Tortura e violações na Líbia antes da chegada ao inferno do Mediterrâneo

Grupos de defesa dos direitos humanos alertam para "vaga de raptos, tortura e violações em grupo" na Líbia. Médicos em portos italianos dizem que estão a trabalhar numa "zona de guerra".

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Chegada à ilha de Kos, na Grécia:Desde o início do ano morreram mais de 2440 pessoas na travessia do Mediterrâneo BULENT KILIC/AFP

As histórias de morte e sofrimento que chegam quase todos os dias daquela linha do Mediterrâneo que liga o caos líbio à esperança italiana escondem outra realidade igualmente trágica na vida de milhares de migrantes. Uma realidade que começa muito antes do momento em que sobem a bordo de um pequeno bote insuflável ou de uma traineira a cair aos pedaços, onde muitas vezes não há espaço para se mudar de posição durante toda a travessia até à ilha italiana de Lampedusa ou ao porto de Pozzalo, também na Sicília.

Anna Crepet, uma médica italiana formada na Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical, e uma das dezenas de voluntários dos Médicos Sem Fronteiras em Pozzalo, contou algumas dessas histórias, de pessoas para quem a travessia do Mediterrâneo acaba por ser o menor dos males na viagem entre a África subsariana e o Norte com vista para a Europa.

"Às vezes sentimo-nos como se estivéssemos a trabalhar numa zona de guerra, mas acho que aqui ainda é pior, porque vemos feridos que não recebem tratamento há semanas", disse Anna Crepet ao jornal britânico The Independent no porto de Pozzalo.

São histórias de mulheres violadas por traficantes, crianças espancadas e baleadas, homens que ficam para trás ainda antes de chegarem à Líbia, quando caem das inúmeras carrinhas de caixa aberta, pequenas de mais para que todos se possam agarrar com segurança.

Muitos não conseguem atravessar o deserto do Sara – "uma das mais mortíferas etapas da viagem" –; são mortos por traficantes ou morrem em acidentes. Um dos que sobreviveram ao deserto chegou à Sicília sem uma perna, conta Anna Crepet – caiu da carrinha em que seguia e foi atropelado por outra.

"As pessoas que vemos são sobreviventes, mas muitos não sobreviveriam, porque é preciso ser-se bastante robusto e forte para se conseguir atravessar o deserto, atravessar a Líbia, entrar num barco, e passar dias sem uma perna ou com um outro ferimento grave."

Portos italianos como os de Lampedusa ou Pozzalo estão cheios de histórias destas. "Vemos muitas fracturas provocadas por espancamentos, muitas feridas de bala. Encontramos balas em músculos e debaixo da pele", conta a médica italiana.

Para além das vítimas de acidentes e espancamentos, muitas raparigas e mulheres adultas chegam à Europa grávidas, depois de terem sido violadas durante a viagem dos seus países até à Líbia, mas principalmente na Líbia, onde os bandos de traficantes e contrabandistas aproveitam o caos no país para imporem a sua lei.

"Elas não costumam falar muito sobre o que passaram, mas vemos as cicatrizes e as feridas das violações. Sabemos que muitas das mulheres que chegam aqui sozinhas foram violadas – e muitas mulheres chegam sem companhia. Vimos crianças de 13 anos que foram violadas."

Histórias como as que foram contadas ao jornal The Independent pela médica italiana surgem em relatórios de organizações de defesa dos direitos humanos, apesar de as atenções recaírem mais sobre a última etapa da viagem – a travessia do Mediterrâneo, onde mais de 2440 migrantes morreram desde o início do ano, segundo os números da Agência das Nações Unidas para os Refugiados, actualizados esta semana pelo porta-voz William Spindler na sua conta no Twitter.

Em Maio, a Amnistia Internacional (AI) chamou a atenção para "uma vaga de raptos, tortura e violações em grupo" na Líbia, que atinge em particular os cristãos da Nigéria, da Eritreia, do Egipto e da Etiópia.

"Refugiados e migrantes na Líbia são vítimas de violação, tortura e rapto por traficantes e contrabandistas; de exploração sistemática pelos seus empregadores; de perseguição religiosa e outros abusos por grupos armados e gangues criminosos", lê-se no relatório da AI, intitulado "A Líbia está cheia de crueldade".

O documento expõe uma outra realidade – a dos milhares de pessoas que não conseguem sequer arriscar a vida na travessia do Mediterrâneo e a ficarem indefinidamente em campos de refugiados improvisados e sem condições, como na Grécia ou muito mais longe, em Calais, na fronteira com o Reino Unido.

"Migrantes e refugiados sofrem abusos em todas as etapas das rotas de contrabando, da África Ocidental e Oriental em direcção à costa da Líbia. Muitos deles, incluindo mulheres e crianças que viajam sozinhas, são raptados durante a viagem e torturados para obrigar os seus familiares a pagarem um resgate. Muitos dos que não conseguem pagar são tornados escravos – forçados a trabalhar sem salário, agredidos fisicamente e roubados. Os contrabandistas também costumam entregar os migrantes e refugiados a grupos criminosos assim que passam uma fronteira nas áreas desertas, ou nas principais cidades ao longo da rota de migração, como Sabha, no Sudoeste, ou a cidade costeira de Ajdabya, no Leste da Líbia", escreve a Amnistia Internacional.

Philip Luther, responsável pela organização no Médio Oriente e Norte de África, liga a provação dos migrantes ao "caos na Líbia, desde o fim da campanha militar da NATO de 2011", e acusa a "comunidade internacional" de ter "permitido que as milícias e grupos armados façam o que querem".

"Os líderes mundiais têm responsabilidade e devem preparar-se para enfrentar as consequências, que incluem um cada vez maior número de refugiados e migrantes em fuga de conflitos e de abusos desenfreados na Líbia. As pessoas que procuram asilo e os migrantes estão entre os mais vulneráveis na Líbia, e a sua provação não pode ser ignorada."