Trump “show” resiste a um primeiro debate sobre brasas

O multimilionário admitiu que não afasta concorrer à Casa Branca como independente e foi sempre igual a si próprio: “Honestamente não tenho tempo para o politicamente correcto. E, para ser franco, este país também não tem.”

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Donald Trump MANDEL NGAN/AFP

A primeira descida vertiginosa não demorou mais do que uns breves segundos, quando um dos três moderadores da Fox News, Bret Baier, lançou uma armadilha para o caminho de todos, mas que claramente só podia ferir os pés de Donald Trump: algum dos candidatos não está em condições de afastar uma candidatura à Casa Branca como independente se perder a corrida no Partido Republicano? Trump espreitou à sua volta, só viu estátuas de ambos os lados, e não hesitou em levantar o seu braço, com um encolher de ombros em que se podia ler a expressão “O que é que vocês querem? É a vida!”

O gesto do magnata foi recebido com alguns aplausos e muitas manifestações de repúdio por parte do ruidoso público, que mesmo assim não chegou para encher todos os lugares do pavilhão de Cleveland no principal evento do dia - foram quase duas horas de perguntas aos dez candidatos mais bem posicionados nas sondagens, depois de os sete menos populares se terem submetido ao mesmo modelo umas horas mais cedo.

O braço no ar de Donald Trump foi talvez o momento mais marcante da sua recente aventura política, porque ajudou os seus críticos - entre os quais se contam todos os restantes 16 candidatos - a sublinharem a ideia de que a presença dele na corrida do Partido Republicano beneficia Hillary Clinton, que é a face mais destacada da corrida à Casa Branca no Partido Democrata. Horas antes, o The Washington Post revelara a existência de conversas telefónicas entre Donald Trump e Bill Clinton, poucas semanas antes de o multimilionário ter anunciado a sua candidatura, dando a entender que poderá ter havido algum interesse do clã Clinton em que Trump aprofundasse as divisões entre os Republicanos. Ao não afastar a hipótese de vir a concorrer como independente, os restantes candidatos puderam confrontá-lo com as dúvidas em relação ao seu compromisso com os ideais mais conservadores, que estão no centro desta primeira fase da campanha eleitoral - antes de tentaram captar os votos do centro, nas eleições gerais, os candidatos do Partido Republicano tentam não deixar fugir o eleitorado mais à direita para terem mais hipóteses de chegarem a enfrentar quem for nomeado pelo Partido Democrata.

“Tenho de respeitar a pessoa que ganhar, se não for eu. Se eu for nomeado [pelo Partido Republicano], garanto que não vou concorrer como independente”, respondeu Trump. Mas a tentativa de resposta a uma pergunta que não tinha sido feita naqueles termos já não o salvou do primeiro ataque, protagonizado pelo senador Rand Paul - o único que não teve problemas em confrontar directamente o magnata durante todo o debate.

“É isto que está errado. Ele compra e vende políticos de todas as cores. Já está a preparar a sua aposta nos Clinton”, disse o senador do Kentucky, referindo-se às doações de Trump no passado à fundação de Bill e Hillary Clinton.

Para além do canto de Rand Paul, as situações mais complicadas para Donald Trump surgiram da boca dos moderadores. Depois do desafio de Brent Baier, foi a vez da pivô da Fox News Megyn Kelly confrontar o magnata com outro assunto difícil: “Você já chamou às mulheres de que não gosta porcas, cadelas, patetas e animais nojentos.”

Depois de uma rápida piada (“Só chamei isso a Rosie O’Donnell”), que provocou gargalhadas na audiência, Trump recompôs-se e deu a respostas que os seus apoiantes queriam ouvir: “Já fui desafiado por tantas pessoas que honestamente não tenho tempo para o politicamente correcto. E, para ser franco, este país também não tem.” The Donald foi atacado por todos os lados, mas ainda não foi desta que deixou entrar água perante o eleitorado que vê nele a resposta a todos os males dos políticos tradicionais de Washington.

