Crítica Livros

O que da vida nos olha no olhar

José Manuel Teixeira da Silva é um poeta que urge ser lido; o seu novo livro é um ponto de partida.

Muito pouco mediático, José Manuel Teixeira da Silva é um dos casos mais interessantes da poesia portuguesa contemporânea
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Muito pouco mediático, José Manuel Teixeira da Silva é um dos casos mais interessantes da poesia portuguesa contemporânea

José Manuel Teixeira da Silva traça no seu blogue, criado em 2009, o próprio perfil: nasceu no Porto, em Dezembro de 1959; vive em Vila Nova de Gaia, onde é professor; escreve poesia e alguma prosa; faz fotografia.

Não é propriamente um curriculum vitae, sendo que o universo da fotografia subsume o todo. Agora, depois de Súbito a Mão (FLUP, 1983); As Súbitas Permanências (Quasi Edições, 2001); Anima, com ilustrações de Ana Abreu (Língua Morta, 2011), O Lugar que Muda o Lugar (Língua Morta, 2013), e Ver. 59 anotações fotográficas (Ed. Autor, 2012), publica Música de Anónimo na açoriana Companhia das Ilhas. Neste novo livro, estranha-se o título, apesar de traduzir — estranhamente — o que nele se passa, isto é, o devir alheio de um ponto focado intensivamente numa imagem ou num quadro montado a partir dele pelo poeta. Prisma tornado linha de mira da cena. Punctum fulminante que adquire um tónus de eternidade.

Pequeno livro, três partes, cada uma encabeçada por uma epígrafe que sumariza o conjunto de poemas aí aglutinados: “a beleza que não é só minha/ que também passa sozinha”, de Vinicius de Moraes; “numa pura suspensão de/ cristais revelo a minha vida”, de Carlos de Oliveira; “Aqui estão flores mudas e vozes apagadas/ ambas vivendo de novo o reencontro”, de Fiama Hasse Pais Brandão. Sublinhem-se, respectivamente, a “beleza” que se impessoaliza, a ideia de “suspensão” e o “reencontro”, visto como reacendimento: temos assim a chave de leitura dos poemas de Música de Anónimo.

Paralelamente, os dispositivos mentais da fotografia, de configurar o campo e de capturar poeticamente uma imagem, marcam esta poesia, assim como a sobreposição e a sucessão de imagens de grande visualidade. Se há um sentido literalmente dominante, será o da visão; se há um instrumento reforçado, será o dos olhos — são consecutivas aparições, textualmente transpostas ao longo de todo o livro. São os olhos que mergulham no mundo, sacando dele um ponto, marcando na hora um tempo único, fulminante, um ponto de partida, que, todavia, ao ser relançado, introduz a sensação de salto para a permanência, de contínuo — a dimensão de tempo e do movimento. Ao levantar-se a cabeça para a extensão do mundo, delineia-se um espaço visual, pictórico. Luz, luminosidade, sombra, olhar — os olhos que olham e que fixam no texto, engendrando espaço — são os alicerces destes poemas. As suas peças: as praias, o fogo, o mar, as ondas, o anoitecer.

Ao primeiro poema, um crepúsculo, um mar de chamas: “os incêndios cercam as praias/ brilhos e olhos mergulhados no mundo// Não sabemos como respirar/ se nadas entre cinzas/ e encadeias os limites do dia// É apenas um mar de chamas/ dizes, enquanto descansas/ nos braços do ar// Ardem nuvens e nuvens e palavras/ na consumida aparição da noite.” A luz e o fogo incendeiam o ar, acendem a vibração poética: ardem nuvens (e nuvens) e ardem palavras. Esta repetição estende a imagem e o verso, num processo recorrente: “de estrela em estrela”; nuvens de nuvens, outras nuvens”; “sombra de sombras de sombras”; “lágrimas que destilam as lágrimas”; “silêncio tombando sobre silencioso silêncio”; “a luz ilumina toda a/ luz, luminosamente”.

Há focagens e desfocagens. Efeitos de movimento. Deformações, reformulações. Este processo cria em simultâneo a expansão (cenário, espaço, horizontalidade) e o aprofundamento (intensidade, tempo, verticalidade) — “um dia inteiro sustenta os olhos/ afunda as figuras que adivinhas/ tanto persistem, sempre mais remotas” —, materializados até na quase ausência de pontuação e no ficar em aberto do verso e/ou do poema.

Olha-se o mundo que nos olha e por esse olhar do mundo fica-se cativado. Fica o poeta suspenso: o seu estado de alma é o da passagem, o viajar da própria viagem, avançando até encontrar um interlocutor, um lugar. Evola-se uma efabulação poética, uma quase narrativa, um ethos particular a partir, por exemplo, da Rapariga do Brinco de Pérola de Vermeer, da sombra de Alma na cabana junto ao lago de Gustav Mahler. O escritor cruza campos artísticos distintos na origem e nos media: da pintura, criam-se pontos de fuga a partir de detalhes em esboços de Turner (“também nos inspira/ a sonâmbula pesca à linha/ quase esquecendo as trutas viscosas”) e de fotografias mais ou menos conhecidas de grandes fotógrafos (de Josef Sudek a Walker Evans). A música, a mais imaterial e mais abstracta das artes, é repetidas vezes convocada como modus operandi ideal caminhando para a invisibilidade, o insubstancial — por exemplo em Música de anónimo do século XVII (cravo de 1758): Recebe a música de cada vez anónima/ nos dedos que fogem e duram fulminantes/ ou descansam de leve no instrumento etéreo/ que chegou de um século seguinte// A vastidão do dia afina-se no embalo das vidas/ são correntes de um ar que nos transporta/ repercutido silêncio exposto/ mas só agora plenamente alheio”. Também a música é mote ou pretexto para um dos mais belos poemas do livro: Catálogo de Pássaros de O. Messiaen.

Apesar de pouco mediático, José Manuel Teixeira da Silva é um dos poetas mais interessantes da nossa contemporaneidade. Possui um estilo singular, reconhecível; manuseia a língua e as diversas figuras com destreza e elegância até no extremo; transfigura a construção sintáctica mais comum, aproxima elementos antitéticos. Um poeta simultaneamente da atenção (minuciosa) e da imaginação (fulgurante) que urge ser lido.