Aveirenses põem mãos à obra e recuperam o seu “velho” estádio

Dezenas de pessoas estiveram no domingo envolvidas nos trabalhos de limpeza e pintura do Mário Duarte. Tudo em prol de um clube que bateu no fundo, mas ao qual a cidade não virou as costas.

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“Este é um estádio à medida das ambições do Beira-Mar e estar no centro da cidade pode ajudar a trazer mais gente”, diz um adepto Nelson Garrido
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Ao contrário do que fizeram muitos jovens das suas idades, Mário Soares e João Pedro trocaram no domingo uma manhã de praia por uma jornada de trabalho voluntário, no velho Estádio Mário Duarte, em Aveiro.

São adeptos do Beira-Mar, o clube da cidade, que está a viver um forte momento de crise – desceu à 2.ª Divisão do campeonato da Associação de Futebol de Aveiro -, e fizeram questão de, juntamente com outras dezenas de beiramarenses, responderem ao apelo para ajudar a limpar e pintar o equipamento desportivo onde viveram “tantas alegrias” desportivas e que, nos últimos anos, tem estado largado ao abandono. Ontem, o velho estádio ganhou uma nova aparência. Em breve, assim esperam os sócios, voltará a ser palco de momentos de glória.

“Estou aqui por amor ao clube”, afirmava ao PÚBLICO Luís Bento, outro adepto do Beira-Mar, enquanto passava, energicamente, com o rolo de tinta na parede exterior do estádio. “As verdadeiras tardes de domingo foram passadas aqui. Quando o clube passou para o novo estádio perdeu-se toda a mística”, acrescentou este aveirense que, tal como muitos outros, não guarda grandes memórias das épocas em que o Beira-Mar jogou no estádio construído para o Euro 2004 e que, ainda hoje, causa grandes dores de cabeça à câmara municipal de Aveiro – os custos da manutenção do equipamento são elevados. “Aquilo pressupunha um projecto maior, de um parque desportivo, mas acabou por ficar um estádio perdido no meio de uma auto-estrada”, argumentou.

Entre os cerca de 50 aveirenses que fizeram questão de meter mãos à obra, logo a partir das 8.30 horas, estava também Tiago Castro, que além de sócio é ex-atleta do clube, razão pela qual diz ter grandes memórias do velho Mário Duarte. “Equipei-me aqui durante uns anos largos”, testemunhou, ao mesmo tempo que justificava a sua participação na acção comunitária com a “vontade de devolver um bocadinho daquilo que o Beira-Mar” lhe proporcionou. “Nos últimos anos, fui-me desligando do clube, com a passagem para o outro estádio e as histórias com a SAD [Sociedade Anónima Desportiva]. Mas agora é altura de começar de novo e ajudar o Beira-Mar a erguer-se”, exprimiu este beiramarense.

Regresso da equipa sénior?
A iniciativa promovida no domingo de manhã foi dinamizada pelos responsáveis pela área da formação do clube e surge na sequência de outras jornadas de trabalho que têm vindo a ser realizadas nas últimas semanas. “Algumas pessoas têm vindo para aqui trabalhar para ajudar a recuperar o estádio”, asseverou Hugo Coelho, um dos elementos da equipa da área da formação.

O objectivo destes responsáveis passa por levar a que o antigo equipamento desportivo possa ser usado, o quanto antes, pelas camadas mais jovens do Beira-Mar. Mas os sócios querem mais. Reclamam a passagem da equipa sénior para o antigo estádio. “Ter 3000 pessoas aqui não é o mesmo que ter 3000 pessoas num estádio que tem lugar para 30 000 pessoas”, notou Luís Bento. “Este é um estádio à medida das ambições do clube e o facto de estar no centro da cidade pode ajudar a trazer mais gente”, fez questão de vincar, por seu turno, Tiago Castro.

Não restam, assim, quaisquer dúvidas de que se dependesse da vontade dos beiramarenses, a equipa sénior voltava, já hoje, à sua antiga “casa”. A única questão é que o antigo equipamento desportivo é propriedade da câmara municipal de Aveiro e, ao que tudo indica, ainda não existe qualquer garantia formal quanto a uma eventual utilização do velho estádio. Tanto a direcção do clube, como o executivo camarário (PSD/CDS-PP) têm optado pelo silêncio em relação a esta matéria.

A única posição que autarquia presidida por Ribau Esteves deu a conhecer diz apenas respeito ao novo estádio. Na passada sexta-feira, a edilidade emitiu um comunicado para afirmar a sua determinação em “dar vida” ao Estádio Municipal de Aveiro, com a realização de eventos desportivos e outros, que ajudem a pagar a despesa de funcionamento e manutenção deste equipamento desportivo.

Como exemplo desta determinação, a autarquia apontou as negociações e os acordos alcançados com o Tondela e o Arouca, para a realização em Aveiro de três jogos da I Liga de Futebol. Na nota enviada à comunicação social, a edilidade vincou que estes jogos representam “uma mais-valia para a cidade e toda a região, nomeadamente ao nível da sua promoção, da dinamização da economia local e do próprio turismo”, adiantando que todo o investimento realizado para a concretização destes eventos será sempre uma boa aposta para o município.

Agora que o Beira-Mar deixou o futebol profissional, a autarquia assume a aposta de “dar mais vida” ao estádio com acções dirigidas à população e à comunidade, que “promovam a sua rentabilização e notoriedade, numa lógica contributiva para o desenvolvimento de novas oportunidades de negócio na zona do Parque Desportivo de Aveiro”. E quais as intenções da autarquia para o velho equipamento desportivo? A pergunta parece ficar, por agora, sem resposta – apesar das várias tentativas do PÚBLICO não foi possível obter esclarecimentos por parte do presidente da câmara.