Sim, há horas felizes em Locarno

Mesmo antes do palmarés, houve ainda tempo para surpresas na edição 2015 do festival, com o japonês Happy Hour no concurso e a revelação de Olmo and The Seagull na competição secundária.

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A grande surpresa do festival, por ser o título que todos mais receavam: Happy Hour, terceiro filme do japonês Ryusuke Hamaguchi, cinco horas e 15 minutos de duração
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Right Now, Wrong Then de Hong Sangsoo é visto como o outro grande candidato evidente ao Leopardo de Ouro
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Olmo and The Seagull, presente na competição secundária Cineasti del Presente: realizado por Petra Costa e Léa Glob, vai direitinho ao centro das discussões contemporâneas dos “cinemas do real”
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Bella e Perduta, a belíssima fábula de Pietro Marcello: muitos consideram ser o vencedor anunciado do festival
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Bella e Perduta, a belíssima fábula de Pietro Marcello: muitos consideram ser o vencedor anunciado do festival

A história é verídica e foi-nos contada por um habitué de Locarno: em conversa de circunstância antes do início de uma sessão, uma senhora da cidade dizia-lhe que era muito fácil identificar o vencedor do Leopardo de Ouro. Bastava estar atento à quantidade de abandonos da sala durante as projecções.

A boutade vale o que vale, mas acerta na mouche da constante aposta do certame suíço, cujo palmarés será amanhã apresentado em sessão nobre na Piazza Grande, em filmes que transcendem fronteiras e formatos, como No Home Movie de Chantal Akerman (um fortíssimo candidato ao vencedor segundo a metodologia do abandono de sala), O Futebol de Sérgio Oksman, ou o mais recente trabalho do artista multimedia britânico Ben Rivers (ainda este ano presente no Curtas Vila do Conde), The Sky Trembles and the Earth Is Afraid and the Two Eyes Are Not Brothers.

Claríssimo “filme de autor”, ou “filme de artista”, cujo título e inspiração vêm de um conto de Paul Bowles, pode ser lido como uma metáfora contemporânea do papel da arte num mundo onde o valor da criação se mede mais pelos números do que pelas emoções, nestes dias em que projectos “fora de formato” como este precisam de mecenas para serem financiados (no caso, a fundação britânica Artangel).

Rivers utiliza imagens documentais da rodagem de Las Mimosas, de Oliver Laxe, como ponto de partida para uma ficção surreal com muito em comum com a contra-cultura dos anos 1970 (se quisermos um Zabriskie Point pós-moderno), sobre um grupo de bandidos beduínos que rapta Laxe com fins ulteriores. É um filme exemplar da pulsão de ousadia que os programadores de Locarno procuram e que deve ser saudada, mas uma pulsão que – ao contrário dos filmes de Akerman ou Oksman - corre aqui o risco de ficar fechada no seu próprio casulo.

Nenhum título terá cumprido essa pulsão como Bella e Perduta, a belíssima fábula de Pietro Marcello que muitos consideram ser o vencedor anunciado de um festival a meio gás, mas seria injusto não referir que, de facto, a segunda metade da competição elevou o nível em relação a um início meio desmaiado. Não só pela presença, por exemplo, de Chevalier de Athina Rachel Tsangari (que continua a ser grande motivo de conversa), ou de Right Now, Wrong Then de Hong Sangsoo (visto por vários observadores como o outro grande candidato evidente ao Leopardo de Ouro). Mas as duas últimas obras mostradas no Concurso Internacional trouxeram alguma da surpresa que faltou à primeira metade.

Suite Armoricaine

, da francesa Pascale Breton, é aquilo a que se costuma chamar “um fracasso interessante”: é um filme de geração (como o fizeram Mickaël Hers com

Memory Lane

ou Mia Hansen-Løve com

Eden

), centrado no regresso de uma professora universitária à Bretanha natal, e no seu reencontro com os locais e os amigos que a formaram. Sincero, justo e tocante quando fala do modo como o tempo mudou os amigos de ontem, elegante no modo como revela que alguns acontecimentos importantes para a narrativa têm lugarquase em simultâneo,

Suite Armoricaine

afunda-se quando Breton introduz a chegada à universidade de um novo aluno em busca de uma comunidade. Essa história é menos conseguida e carrega em demasia nas convenções melodramáticas do filme-mosaico e no processo desequilibra permanentemente Suite Armoricaine, tornando-o em “mais um” filme de geração quando se percebe claramente que a ambição era outra.

