Opinião

Ler antes de virar a página

Houve tempos em que na campanha do PS se colavam cartazes na rua a prometer a criação de 150 mil empregos

“Virar a página” é o mote da campanha do PS para as eleições de 4 de Outubro. O partido quer passar a ideia de que até agora vivemos nas trevas e que com a eleição de António Costa far-se-á luz. O “virar a página” foi aproveitado pelo publicitário Edson Athaíde para fazer uns cartazes de rua em que uma jovem de cabelos ao vento aparece a virar uma página onde se vê uma grande tempestade que vai dar lugar a um cenário idílico, digno de uma epifania. Muitos até compararam o dito cartaz à propaganda da IURD — Igreja Universal do Reino de Deus. Só faltava aquela música do Vangelis das campanhas de Guterres de 1995. Dentro do próprio PS também alguns não gostaram do cartaz evangelizador que acabou por ser retirado das ruas. O próprio António Costa, que escolheu a mais refinada Sinfonia n.º 1 de Brahms para as suas entradas triunfais, não terá gostado do gosto do brasileiro cuja estratégia publicitária na década de 90 ajudou Guterres a colocar um ponto final a dez anos de cavaquismo.

Independentemente deste episódio, a mensagem em que o PS vai apostar na campanha será o “virar a página”. O capítulo II do programa eleitoral é o “Virar a página da austeridade, relançar a economia e o emprego” e, na entrevista que esta semana deu ao PÚBLICO, Mário Centeno, o provável próximo ministro das Finanças, caso o PS vença as eleições, diz que o partido tem um conjunto de propostas para “virar a página da economia portuguesa”.

Mas qual é nesta altura o grande receio do PS? É que a página se vire antes que os socialistas cheguem ao poder. E aí politicamente vai ser uma grande chatice, porque a miúda loira do cartaz vai ficar com cara de parva, quando virar a página e a economia já estiver a crescer e o desemprego a cair. A deputada Ana Catarina Mendes apareceu numa conferência de imprensa, esta semana, com um ar de caso, bastante consternado e condoído, como se tivesse acontecido alguma desgraça no PS. Mas não, estava à frente das câmaras apenas para comentar os números do desemprego. Será que o desemprego disparou? Não, a taxa de desemprego registou a maior quebra desde 1998, ou seja, desde que o INE compila dados. Afinal tudo não passava de uma grande azia, porque os números do desemprego foram bons.

O PS não vai ganhar um único voto a condoer-se com as boas notícias da economia, tal como a maioria, se se colocar em bicos dos pés só porque o desemprego não é tão mau como há dois anos. Aliás, mal se conheceram os números do INE, toda a trupe do CDS-PP fez fila para fazer declarações à comunicação social: foi Cecília Meireles, foi Mota Soares, foi Pires de Lima, os mesmos que nunca deram a cara quando os resultados da governação de Passos Coelho insistiam em não aparecer.

A reacção mais sensata do dia foi esta: “É com satisfação, com reconhecimento pelas políticas públicas para as quais nós também damos o nosso esforço e damos naturalmente os nossos contributos, que hoje vemos estes números baixarem. Ainda está num número elevado? Está com certeza. Há muito a fazer? Há.” E disse mais: “Nós temos que dizer bem daquilo que há que dizer bem. Quando piorar, nós cá estaremos para malhar no Governo e em quem quer que seja que esteja no poder.” Palavras sensatas de Carlos Silva, secretário-geral da UGT.

Quem também gosta de malhar na direita é o socialista Augusto Santos Silva, mas que também colocou um post bastante sensato no Facebook e que contrasta com a atitude sectária do seu partido nesta matéria. Começa o ex-ministro: “A redução da taxa de desemprego é uma boa notícia. Ficarmos pela primeira vez em quatro anos abaixo dos 12%, quando já estivemos nos 17%, é um motivo de esperança.” Pelo meio recorda que nem tudo são boas notícias: apesar da descida de 38,2 mil no número de desempregados durante a legislatura, o número de empregos caiu em 218,6 mil. Porquê? Há mais desempregados ocupados em programas do IEFP, há mais desencorajados e há mais subdesemprego. Isto num período em que 300 a 500 mil portugueses foram varridos das estatísticas oficiais porque decidiram emigrar e procurar trabalho lá fora. Conclusão?  “Não vamos lá esperando apenas os efeitos de um crescimento anémico”, diz Augusto Santos Silva. Quando se malha assim, tendo a humildade de reconhecer o que está bem e alertar para o que está mal, vale a pena malhar.

Houve tempos em que na campanha dos socialistas, não ao som de Vangelis, mas da banda sonora do filme O Gladiador, se colavam cartazes na rua a prometer a criação de 150 mil empregos. Hoje colam--se e descolam-se cartazes a prometer um “virar de página”. Mas o “virar de página”, seja para que partido for, não pode ser um mero exercício de intolerância perante uma página que já não nos apraz mais ler.