A vida é um jogo no concurso de Locarno

Chevalier de Athina Rachel Tsangari e O Futebol de Sérgio Oksman usam a metáfora do jogo para falar da vida, e da morte, em dois dos filmes mais estimulantes vistos este ano no festival suíço.

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Chevalier, de Athina Rachel Tsangari dr
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Chevalier, de Athina Rachel Tsangari dr
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O Futebol de Sérgio Oksman dr
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O Futebol de Sérgio Oksman dr

E se jogássemos a um jogo chamado "qual de nós é o melhor homem"? É um jogo perigoso nestes dias que correm, porque implica escolher um indivíduo que seja ideal para dirigir o colectivo, mas o colectivo não tem grande vontade de depositar confiança no outro. Mas é o jogo a que as personagens que Athina Rachel Tsangari segue em Chevalier (Concurso Internacional) se entregam com requintes de malvadez - ainda por cima num filme grego e nos tempos que a Grécia vive.

 No filme que a revelou internacionalmente, Attenberg, a realizadora já punha as suas personagens a fazer jogos esquisitos, desde os baléticos passos de dança saídos dos Monty Python às imitações de animais. O jogo de Chevalier, jogado no momento por seis homens a chegar ao fim de umas férias num iate de luxo, é contudo outra coisa, simultaneamente mais séria e mais irónica.

E se jogássemos a outro jogo, tipo "descubra as diferenças" ou "responda às expectativas"? É que Chevalier tem de lidar com o facto de que Attenberg é ainda hoje o ponto mais alto da "nova vaga grega" da qual Athina Rachel Tsangari faz parte - para além de ser, de caminho, o filme mais acessível do lote que revelou Yorgos Lanthimos ou Babis Makridis.

Se somarmos a isso a busca por parte de imprensa de mais filmes que marquem a diferença na competição morna de Locarno 2015, Chevalier está mesmo na mira. Mas Tsangari dá um passo ao lado e marimba-se para as expectativas: não é Attenberg parte 2 e, quando passámos os últimos meses a ouvir falar da Grécia diariamente, o filme recusa-se a engajar directamente a situação. O que não quer dizer que não fale dela, por portas muito esconsas e muito travessas. (Se fosse directo não era um filme da nova vaga grega.)

Attenberg

era sobre uma jovem que tem de lidar com o facto de estar a tornar-se mulher,

Chevalier

é um filme sobre o mundo dos homens e os códigos sociais que se desenvolvem entre eles, filmado e co-escrito por uma mulher. No microcosmos do iate de luxo que pertence a um médico de renome, Tsangari filma com um distanciamento sorridente e uma dimensão quase antropológica o que se passa quando as mulheres não estão presentes.

O slogan do cartaz diz tudo: a buddy movie without the buddies, um filme de amigos onde ninguém é verdadeiramente amigo, uma rede social de likes e dislikes que é emocional, política, diplomática, ambiciosa. Chevalier é um filme sobre uma luta de galos ou de machos alfa pela liderança da matilha social, retratando a dinâmica de grupo subjacente ao mundo (dominado pelos homens) em que vivemos.

Essa luta - fechada na bolha de gente de posses que brinca a jogar com a reputação e dá pela brincadeira a tornar-se mais séria do que parece - é filmada por Athina Rachel Tsangari sem condescendência mas com ironia.

Sai-se de Chevalier a perguntar que raio foi isto, mas o filme é uma espécie de comprimido de efeito ao retardador que fica a ressoar na cabeça. Estamos apanhados no jogo, ainda se vai ouvir falar muito da terceira longa-metragem da cineasta grega.

 

Pais e filhos

É um outro jogo sobre o qual se debruça o documentarista brasileiro radicado em Espanha Sérgio Oksman: o futebol, do qual se fala muito durante O Futebol (Concurso Internacional), rodado durante o Mundial de 2014, mas que praticamente não se vê durante o filme.

É que o verdadeiro tema do filme não é o "jogo bonito" mas sim a relação do realizador com o seu pai, Simão, que deixou a família em 1974 e com o qual não existiu contacto durante 20 anos. O projecto é reconstruir a relação entre um pai que nunca lá esteve e um filho que busca reencontrar o pai através do futebol, assistindo aos jogos na televisão ou aproximando-se dos estádios para os quais não há bilhetes em dia de jogo.

Mas a ideia esbarra no desinteresse de Simão e na sua desconfiança do método de um filho que na verdade não conhece - e, sobretudo, com a hospitalização inesperada do pai, sintonizando O Futebol com um dos temas recorrentes na competição de Locarno: o vazio deixado pela morte de um familiar, e o modo como se enfrenta a perda.

O filme de Oksman é de uma simplicidade desarmante, quase desconcertante, e revela também muito sobre o espectador: as suas recentes curtas premiadíssimas (incluindo no Curtas Vila do Conde) como A Story for the Modlins ou Notes on the Other, utilizam as técnicas do documentário para contar histórias inventadas, e para quem conheça os jogos metaficcionais do realizador, O Futebol deixa a pulga atrás da orelha. Mas o cinema também é esse jogo com o espectador - e também damos por nós a jogá-lo com interesse.