Os Tame Impala perderam a vergonha

Em Currents trocaram as guitarras e o rock psicadélico por pop sintético dos anos 1980. Kevin Parker quer ouvir os Tame Impala numa pista de dança. Resta saber se o mundo, que os abraçou, quer ouvi-los assim. Vamos confirmar em Paredes de Coura.

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Kevin Parker, o criador obsessivo e solitário que musicava os sonhos sonoros que lhe povoavam a cabeça NUNO FERREIRA SANTOS
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Currents é o álbum em que destroçou os tabus de uma vida (a de que a pop mais mainstream ou que o travo sintético dos anos 1980 eram territórios interditos) e em que reorientou o debate “psicadélico” DR

“Apercebi-me que nunca ouvi os Tame Impala numa pista de dança”.

Foi só isso: Kevin Parker, o inventor dos Tame Impala,  inadvertidamente responsável, desde a improvável cidade australiana de Perth, pela chegada ao mainstream do rock dito psicadélico que, por estes dias, parece estar por todo o lado, queria pôr as pessoas a dançar a música da sua banda. “Currents”, o terceiro álbum dos Tame Impala, que será apresentado dia 20 em Paredes de Coura e onde os sintetizadores muito 80s e as mecânicas da música electrónica ganham vantagem sobre as guitarras, foi a sua resposta àquela constatação.

É o álbum em que destroçou os tabus de uma vida (a de que a pop mais mainstream ou que o travo sintético dos anos 1980 eram territórios interditos) e em que reorientou o debate “psicadélico”: “Considero o Aphex Twin [nome de destaque da exploração electrónica] mais psicadélico do que, digamos, os Cream [o trio dos anos 1960 de Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce, banda charneira do psicadelismo]” - a descoberta na adolescência de “Disreali Gears”, segundo álbum dos Cream, foi, acrescente-se, responsável pela viragem definitiva de Kevin Parker para as delícias do rock mais aventureiro.

Kevin Parker, o criador obsessivo e solitário que musicava os sonhos sonoros que lhe povoavam a cabeça para que, depois, lhe seguíssemos o sonho com os auscultadores, bem colados às orelhas, a afastar-nos da realidade lá fora, criou “Currents” para que nos juntássemos todos em festa comunal em volta dos Tame Impala. Curiosamente, este é o álbum que mais dividirá, como já divide, quer o público (principalmente), quer alguma opinião publicada.

Na crítica no Ípsilon quando do lançamento do álbum, há três semanas, escrevia-se que “Currents” “quase soa a rejeição do passado, tamanha a profusão de sintetizadores e órgãos — num tema particularmente infeliz, Yes, I’m changing, chegam mesmo a resvalar para aquele som sintético dos anos 1980 propenso a criar problemas gástricos a quem ainda quer manter um pouco de dignidade no interior dos ouvidos”. Isto enquanto, ao mesmo tempo, o álbum sobe nas tabelas e implanta os Tame Impala como nunca antes no cenário musical. Dois exemplos: atingiu o top 10 inglês pela primeira vez, escalou até ao quarto lugar do top português.

No admirável mundo já não tão novo da internet, a discussão avança. Uns defendem os Tame Impala recorrendo ao exemplo dos Radiohead renascidos com os apontamentos electrónicos e as sugestões jazz de Kid A (2000) e Amnesiac (2001), outros escrevem com humor que “Currents” é “Kevin Parker a fazer de John Lennon, a fazer de Michael Jackson, a fazer de Brittany [sic] Spears” – e, curiosamente, Michael Jackson foi citado recentemente por Parker com o seu grande ídolo na música, e o seu herói por estes dias é Max Martin, produtor sueco de Backstreet Boys, Taylor Swift ou, entre muitos outros, Britney Spears.

