Nacho Doce / Reuters
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A hipocrisia não acaba na monogamia

Entendamo-nos: a monogamia não é apenas um modelo relacional. A monogamia é um modelo politico-económico, normativamente protegido pelo Estado, e perante o qual os desvios são punidos socialmente

Gabriel Leite Mota (GLM) publicou no passado dia 11 um texto em que procura falar sobre a monogamia enquanto hipocrisia. Mas várias partes da sua crónica deixaram-me perplexo, de forma que decidi responder publicamente, precisamente porque algumas delas alimentam a hipocrisia que pretendem denunciar.

Logo a abrir, GLM diz que se sente à vontade para falar sobre o assunto, porque é monogâmico. A implicação que fica é que uma pessoa — como eu — que não o é, se deveria sentir menos à vontade, ou deveria ser vista como tendo um "parti pris"? Esta visão é semelhante à que coloca um ónus especial sobre pessoas não-heterossexuais que falam sobre não-heterossexualidade, ou sobre mulheres que falam sobre feminismo. A ideia de que existe uma espécie de posição neutra (ocupada, geralmente, por pessoas monogâmicas e/ou heterossexuais e/ou homens cisgénero) é, ela mesma, uma forma de hipocrisia pouco condicente com críticas contemporâneas ao positivismo do princípio do século XX.

Concordo totalmente com GLM quando diz que a história das várias culturas humanas que existiram e existem ainda deita por terra a noção de que há um modelo único ou preferencial. Infelizmente, a sua correcta revisão histórica passa ao de leve por uma crítica feita por quem considera a monogamia como um modelo superior: a noção de que a monogamia está causalmente ligada ao "sucesso" das culturas ocidentais. É o chamado “pôr a carroça à frente dos bois”, claro: a monogamia foi usada como estratégia económica e política para fazer avançar o capitalismo e o Estatismo (e Engels tem toda uma obra sobre o assunto, que vale muito a pena ler). A partir daí, e tendo-se a monogamia estabelecido como padrão normalizado, foi depois exportada e utilizada como ferramenta de colonização e opressão, uma espécie de coadjuvante cultural dos vários genocídios praticados por países ocidentais a partir do século XVI, de entre os quais Portugal se destaca (como é comum, pela negativa).

Onde já não posso concordar, de todo, com GLM, é nas suas “razões fortes para a monogamia”. Nenhuma das razões listadas é "forte" ou sequer central.

A primeira é a mais facilmente rebatível e também a mais insidiosa. Exemplo típico de uma falácia "post hoc ergo propter hoc", é normativo considerar-se que uma pessoa “apaixonada” só vai prestar atenção ou interessar-se por outras pessoas porque já não está verdadeiramente apaixonada. Assim, qualquer demonstração de interesse não-monogâmico é, ao mesmo tempo, e numa falsa causalidade, presumido como prova daquilo que supostamente se iria demonstrar. E aí está outra hipocrisia: mais do que a monogamia sexual, o discurso relacional contemporâneo continua a ser construído na base do amor-romance da Idade Média, da noção fusional de “cara metade”, “alma gémea”, e afins.

Questionar-se a monogamia sexual deixa GLM à vontade — mas não parece dar-se o mesmo caso com a monogamia social ou afectiva. E, portanto, a hipocrisia ainda vive pela metade.

A segunda — que não está provado que a não-monogamia “fosse mais conducente à felicidade” — mostra bem como sobrevivem duplos padrões: afinal de contas, a “realidade” de que GLM fala está cheia de relações que terminam, divórcios e traições. Está provado, por acaso, que a monogamia é “mais conducente à felicidade”? Não. Mesmo assim, GLM trata isso como um ponto a favor da monogamia.

Entendamo-nos: a monogamia não é apenas um modelo relacional. A monogamia é um modelo politico-económico, normativamente protegido pelo Estado, e perante o qual os desvios são punidos socialmente — como é claro pelo trabalho todo que tem sido desenvolvido pelo grupo PolyPortugal ao nível da visibilidade do poliamor em Portugal.

Parece-me excelente a sugestão de GLM: vamos discutir sobre a monogamia. Mas vamos ter uma discussão alargada, abrangente, sobre os vários aspectos da monogamia, e não apenas uma superficial conversa sobre infidelidade conjugal. Vamos pensar em diferentes estruturas relacionais, amorosas, sexuais ou não-sexuais e escutar as pessoas com vidas não-monogâmicas falar sobre as suas experiências, que não cabem na caixinha da “poligamia”.