Melhor, infinitamente melhor, e de longe a grande surpresa do festival, precisamente por ser o título que todos mais receavam: Happy Hour, terceiro filme do japonês Ryusuke Hamaguchi, cinco horas e 15 minutos de duração. No papel, nada que explique tal duração: uma woman's picture sobre a vida quotidiana de quatro amigas residentes em Kobe, com as suas alegrias e tristezas. Podia ser um melodrama funcional, um compacto de uma série televisiva, mas afinal não. Aos poucos vai-se percebendo que é “outra coisa”, e é precisamente o modo como trabalha o tempo no interior destes momentos banais que distingue Happy Hour e lhe dá a sua singularidade.

As tais cinco horas permitem a Hamaguchi revelar sem pressas e quase tempo real as chaves do seu filme, ao longo de refeições em família ou viagens de autocarro. Sublinham os vazios, os tempos mortos, os silêncios que iluminam as vivências das quatro amigas e o modo como, muitas vezes, é nos pequenos momentos em que ninguém repara que se escondem as decisões mais importantes e mais significativas (há algo de Ozu nessa serenidade, mesmo que Hamaguchi esteja muito longe da simplicidade do mestre).

Contado com uma placidez e uma reserva muito nipónicas, é um filme duplamente inteligente – pelo modo como deixa entrar o tempo para contar a sua história, e pelo modo como integra a sua própria reflexão sobre a arte e a vida na própria narrativa do filme, numa notável discussão sobre o valor da arte e a capacidade do artista transmitir emoções aos seus leitores ou espectadores que torna legível o coração humano do filme. Não estamos muito longe da Melhor Juventude de Marco Tullio Giordana, mesmo que com uma dimensão menos abertamente historicista ou social: por trás destas cinco horas que assustam o papel está uma obra perfeitamente acessível a um público mais alargado, mesmo que condenada ao circuito de festivais pelo exotismo da sua duração e da sua origem.

Vai ser curioso ver como o júri (formado por Daniela Michel, programadora mexicana, Moon So-ri, actriz coreana, Jerry Schatzberg, realizador americano, Nadav Lapid, realizador israelita, e Udo Kier, actor alemão) vai distribuir o palmarés de um concurso internacional que este ano ficou dividido entre os veteranos de regresso (Chantal Akerman, Hong Sangsoo, Otar Iosseliani, Andrzej Zulawski) e os novíssimos do futuro (Pietro Marcello, Josh Mond, Sérgio Oksman, Athina Rachel Tsangari).

E que se deu ao luxo de deixar “de fora” duas das melhores fitas que vimos ao longo destes dez dias. De Jose Luis Guerin e da sua Accademia delle Muse, apresentada na secção experimental Signs of Life, já falámos; temos agora de dizer todo o bem que pensamos de Olmo and The Seagull, presente na competição secundária Cineasti del Presente. Co-assinado pela brasileira Petra Costa e pela dinamarquesa Léa Glob, vai direitinho ao centro das discussões contemporâneas dos “cinemas do real”. Acompanhada ao longo de nove meses o casal formado pela italiana Olivia Corsini e pelo francês Serge Nicolaï, ambos actores do Théâtre du Soleil de Ariane Mnouchkine, a partir do momento em que Olivia descobre que está grávida e que um hematoma interno a força a ficar em casa.

A questão é que Olmo and The Seagull não é um documentário “puro” - o próprio filme revela regularmente que está a ser fabricado, quando a voz de uma das realizadoras se intromete a pedir aos actores que experimentem a cena de outra maneira ou que procurem outras inflexões. À imagem de Bella e Perduta ou O Futebol, o filme de Costa e Glob inventa realidade a partir da realidade, com a ideia da vida como palco a vir ao de cima no quotidiano destes casal de actores que vêem o seu mundo mudar com o anúncio do bebé. Filme de uma sensibilidade delicada, atenta, lúdica, Olmo and The Seagull vai ficar como uma das descobertas deste festival. Gostávamos de o ver no palmarés dos Cineasti del Presente.