Mesmo quando foi confrontado pelo terceiro moderador, Chris Wallace, com as polémicas declarações sobre os imigrantes que chegam aos EUA através da fronteira com o México, Trump foi igual a si mesmo: “Se não fosse eu, não estaríamos a falar sobre imigração ilegal, Chris. Este assunto não estava na cabeça das pessoas até que eu o levantei no meu discurso de candidatura.”

Os analistas salientam que é ainda muito cedo para concluir o que quer que seja em relação às preferências do Partido Republicano, porque o caminho é longo (o processo eleitoral só começa em Fevereiro de 2016 e as eleições gerais são em Novembro); mas a quantidade e a qualidade dos candidatos torna possível todos os cenários - no debate entre os sete menos bem posicionados nas sondagens, por exemplo, destacou-se a única mulher na corrida à nomeação pelo Partido Republicano, Carly Fiorina, outro nome que começa a ganhar peso devido ao seu discurso anti-sistema - nunca exerceu nenhum cargo político e foi presidente executiva da Hewlett-Packard durante seis anos.
 
Jeb Bush discreto

No debate principal, apenas o governador do Ohio, John Kasich, optou por tratar Donald Trump como um verdadeiro candidato, dando-lhe crédito por ter “tocado num ponto sensível deste país”.

“As pessoas estão frustradas, estão fartas, acham que o Governo não está a funcionar. As pessoas que querem pô-lo de lado estão a cometer um erro”, disse Kasich, que protagonizou o momento mais sensível da noite, quando foi questionado sobre o casamento entre pessoas do mesmo género - mais precisamente, os moderadores quiseram saber qual seria a reacção de Kasich se alguma das suas filhas se assumisse como gay, já que ele defende que o casamento deve ser celebrado apenas entre um homem e uma mulher: “Há pouco tempo fui ao casamento de um amigo meu que é gay. Só porque uma pessoa não concorda comigo, isso não significa que eu não me preocupo com ela, nem que não posso amá-la. É claro que continuaria a amá-las. E iria aceitá-las, porque é isso que nos ensinam quando a nossa fé é forte.”

Outro dos pontos altos do debate com os dez candidatos mais bem posicionados nas sondagens foi uma dura troca de palavras entre o governador de Nova Jérsia, Chris Christie, e o senador Rand Paul, conhecido pelas suas posições libertárias e defensor da limitação dos poderes de vigilância dos serviços secretos.

Quando Paul disse que o seu único objectivo era garantir que as agências de espionagem não pudessem recolher informação sobre todos os cidadãos - mas apenas sobre suspeitos de terrorismo -, Christie disse que essa resposta é “completamente ridícula”.

“Quando se está sentado numa subcomissão, apenas a falar para o ar, pode-se dizer coisas desse tipo”, disse o governador de Nova Jérsia. Rand Paul respondeu ao mesmo nível, dizendo que não confia no Presidente Barack Obama para ter acesso aos dados dos cidadãos americanos, e mexeu numa ferida antiga de Christie: “Eu sei que você lhe deu um grande abraço”, referindo-se ao encontro entre ambos logo após o furacão Sandy, em 2012.

Quem esteve mais discreto foi Jeb Bush, até há poucas semanas considerado o nome mais forte para conquistar a nomeação pelo Partido Republicano, e lutar contra a candidata mais forte do Partido Democrata, Hillary Clinton. Mesmo quando Donald Trump disse que os dois últimos meses da presidência do seu irmão, George W. Bush, foram “catastróficos”, Jeb manteve a compostura e disse apenas que o Partido Republicano não poderá voltar à Casa Branca “dividindo o país e criando um ambiente de ressentimentos”.

Devido ao elevado número de candidatos, a Fox News dividiu os 17 em dois grupos - os sete menos bem colocados nas sondagens responderam a perguntas a partir das 17h (22h em Portugal continental), e os dez mais populares entraram em cena a partir das 21h (2h de sexta-feira em Portugal continental). O próximo debate entre os candidatos do Partido Republicano está marcado para 16 de Setembro, na Califórnia, organizado pela CNN. Do lado do Partido Democrata, o primeiro debate está marcado para 13 de Outubro, no Nevada, e também será transmitido pela CNN.

Os melhores momentos do debate