Editorial

A batalha incerta dos fogos florestais

Até Julho a campanha contra os fogos correu bem. Mas o abandono da floresta e o clima podem mudar o cenário

É difícil ler os registos sobre os fogos deste ano e não concordar com a análise da ministra da Administração Interna, que ontem chamou a atenção para o facto de um anormal número de ignições não ter determinado uma anormal devastação da área da floresta. O que isto quer dizer, e Anabela Rodrigues sublinhou-o como um trunfo político, é que as forças no terreno “têm respondido positivamente” aos desafios. O problema deste nexo de causalidade é que depende de cenários com um certo grau de previsibilidade, nos quais os bombeiros têm de responder a 100 ou 150 incêndios por dia. Os últimos registos fizeram disparar as ocorrências e tornaram prematura qualquer declaração sobre o sucesso da campanha.

Quem lida com o fogo e conhece minimamente a realidade da floresta portuguesa sabe que as tempestades perfeitas acontecem com facilidade. Portugal vive por estes dias as piores condições climatéricas dos últimos 16 anos. Mais de três quartos do país estão em seca severa ou extrema. Foi a combinação desses factores que trouxe os incêndios à actualidade. Não tanto pela sua gravidade, mais pelo número anormal de ignições (382 no domingo). Perante este cenário, é impossível acreditar numa resposta capaz por parte das forças no terreno.  

O que afinal está em causa é uma estratégia errada, que coloca os bombeiros e não os silvicultores no centro da discussão sobre os perigos para a floresta. O estado de abandono negligente de imensas áreas florestais do país remete o sucesso ou insucesso do combate aos incêndios para factores aleatórios como a velocidade do vento, a humidade do ar ou a temperatura. Se esses factores mudarem nos próximos dias, a ministra terá de mudar o tom do seu balanço. Enquanto se gastar mais dinheiro no combate do que na prevenção, enquanto se falar da floresta apenas quando ela arde, não haverá discurso político que escape a essa volatilidade.