Era uma vez José e Pilar: o mural foi destruído para dar lugar a um parque de estacionamento

Mural feito em 2010 por quatro writers de Lisboa já não existe. Edifício, perto da Fundação Saramago, foi demolido na semana passada.

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Restam as fotografias para memória futura DR/Facebook GAU
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Toda a intervenção foi inspirada pelo documentário de Miguel Gonçalves Mendes DR/Facebook GAU
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No dia em que se começou a desenhar nas paredes da rua do Instituto Virgílio Machado Fábio Teixeira
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Toda a intervenção foi inspirada pelo documentário de Miguel Gonçalves Mendes Fábio Teixeira
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Foram escolhidas várias citações do filme José e Pilar Fábio Teixeira

José Saramago gritava Pilar. “Pilar, Pilar, Pilar”, vimo-lo repetir vezes sem conta no retrato íntimo que o realizador Miguel Gonçalves Mendes fez do casal no documentário de 2010, José e Pilar. Foi exactamente o filme que inspirou o mural que até há uma semana podia ser visto num edifício abandonado no Campo das Cebolas, em Lisboa. Naquele abraço, víamos e líamos o amor do Prémio Nobel da Literatura e da sua mulher, Pilar del Río. O edifício foi agora demolido para dar lugar a um parque de estacionamento.

“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.” Estas palavras foram ditas pelo escritor português, que morreu em 2010, e apareciam por baixo do desenho de Nark, que há cinco anos, com os writers Ayer, Nomen e Pariz, transformou a fachada cor-de-rosa dos números 2 a 8 da rua do Instituto Virgílio Machado, junto à Casa dos Bicos, onde funciona a Fundação José Saramago.

O trabalho de Nark era o que mais se destacava na fachada: Saramago de olhos fechados e enternecido abraça Pilar que se esconde entre o rosto do escritor. Na longa parede havia ainda um outro retrato do casal, bem como várias citações retiradas do documentário de Miguel Gonçalves Mendes.

Na altura, a intervenção, cuja ideia partiu da produtora de José e Pilar, a JumpCut, contou com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, através da sua Galeria de Arte Urbana (GAU). Pouco antes da inauguração no final de 2010, Miguel Gonçalves Mendes dizia ao PÚBLICO que o mural obrigaria “as pessoas que passam por ali a pensar”, sendo aquela “uma forma de homenagear Saramago”.

Por estes dias, o realizador partilhou na sua página pessoal do Facebook o retrato de Nark e o espaço que agora existe: um grande vazio com destroços do edifício demolido. Sobre o sucedido, três palavras apenas: “Porque tudo é efémero”.

E é exactamente essa a palavra também usada pela Câmara de Lisboa. O PÚBLICO questionou a técnica da Galeria de Arte Urbana Inês Machado sobre o tema, e obteve uma resposta por email, não assinado, do departamento de comunicação da autarquia em que se lê que o graffiti “tratava-se de um projecto efémero”. A demolição do edifício estava prevista há muito tempo “no âmbito do Plano de Valorização e Requalificação do Campo das Cebolas”, “que inclui a construção de um parque de estacionamento por parte da EMEL [Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa]”, informa ainda a autarquia.

No mesmo email, lê-se que a homenagem ao escritor português e promoção do filme “inseriu-se na estratégia para a arte urbana em Lisboa, desenvolvida pelo Departamento de Património Cultural”. Estratégia essa que, frisam, “encara este tipo de manifestações artísticas com a efemeridade que as caracteriza”. “A arte urbana é por natureza efémera, e tanto a comunidade artística que a produz, como todos os agentes culturais, parceiros, proprietários dos suportes, interlocutores e produtores com que a GAU desenvolve trabalho e projectos nesta área sabem e aceitam essa condição.”

O desaparecimento deste trabalho, que foi resistindo ao tempo apesar de algumas vezes ter sido pintado com tags e outros graffiti por cima da arte já existente, “deve ser encarado com normalidade”, diz a autarquia, defendendo que tal “contribui para a rotatividade das obras expostas na cidade e para a renovação da paisagem urbana”.

Para memória futura fica apenas o registo na base de dados da Galeria de Arte Urbana, que se dedica à inventariação destas intervenções, "através da realização sistematizada de registos fotográficos (e videográficos) das obras executadas em Lisboa, desde o 25 de Abril de 1974 até à actualidade".