Torne-se perito

Marco Bellocchio ainda não se reformou

O realizador de Vencer recebeu em Locarno o Leopardo de Honra e mostrou o restauro do seu primeiro filme, poucas semanas antes de estrear em Veneza a sua nova longa-metragem.

Fotogaleria
O realizador italiano Marco Bellocchio recebeu em Locardo o Leopardo de Honra © Festival del Film Locarno / Massimo Pedrazzini
Fotogaleria
O seu primeiro filme I Pugni in Tasca(1965) dr
Fotogaleria
Bom Dia Noite (2003, sobre o rapto de Aldo Moro) dr

Há ironias assim: Locarno anunciava que iria dar em 2015 um Leopardo de Honra ao italiano Marco Bellocchio, apresentando de caminho a versão digitalmente restaurada do seu primeiro filme I Pugni in Tasca(1965). Poucos dias depois, o festival de Veneza anunciava a selecção competitiva oficial – e lá estava Sangue del Mio Sangue, o novo filme de Marco Bellocchi.

O cineasta italiano, 75 anos de idade, não resiste a sorrir quando o PÚBLICO levanta a questão: os prémios de carreira parecem muitas vezes dizer “obrigado por tudo o que fizeste” (e já recebera um Leão de Ouro de Carreira em Veneza em 2011), mas Bellocchio parece não ter vontade nenhuma de parar...“Aceito e agradeço todos os prémios que me quiserem dar, mas ainda não me reformei!”, ri-se. “No caso de Locarno, havia o 50º aniversário da estreia de I Pugni in Tasca e uma cópia restaurada a apresentar. Mas o que diz é verdade. Participei em tantos festivais com filmes que cujo valor os críticos e o público só mais tarde reconheceram, como se tivesse havido um mal-entendido. Estes prémios à carreira têm sempre algo de reparação, mas a minha mente continua viva e lúcida!”


Ao longo de 50 anos de cinema, Bellocchio foi sempre uma voz incómoda no cinema italiano, mas manteve-se permanentemente activo, continuando a filmar regularmente e obtendo uma espécie de “renascimento” com uma série de obras que, durante a década de 2000, encontraram os favores da crítica e do público: L'Ora di Religione (2002, comédia sobre a relação de um ateu com a sua mãe profundamente religiosa), Bom Dia Noite (2003, sobre o rapto de Aldo Moro), Vencer (2009, sobre a primeira mulher de Mussolini)...

“Fiz sempre os filmes que quis fazer,” diz o cineasta durante um breve encontro com o PÚBLICO num hotel de Locarno. “Posso ter desperdiçado oportunidades ou feito filmes menores, mas acreditei sempre no que fazia. Nunca fiz filmes em modo cínico, puramente carreiristas. Claro que paguei um preço pelas minhas escolhas, mas nunca senti nenhum remorso. Sabia que ia ter de o pagar. E, no fundo, consegui sempre fazer os filmes que quis. À imagem de cineastas como esse grande centenário que foi Manoel de Oliveira, Robert Bresson ou Michelangelo Antonioni, grandes artistas que mantiveram a sua imaginação até ao fim e procuraram sempre fazer os filmes que queriam...”

Não renega, contudo, que esse regresso à ribalta não teria existido sem um período de grande introspecção, nos anos 1980 e 1990, que resultou numa obra mal entendida na altura. “Esse período de que fala tem a ver com um período de grande pesquisa minha, pessoal, que não foi compreendido, sobretudo em Itália,” explica. “Estava particularmente interessado num certo modo de psicoterapia, de psicanálise colectiva, e daí resultaram uma série de filmes que foram muito significativos para mim mas que foram mal compreendidos pelo público, como O Diabo no Corpo ou A Condenação. Depois disso, retomei o meu percurso mais autónomo, mas foi um período muito importante para mim em termos pessoais.”

E sempre falando da Itália e das suas idiossincrasias - sem falar da Itália. “Desde o princípio que tenho sempre falado da Itália partindo sempre do indivíduo e da personagem,” defende Bellocchio. “Se eu começasse a falar dos problemas económicos, da emigração, do desemprego, ia ser um erro. Sempre comecei com histórias muito pessoais, que depois podem incluir esses pontos de vista sobre a Itália, mas nunca perdem de vista o indivíduo, a história pessoal.”

É por isso que, hoje, rever I Pugni in Tasca – uma história de família a braços com um filho psicótico, interpretado poderosamente por Lou Castel – é ver um filme que não perdeu nada da sua actualidade e que se mantém ainda hoje moderno. “Já não me revejo nele,” confessa Marco Bellocchio. “Porque fazer o primeiro filme é sempre uma primeira vez – é algo de único e irrepetível por natureza. Mas é verdade, é um filme que não envelheceu, que continua actual. Houve tantos filmes aclamados como obras-primas no seu tempo e que envelheceram mal...”

Sugerir correcção