, actualmente a residir nos Estados Unidos, em Cambridge, Massachussets, experimentou a sensação de ficar sem chão nas três viagens que fez - a primeira em 2010 - a um buraco negro: um território de medos e mitos chamado Coreia de Norte.

Com isso, o espectador também fica sem certezas.

É que Canções do Norte, diário filmado, reportagem obviamente falhada, proposta alternativa quer à performance da propaganda totalitária quer à hegemonia dos valores dos espectadores do mundo livre, é um filme sobre a incerteza. É um filme incerto. Vacilante até na forma como Soon Mi-Yoo vai "viajando", depois das viagens que fez, pelo material que conseguiu filmar (tinha de parar sempre que um guia lhe ordenava...) e pelos filmes que fazem a narrativa de um regime. Perante a performance das patrióticas canções do norte, Soon Mi-Yoo, sul-coreana a olhar para uma parte de si própria, aponta ao silêncio. Procura entender, fazendo que os vultos fantasmagóricos e manipulados que deambulam pela neve e nevoeiro adquiram um rosto. Mas não pode encontrar verdades.

É um diário sobre uma dificuldade: a de vaticinar o que quer que seja sobre as lágrimas e violenta devoção dos norte-coreanos face aos seus queridos líderes. Canções do Norte coloca no centro uma questão de crença: é a crença "deles", norte-coreanos, e a "nossa" crença - neles.

Há dois momentos no filme que, mesmo tendo acontecido por acaso, porque este diário foi sendo filmado ao longo de anos e de acordo com o que conseguia filmar, estão no filme para dizer coisas sobre si, penso. E sobre nós, espectadores. São imagens de queda: uma, no início, dois acrobatas, um a cair durante uma exibição; outra  quando filma uma feira do alto e a plataforma onde está vem abaixo. Vê-se Canções do Norte com a sensação de queda iminente: o chão, aquilo que pensamos como seguro, adquirido, desaparece. Isto somos nós perante a Coreia do Norte?
É astuto ao notar isso, essas duas quedas. Há quedas mas também, se o espectador reparar, há coisas a subir. Cai-se e a seguir há a imagem de um satélite a ser lançado. Sim, foi intencional mas também, como disse, a princípio apenas queria filmar o máximo que podia, até alguém me ordenar para não filmar mais. Na segunda situação de queda, foi a minha guia que me desafiou a subir para conseguir uma boa imagem, tendo eu acabado de lhe dizer que desde miúda tinha medo de subir àquelas coisas.

Começar com aquela imagem dos acrobatas foi logo uma ideia. Até porque é assim que os norte-coreanos se vêem, faz parte da narrativa oficial: uma queda vertiginosa no abismo até que os “Queridos” Líderes amparam a queda e fazem o país subir.

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Soon-Mi Yoo. Sul-coreana, fez a primeira de três viagens à Coreia do Norte em 2010, integrada em grupos turísticos, filmando até lhe dizerem para parar. Não tem planos, hoje, de regressar, não se sentiria segura DR

Filmou durante três ou quatro anos, em várias viagens à Coreia do Norte. O filme é o resultado da sua resposta ao material que ia filmando e às impressões que recebeu. A sensação de queda também é a sua: uma relação com parte de si própria.
Acho que se pode dizer isso, sim. Porque estive sempre em negação em relação a esse lado de mim.

As viagens foram difíceis, a relação com o material também. Em parte pela frustração de não conseguir filmar o que queria ou porque quando me levavam a um sítio que queriam que eu visse, não permitiam que ficasse o tempo suficiente para filmar. Era sempre: “Vamos ali” e a seguir “Agora vamos ali”. Como gosto de experimentar as coisas e só depois documentá-las, foi difícil. Mas é verdade o que diz: foi complicado ultrapassar a minha antipatia pelo regime e pelo lugar. O que é evidente em todos os documentários sobre a Coreia do Norte: o repórter vai e odeia tudo a que é submetido, as restrições, as lavagens ao cérebro... É preciso uma adaptação a essa reacção inicial – para nós que vivemos deste lado do mundo. É como se entrássemos num buraco escuro, como se caíssemos num abismo.

