FMI alerta para o problema do desemprego em Espanha

Desemprego estrutural vai permanecer elevado e qualidade dos empregos criados suscita preocupações.

O desemprego é um problema crónico em Espanha
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O desemprego é um problema crónico em Espanha PHILIPPE DESMAZES/AFP

A economia espanhola está a recuperar e cresce a um ritmo superior ao dos restantes países do euro. Mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que o desemprego cronicamente elevado, bem como o pouco potencial de muitas pequenas empresas, lançam sombras sobre o desempenho a médio prazo daquele que é o principal parceiro comercial de Portugal.

Num relatório divulgado nesta sexta-feira, e semelhante ao que faz periodicamente para todos os países, o fundo sublinha a retoma do consumo, do investimento e da concessão de crédito. "A forte implementação de medidas ajudou o regresso da confiança e significativos ventos favoráveis vindos do exterior estão a ajudar à recuperação", observa a instituição.  

O documento estima um crescimento económico de 3,1% em 2015 (ligeiramente abaixo das estimativas governamentais) e de 2,5% no próximo ano. São valores que ficam acima da média prevista para a zona euro, onde as grandes economias estão este ano a crescer a ritmos inferiores a 1%. Já para 2020, o fundo antecipa uma subida mais modesta do produto interno bruto espanhol, apontando para 1,8%. 

A recuperação da economia espanhola tem efeitos positivos em Portugal, já que este é o destino de 24% exportações de bens portugueses (o dobro do peso das vendas tanto a França, como à Alemanha, que são os outros dois principais mercados). Na semana passada, no relatório sobre Portugal, o FMI notava que as exportações estavam a beneficiar "da forte recuperação em curso em Espanha".  

O FMI, no entanto, argumenta que o desemprego, tradicionalmente elevado em Espanha, continuará a ser um problema, caso o país não continue a reformar o mercado de trabalho. Este ano, a taxa de desemprego é de 22%. No próximo ano, deverá cair para 20,1%. A tendência é também de descida nos anos seguintes, embora não o suficiente para um mercado de trabalho saudável.

Na ausência de mais medidas, diz o FMI, “o desemprego vai ficar no nível estrutural estimado de 16,5%”. A qualidade do emprego é outro factor a preocupar o fundo. "A criação de empregos arrancou, mas mais de cinco milhões de pessoas continuam desempregadas e os novos empregos assentam fortemente em contratos temporários e a tempo parcial", afirma o relatório.   

Há três anos, Espanha esteve próxima de um resgate internacional, como o que aconteceu na Grécia, Irlanda e Portugal. A economia espanhola é, porém, muito maior do que qualquer destas (que têm todas dimensões semelhantes): o PIB é seis vezes o português e representa quase 12% da riqueza produzida na zona euro. O resgate financeiro acabou por ser feito apenas à banca, que se via a braços com um problema de crédito mal parado e enfrentava o rebentamento de uma bolha imobiliária. O FMI não participou neste empréstimo internacional, que foi obtido apenas através dos mecanismos europeus. Na altura, o Governo de Mariano Rajoy esforçou-se por sublinhar a ideia de que os fundos eram uma bóia de salvação apenas para os bancos e não um resgate ao país, que, porém, não tinha capacidade para recapitalizar a banca. 

A análise do FMI à recuperação espanhola surge temperada com várias reservas. Por um lado, é esperado a partir de 2016 algum enfraquecimento do consumo privado e do investimento empresarial. Por outro, a dívida pública e a privada “estão ainda em níveis elevados". Já o investimento na construção “deverá continuar a sua recuperação modesta”, enquanto as exportações vão ser beneficiadas pelo “aumento gradual da actividade na zona euro”. Quando o movimento de recuperação se dissipar, antecipa o fundo, o crescimento poderá cair para níveis próximos de meio por cento.