É muito isto

Exclusivo com guru das campanhas eleitorais

Por uma daquelas coincidências em que é rica a vida de quem tem de entregar uma crónica às 19 horas e que, pelas 18 horas, ainda não tem ideia sobre o que vai escrever, aconteceu estar deitado na praia mesmo ao lado de um guru das campanhas eleitorais, justamente no dia em que mais se fala dos cartazes do PS. Foi um acaso tornado bambúrrio quando este especialista aceitou, depois de curta negociação, dar-me uma entrevista em pleno areal. O que se segue é a transcrição da conversa.

Eu — Antes de mais, muito obrigado por me dar esta entrevista. Qual a experiência de…
Kiko (interrompe) — O meu gelado?
Eu — Desculpe?
Kiko – Tínhamos combinado que só falava depois de me dar um gelado.
(Pausa para comprar um Super Maxi).

Eu — Bom, como eu dizia, qual é a sua experiência em campanhas eleitorais?
Kiko — Ganhei as últimas três eleições para delegado de turma. Fui delegado de turma do 5º H, do 6º H e agora do 7º H.
Eu — Impressionante. Qual a sua estratégia, ao nível de cartazes?
Kiko — Faço questão de que sejam muito giros.
Eu — Genial. Quem é o autor dos cartazes?
Kiko — O Pipas. É o melhor em EVT.
Eu — EVT? Isso é o departamento de design político da McCann, não é?
Kiko — Não, é a disciplina de Educação Tecnológica e Visual. O Pipas é o melhor da escola.
Eu — E que tipo de mensagem é que tenta passar nos seus cartazes?
Kiko — Normalmente, a mensagem que quero passar é: “Votem em mim!”
Eu — E de que forma é que os seus cartazes passam essa mensagem?
Kiko — Têm escrito “Votem em mim!”
Eu — Ui! Cheio de disrupção!
Kiko — Pois, alguma na cara, por causa da pele gordurosa. Tenho posto Clearasil, mas a minha fotografia leva sempre um toque de Photoshop.
Eu — E o cartaz tem alguma inverdade?
Kiko — O que é isso?
Eu — Quer dizer mentira.
Kiko — Então porque é que não disse logo “mentira”?
Eu — Não sei… É como se diz no discurso público em Portugal… Desculpe.
Kiko — Só por causa disso, vou querer outro gelado.
(Pausa para ir comprar um Magnum Double Caramel).

Eu — Então, havia alguma mentira no cartaz?
Kiko — Sim. Dizia “Fransisco” em vez de “Francisco”. O Pipas tem 5 a EVT, mas 2 a Português.
Eu — Quantos cartazes coloca?
Kiko — 27
Eu — É um número muito específico. Usou alguma fórmula especial para aí chegar?
Kiko — Sim. É o número de fotocópias que a minha mãe consegue tirar no emprego sem que o patrão tope que anda a ratar o toner.
Eu — Onde coloca os cartazes?
Kiko — No refeitório, mesmo por cima da vitrina das saladas.
Eu — Os jovens de hoje adoram verduras, não é?
Kiko — Não, é porque o Sr. Quintino, que costuma estar aí de serviço, é gago e o pessoal gosta de o ouvir dizer “cenoura” e “espinafre”. Demora horas. A malta passa lá muito tempo.
Eu — Que conselho pode dar ao novo director de campanha do PS?
Kiko — Gosto muito de gelados e posso ir trabalhar para ele às 3as e 5as, que não vou ter aulas à tarde.

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