O jornalismo tem falhado quando lida com a Coreia do Norte? O que é que um jornal hoje teria de fazer para não falhar? Como é que o seu filme é uma alternativa?
Parte do problema é que os jornais hoje não têm possibilidade de enviar os seus repórteres com tempo suficiente para estudarem um “tema” como a Coreia do Norte. O outro problema é a dificuldade em ultrapassar preconceitos e ideologias, apesar de o Ocidente reclamar para si o pensamento livre. Tudo isso combinado, às vezes, com a ignorância em assuntos de História e de Geo-Política. Isso faz com que as pessoas reajam à superfície ao que encontram: é uma reacção emocional à realidade. Esta parece-me ser a tendência.

Quando comecei este projecto tentei arranjar forma de ir para além destas atitudes, passar por cima destas atitudes: as pessoas entram, vindas do Ocidente, com a sensação de que vêm do sítio certo, correcto, do mundo livre e democrático, e já com uma ideia que apenas confirmam. A Coreia do Norte é uma boa desculpa para virem cá para fora todos os pontos de vista hegemónicos sem termos que os questionar.

Como é que conseguiu filmar? Como é que uma sul-coreana com ligações aos EUA entrou no país? O material foi visto? A câmara foi apreendida? – pensa-se nisto. Como foi a logística de entrar e de estar lá, de filmar?
Costuma ser como diz, mas a Coreia do Norte mudou. Não tanto como as pessoas gostariam, mas mudou. Estão mais interessados no turismo. Este filme era um projecto que queria fazer há muito. O meu irmão é advogado na Coreia do Sul e está ligado a projectos de construção de escolas na Coreia do Norte. Quando há dez anos lhe falei nisso, ele disse-me que era demasiado perigoso. Mas em 2009 apresentou-me a certas pessoas, encontrei alguém com conexão ao regime e foi assim que fui pela primeira vez, em Dezembro de 2010. Era eu e os meus guias. Não há turismo no Inverno na Coreia do Norte porque é muito, muito frio. As estradas estão intransitáveis por causa da neve: a neve é retirada com pás e só as estradas principais estão limpas. Ir lá pela primeira vez no Inverno foi importante, porque a dureza da paisagem, do frio, ficou comigo durante muito tempo e percebi que o Inverno funciona no imaginário norte-coreano como símbolo das contrariedades e espera pela Primavera: por mais duro que seja o Inverno, a Primavera virá e essa é a crença na Coreia do Norte. Percebi isso depois dessa viagem.

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A Coreia do Norte autoriza a entrada de americanos e de cidadãos dos outros países. Os sul-coreanos não estão autorizados a entrar legalmente, a não ser que haja um acordo pontual entre os governos. Os europeus podem entrar como turistas. Os norte-americanos começaram a poder entrar há alguns anos. Fui em 2012 integrada numa viagem académica, que juntava professores de literatura. E os turistas podem tirar fotografias nos locais que eles mostram. Tentei manter os olhos bem abertos e filmar o máximo que conseguia sem me envolver em confusões. Quando me pediram para verificar o material, fi-lo de boa vontade porque nunca estive interessada em filmar aquilo que os pudesse envergonhar. Ao mesmo tempo eles não podiam esconder as pessoas que se deslocavam na rua para o trabalho e era isso, fundamentalmente, que me interessava.

