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A Agenda do Precariado (II)

A agenda do precariado não se poderá resumir às suas próprias condições materiais. Isso não lhe permitirá resolver as questões fundamentais que afectam o futuro da sociedade

Apesar de hoje não vivermos uma novidade histórica nos ciclos de destruição e aumento de extracção do capitalismo, regressou um sistema mais primitivo. A economia tal como é vista pelos economistas ultraliberais que dominam hoje, é básica e colonialista. Baseia-se na extracção máxima de recursos – é a chamada economia mineira: tudo é arrancado à sociedade, nada é devolvido. São os recursos naturais monetarizados – as florestas, os mares, a agricultura intensiva e destrutiva – e o trabalho, precarizado, subvalorizado, desumanizado. Investimento? Não. Os excedentes servem apenas para pagar dívidas públicas, cuja maior fatia são dívidas ilegais e ilegítimas, contraídas para transferir riqueza dos Estados para os privados.

Os produtos secundários desta nova fase decrépita do capitalismo são uma degradação ambiental sem precedentes, as alterações climáticas, e a miséria humana vista na criação de um precariado global e nas grandes migrações, sem nunca se terem sequer começado a corrigir as desigualdades de 500 anos de colonialismo.

A frenética procura por novos espaços de comércio, espelhada no Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP), assim como no Tratado Transpacífico (TTP), é sinal claro dos novos caminhos que os 1% procuram para garantir a sua renda eterna sob os ossos do precariado e da sociedade: privatizar os espaços e serviços públicos, precarizar quem trabalha em todos os países, criar um novo espaço sem democracia atravessando várias nações através de tribunais privados comandados pelas multinacionais, novas sedes do poder. Além disso, abrir caminho à mercantilização e desregulamentação dos recursos naturais, num momento em que se sabe que é necessário cortar dois terços das emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Os pobres, actuais e futuros, que continuem a pagar a crise deles!

A agenda do precariado não se poderá resumir às suas próprias condições materiais. Isso não lhe permitirá resolver as questões fundamentais que afectam o futuro da sociedade. Terá de confrontar fundamentalmente as forças do capitalismo que põe em risco não apenas o seu lucro, como a viabilidade do planeta. Esta agenda terá de começar pela distribuição do rendimento, mas terá de ir muito mais fundo e repensar a produção. Os recursos naturais são os bens comuns que pertencem não só à população em geral como à população futura e o precariado tem de reclamá-los para todos, retirando-os das mãos do 1%. Finalmente, a distribuição e humanização do trabalho não podem ficar de lado. A solidariedade e o internacionalismo não são um dado adquirido nem espontâneo. A agenda do precariado encontrará obstáculos duríssimos porque defronta um sistema violento que pretende parasitar corpos e mentes de toda a Humanidade, para todos os tempos (e por isso mesmo é que eles dizem que a História acabou). Cabe aos jovens estagiários, aos emigrantes em Calais e Lampedusa, aos operários dos call centers, aos trabalhadores sem direitos na China, aos falsos recibos verdes em Portugal, aos contratados zero-hora no Reino Unido e a muitos, muitos mais, do Sul Global e do Norte, do Ocidente e do Oriente, desafiar e subverter as poderosas forças que se colocam no seu caminho para impedir que se vislumbre dignidade para a Humanidade e racionalidade no governo das sociedades.