Enquanto pensamos que, como também tem sido notado, Currents deverá algo aos Daft Punk, ou melhor, enquanto conjecturamos que este poderia ser o álbum que os Daft Punk ambicionavam realmente fazer quando se meteram em estúdio para gravar o falhado Discovery; enquanto nos vem à memória que foi com o "Talkie Walkie", dos Air, que Kevin Parker descobriu que era possível moldar o som enquanto produtor e ambicionar mais que simplesmente gravar o que uma banda produz no estúdio – e, conhecido esse facto, nota-se -, chega Manuel Ulloa, desconhecido primeiro comentador de uma das versões integrais do disco caídas no YouTube, e exclama, peremptório: “Pessoal, isto é uma porcaria, eles deviam ser diferentes mas os mesmos”. Não, ele não apreciará a perfeição formal dessa balada, que chega para tomar o lugar de todas as baladas (pelo menos este ano), chamada “Cause I’m a man”, já alvo de remistura pelas Haim.

O Ípsilon falou com Afonso Rodrigues, guitarrista e vocalista dos Sean Riley & The Slowriders e dos Keep Razors Sharp, com Domingos Coimbra, baixista dos Capitão Fausto, Márcio Laranjeira, da editora e promotora Lovers & Lollipops, sempre atenta a questões de psicadelismo (globalizado) e com Tiago Castro, radialista na Radar, voz, com Ana Farinha, do programa Floresta Encantada, dedicado aos sons do psicadelismo, e, paralelamente, músico que se apresenta, a solo, enquanto Acid Acid. Todos têm relação longa com a banda, tão longa quanto o permitem os oito anos de vida dos Tame Impala, cinco sobre o olhar público e mediático. Entre eles, consenso total.  “Acho que o Kevin Parker não quis ficar preso àquela ideia clássica de psicadelismo e fez um disco de que gosto muito, com uma pop muito elegante”, diz Tiago Castro. “É uma mudança que está paralela à forma como tenho vindo a ouvir música no último ano. Mais música electrónica, algumas coisas dos anos 1980. Gostei bastante desta nova abordagem. É preciso coragem para deixar para trás uma fórmula que resulta”, defende Márcio Laranjeira. “Algumas pessoas têm-se mostrado desiludidas, mas não é o meu caso. Acho-o um disco muito bem produzido, com muitas boas canções. Mantém aquela onda melancólica e sonhadora, mas mais dançável e orientada para sintetizadores”, justifica Domingos Coimbra. “Não se pode esperar que pessoas altamente criativas se mantenham iguais para sempre”, refere Afonso Rodrigues. “É importante descobrir, ir à procura. [Kevin Parker] Trocou as referências da nostalgia dos anos 1970, que não viveu, por uma nostalgia dos anos 1980 e 1990, de que provavelmente já tem memória. Temos que respeitar isto: se fazes dois discos, não sei quantas digressões mundiais e pelo meio acabas com o amor da tua vida [algumas canções de ‘Currents’ são marcadas pelo fim do relacionamento de Parker com Melody Prochet, dos Melody’s Echo Chamber], é normal que baixes as guardas, decidas fazer o que queres fazer e ponto final”.

Do culto a cabeças-de-cartaz
Os Tame Impala regressam este mês a Portugal, para a actuar no Festival Paredes de Coura com início marcado para a próxima quarta-feira, dia 19 de Agosto. Será o quarto concerto português da banda, depois de duas actuações no Super Bock Super Rock, então ainda no Meco, intercalados com uma presença no Optimus Alive. Desta vez, porém, será diferente. Quando da estreia em Portugal, em 2011, subiram a palco ao final de tarde para apresentar o seu álbum de estreia, “Innerspeaker”, perante pouco público, mas muito entusiasta. O sol que descia no horizonte da Herdade do Cabeço da Flauta, dava ao cenário uma luminosidade etérea, muito de acordo com a música que ouvíamos, rock cósmico expandindo-se até ao infinito, com a voz sonhadora unida àquele som de uns anos 1970 que nunca existiram, porque é no século XXI que estamos e era no século XXI que estávamos – a cadência rítmica da bateria, quase mecânica, e a manipulação do som dos instrumentos, confundindo-nos quanto à sua origem, assim o mostravam.