Se calhar a questão do filme é a crença: a crença dos norte-coreanos na narrativa do país, o que passa para nós um dilema: como (não) acreditar neles? Há sequências em que vemos pessoas a acreditar de forma tão extrema, tão violenta... por exemplo, o miúdo que, numa sala de espectáculos cheia, conta a chorar como o pai foi inimigo do povo, como a mãe morreu de desgosto e como ele está feliz por ter sido adoptado pelo Líder – toda a gente a chorar, no palco e fora do palco. Antes disso, há aquele plano, filmado do seu quarto de hotel, de uma paisagem de nevoeiro e neve, e as pessoas apenas fantasmas, vultos, a deambularem. É como se a performance emocional fosse a possibilidade de identidade, de rosto.
Essas cenas de que fala são as imagens cruciais em que o meu filme assenta. Comecei a filmar do hotel, na manhã a seguir à chegada. Fui acordada pelos altifalantes lá fora, a falarem nos Líderes, no amor dos Líderes e etc. Era muito cedo, olhei para fora e vi as pessoas a andar, a tentar fugir do frio e do vento. Parte de mim não conseguia acreditar que houvesse tanta gente na rua naquelas condições. Ao mesmo tempo era uma paisagem espantosa.

Quando voltei dessa viagem e olhei para as imagens comecei a pensar nas pessoas como fantasmas. A paisagem é como uma ruína de guerra, como se não tivessem recuperado de uma guerra, fantasmas que deambulam ... comecei a pensar - isso ficou no texto do filme, saído quase directamente do meu livro de notas - como é que eles conseguem sobreviver? Comecei a perceber o poder das canções. Se tivesse que ouvir aquilo todas as manhãs enlouquecia. Eles devem estar fartos daquilo, se calhar já não ouvem, é apenas barulho... mas funciona como consolo, é melhor do que apenas deambular no frio. Toda a gente conhece as canções... não são só palavras, é melodia, é boa música, e as pessoas são embaladas por isso. É assim que vejo, é assim que tento compreender, não sei se estou correcta.

O regime, obviamente, dá ênfase às artes. Quando se vê a performance do rapaz é inquietante, de facto. De cada vez que vejo continuo a não saber o que pensar. Ficamos emocionados com a criança, mas o que o regime obriga as pessoas a fazer... é complicado. Pela minha pesquisa, e de acordo com as minhas impressões, essa é a narrativa da Coreia do Norte: “Os meus próprios pais não me conseguiram salvar, mas o Querido Líder conseguiu-o”. Isso vem do facto de Kim Il-sung ter tomado conta dos orfãos na guerra contra os japoneses, nos tempos coloniais. É uma das narrativas fundadoras: o país como grande família com Kim Il-sung como pai. Ele é o protector – o neto [Kim Jong-un] apenas está a ocupar uma cadeira vazia. Os coreanos choram facilmente, são pessoas emotivas. Mas claramente isso também é orquestrado, são anos de prática.

Continua a ser misterioso quando, deixando esse lado performativo, obviamente orquestrado, a sua câmara encontra o silêncio de um homem, na rua, que se emociona perante a memória de Kim Il-sung - sem espectadores, ele chora.
O que tentei fazer foi compreendê-los. As pessoas falam na Coreia do Norte como se falassem numa seita religiosa, num culto. Há certamente elementos disso. Não sou religiosa, e quando conheço alguém que declara a sua religião, crença, não vou iniciar uma discussão para contrariar a crença, ou o ridículo da crença. E não o quis fazer aqui, o julgamento não é o meu trabalho como cineasta. Tenho a minha opinião, mas mesmo as minhas opiniões são contraditórias. O “eu” que fala no meu filme é um “eu” poético, não está ali para dizer o que as pessoas devem ou não pensar perante as imagens.

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No Ocidente falamos, de forma humorística, na cinefilia dos líderes norte-coreanos. O cinema é meio de propaganda, todo o regime totalitário sabe isso. Mas como é que os norte-coreanos se relacionam com o cinema? Há uma relação para além da propaganda ou já não é possível separar a narrativa oficial?
As duas coisas, acho. As opções de divertimento são muito limitadas. O cinema norte-coreano vai buscar muito ao realismo socialista, as personagens são heróis, e depois há os vilões. Mas é um cinema que entende bem os mecanismos da identificação. A cultura coreana é assente no melodrama, é um misto interessante de realismo socialista com melodrama, em que o herói se sacrifica pelo país, com um efeito poderoso de espelho para a população. Os norte-coreanos “compram” isso, os filmes são muito populares. Kim Jong-il [filho e sucessor de Kim Il-sung] tinha 30 mil filmes na sua biblioteca, encomendou e realizou muitos embora o nome não apareça no genérico.

Há pouco ao falar sobre os norte-coreanos pensei: reconheceu algo de si, o norte-coreano é um “outro” ou uma parte de si?
Pergunta interessante, eu própria já me perguntei isso. Não tenho dificuldades em comunicar com os norte-coreanos em coreano. Eles limparam, no passado, a sua língua de palavras estrangeiras – embora haja palavras em inglês que já aparecem nas zonas mais urbanas. Mas entendo-os. É um laço interessante. A mesmo tempo, enquanto estive lá não podia ter grandes conversas com as pessoas, e nem tentei porque não queria arranjar problemas ao revelar o que estava a fazer. Mas quando entrei em contacto com o material - por exemplo, o tal miúdo a chorar -, perguntei-me: “Quem são estas pessoas?” Viemos da mesma cultura, temos uma história comum, reconheço coisas...fundamentalmente a paisagem falou comigo, pareceu-me familiar, as montanhas. É um sentimento familiar e ao mesmo tempo estranho.

Há uma personagem misteriosa, aliás não chega a ser personagem: o guia. Deve ter tido vários, ao longo das viagens. Houve alguma interacção com eles? Essas pessoas deixaram de ser uma abstracção?
Estive lá três vezes e de cada vez tive um guia diferente. Da segunda e terceira tive mesmo mais do que uma pessoa. Da segunda tive dois guias mais um condutor - e todos eles reportavam a superiores diferentes. Na terceira vez, em que estive integrada num grande grupo, havia três guias e um cameraman e um guarda. De cada vez que eles me viam filmar, percebiam que eu não era uma turista vulgar, pela forma como agarrava a câmara. E começavam a suspeitar de alguma coisa, por isso havia sempre alguém comigo. Geralmente eu tentava manter uma boa relação com ele: essas pessoas estão a fazer o seu trabalho, para eles próprios não se meterem em complicações. De cada vez que diziam para parar, eu parava e pedia desculpa. Mesmo que recomeçasse depois quando via algo interessante.

Mas houve um que a mandou regressar à Coreia do Sul...
Sim, no final da minha terceira viagem, a caminho do aeroporto já. Estava ao lado dele no autocarro. Esse era o mais calado. Dizia-se que pertencia aos serviços secretos e que a sua função era também vigiar os outros. E de repente atira: “Quando é que resolve regressar à Pátria?” Pensei que estava a referir-se à Coreia do Norte mas para não ser deselegante a dizer-lhe que não queria viver ali, respondi que não conhecia ninguém, não tinha emprego... “Não, o Sul, onde o seu pai está”. Quando se está lá, fazem-nos perguntas pessoais e de facto eu tinha-lhe dito que o meu pai vivia na Coreia do Sul... imediatamente passei por filha egoísta, por deixar o meu pai, idoso, sozinho, por ter o meu espaço e o meu emprego. Era isso o que ele estava a querer dizer. E ainda por cima era americana. A pessoa que me fez passar pela primeira vez para a Coreia do Norte tinha-me avisado que não contasse nada de pessoal aos guias, porque estas pessoas são as mais fiéis ao regime - são as que têm acesso aos estrangeiros. Por mais simpáticas que pareçam, na verdade não simpatizam connosco.

Tem ideia de voltar à Coreia do Norte? Este filme pode tornar isso mais dificil?

Tenho outros projectos. E sim, a ideia de regressar põe-me nervosa. Só voltaria com a certeza de estar segura, não tentaria ir como turista. O meu sentimento é que o filme, sendo muito pequeno, foi suficientemente mostrado no circuito intrernacional e não me surpreende que lá saibam dele. Desde que estive lá nunca mais consegui contactar a minha fonte, mando mails e nunca são respondidos. O que me faz sentir nervosa. Não, não tenho planos de continuar.