Tiago Castro estava lá. “Eles acabaram por resumir o que se estava a fazer a um nível underground. Porque o psicadelismo nunca foi embora. Os Flaming Lips são representantes maiores de um psicadelismo moderno e vêm dos anos 1980. No Soft Bulletin (1999) dão muitas pistas para o que estamos a ouvir hoje, mas era preciso surgirem bandas que juntassem várias referências com o do it yourself da actualidade, a cultura do MP3, o fazer em casa. Juntar tudo e resumir. O que os Tame Impala fazem é isso, com um som muito rico, muito cheio, como se as bandas dos anos 1960 estivessem lá, mas são uns australianos a recuperar ideias de canções perdidas no ar”, analisa.

Quatro anos depois da estreia em palcos portugueses, chegam a Paredes de Coura enquanto cabeças-de-cartaz. Não são, como em 2011, uma banda de culto (em crescimento rápido, mas de culto ainda assim). O que aconteceu? Aconteceu Innerspeaker a ser passado de mão em mão e de hiperligação em hiperligação – e uma canção como Alter-ego ou Solitude is bliss. Aconteceu, depois dele, “Lonerism”, o segundo álbum, ainda mais bem recebido que o primeiro, e no qual encontrávamos “Elephant”, groove rock com pitadas decisivas de cintilar glam, ou “Feels like we only go backwards”, carícia pop com a melancolia de final de tarde em dia de Verão, duas canções que se tornaram marcas de um tempo específico – este.

Afonso Rodrigues aproveita esta última para destacar algo determinante na forma como os Tame Impala se foram impondo na consciência melómana actual: “Por baixo daquele manto psicadélico há grandes canções, apelativas para as massas. A primeira vez que ouvi ‘Feels like we only go backwards’ fiquei espantado. Quando acabou, voltei atrás e contei: ele canta sete vezes o refrão. Junte-se isso aos baixos e baterias muito fortes, que nos levam a reagir imediatamente, e percebe-se porque as pessoas se relacionam tão facilmente com eles”. Domingos Coimbra, baixista dos Capitão Fausto, jovens mestres nacionais na arte de extrair canções de corpo inteiro das planuras psicadélicas, acentua que “podes ser óptimo em produção e em tratamento de som, como é o Kevin Parker, mas se a canção não estiver lá, não há nada a fazer. Foi isso que nós, Capitão Fausto, retirámos de Tame Impala: a capacidade de fazer boas canções, mas que não sejam canções no sentido clássico do termo”. Isto eram os Tame Impala de ontem. Porque há Innerspeaker e Lonerism. E, a partir de agora, existirá o novo mundo de Currents.

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Desde a primeira actuação em Portugal, com uma cadência de concertos e digressões aparentemente interminável a levá-los a cada vez mais gente, cada vez mais destacados nos cartazes, e com os elogios dos seus pares a choverem dos lugares mais inesperados – Paul McCartney é fã, Mark Ronson, que recrutou Kevin Parker para colaborar em Uptown Special, o seu último álbum, considera-o um génio, os Arctic Monkeys fazem versões das suas canções, Kendrick Lamar aprova e até Chino Moreno, dos Deftones, manifestou o seu apreço -, os Tame Impala tornaram-se “a” banda rock desta segunda década do século, os arautos de um novo psicadelismo, os tipos mais cool do pedaço.

Puseram a Austrália no mapa do rock psicadélico e agora todos conhecemos e admiramos os Pond (onde o próprio Kevin Parker tocava e cujos membros também se encontram na banda de palco dos Tame Impala) e também prestamos atenção aos mais recentes King Lizzard & The Gizzard Wizard. Passamos os olhos pelo cartaz de Paredes de Coura e, a par de destaques como TV On The Radio (dia 19), Father John Misty e Legendary Tigerman (dia 20), Charles Bradley ou The War On Drugs (dia 21), Lykke Li e Natalie Prass (dia 22), deparamo-nos com uma digníssima e ecléctica armada psicadélica: os portugueses Gala Drop (dia 19), os supracitados Pond e os White Fence, de São Francisco (dia 20); os americanos Allah-Las (dia 21) e os Woods, os ingleses Temples e os Fuzz, banda em que Ty Segall surge como baterista (os três últimos dia 22).

Obviamente, os Tame Impala não são os responsáveis por esta erupção de rock psicadélico nos últimos anos. Mas são o rosto mais destacado desse momento que vivemos, onde bandas e Psych Fests se multiplicam país a país, cidade a cidade. “Eles foram responsáveis por levar a um público mais abrangente uma sonoridade que as pessoas não ouviriam se eles não existissem”, aponta Afonso Rodrigues. Márcio Laranjeira, como complemento, saca de duas analogias peculiares: “Eles estão a chegar quase ao ponto em que estavam os Queens Of The Stone Age, uma banda de festival e de estádios. Ao mesmo tempo, têm uma cena que suporta isso. Se quiseres ouvir aquela sonoridade, tens mais 20 ou 30 bandas que te alimentam. Os Tame Impala são o ponta de lança número 9, apoiado por uma equipa que também trabalha bem”. Os Tame Impala e o psicadelismo. E os Tame Impala e “Currents”: “É o gajo a fazer o que lhe apetece. Não está nem aí. Não é a salvação da música psicadélica coisa nenhuma e agora deu-lhe para fazer canções à Phil Collins”, diz, divertido, Domingos Coimbra.

Em 2012, em entrevista ao Ípsilon, Kevin Parker dizia-nos estas palavras premonitórias: “Sempre adorei a ideia de música pop, mais do que a música pop propriamente dita. Tem esta inocência, esta emoção, esta pureza, que outras músicas, mais intelectuais, não têm. Com a música pop só tens de deixar que ela te afecte, sabes?”. Três anos depois, enquanto, sacrílego, confessa que se sente hoje algo envergonhado da atitude roqueira de Elephant – “mas essa canção pagou-me o estúdio”, acrescenta -, explicou à edição australiana do Guardian: Lonerism é um álbum tão insular e tão frio. Tirei isso do caminho, e agora quero juntar-me ao mundo”. O que quer isto dizer? Quer dizer que, ele que teve todo o cuidado, enquanto gravava o álbum estreia, “Innerspeaker”, em eliminar todo e qualquer traço de cultura mainstream, perdeu a vergonha e riscou do seu quadro ético a noção de prazer culpado. Só prazer, agora. “Percebi que é muito mais difícil chegar ao coração do que ao cérebro das pessoas”. Quer fazê-lo trocando guitarras por sintetizadores, trocando o Rain e o “Tomorrow never knows” dos Beatles pelo I’m not in love dos 10CC ou o Purple Rain de Prince.

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Na sua cabeça, o artifício anterior de criar paisagens escapistas, quais viagens interiores em cenário de ficção científica, é da mesma natureza que as ficções românticas sintéticas em formato canção dos anos 1980. Resolvida essa questão no seu íntimo, fez como sempre. Enfiou-se no estúdio onde outrora, adolescente, passava 18 horas a ouvir Black Sabbath e a ensaiar com os futuros companheiros de palco, e deixou-se obcecar pelos sons que lhe povoavam a mente e pela perfeição que queria extrair de todas as camadas sonoras criadas. O resultado são uns novos Tame Impala, é certo, mas de onde o “velho” Kevin Parker não foi eliminado. Let it Happen, logo a início, mostra-o: tem a visão panorâmica que é imagem de marca da banda, o mesmo cenário etéreo, mas transformado: surge-nos com um 10" de que não existe a versão original - uma remistura em directo, com cordas sobre a batida e truques de produtor para a pista de dança.

Domingos Coimbra recorda uma entrevista em que Kevin Parker afirmava: “Não posso deixar que a Elephant seja a melhor música que já fiz”. Ou seja, Parker não quer ficar quieto no trono psicadélico em que o sentaram. “Podes ir buscar o sonho em qualquer lugar”, sentencia Domingos. Os Tame Impala de Kevin Parker andam à procura deles nos anos 1980 que nunca existiram. Continuam a inventar o seu tempo. Resta saber se o seu tempo apreciará o fervilhar sintético que ele agora descobriu. Paredes de Coura ajudará a responder a essa questão.