Born in the eighties?

João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira juntaram a sua Gente Feliz Com Lágrimas – foi a exposição desta edição na Galeria Walk&Talk.

<i>Sweet Orange Mega Beast</i> (2013), de Maciel Santos, é um comentário acerca da velha dependência económica dos Açores em relação à laranja
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Sweet Orange Mega Beast (2013), de Maciel Santos, é um comentário acerca da velha dependência económica dos Açores em relação à laranja DR

As curadorias feitas por artistas podem ter desvantagens. Mas também têm vantagens. Uma delas é chamarem à luz os artistas dos artistas – nomes muitas vezes deixados à sombra pelos circuitos institucionais.

Com que frequência nos cruzamos, por exemplo, com a pintura de D.A.E.S?

Nuno de Almeida e Silva (D.A.E.S) ocupa um lugar de destaque em Gente Feliz com Lágrimas, a exposição que a dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira comissariou para a quinta edição do festival Walk&Talk, na ilha de São Miguel, Açores.

Apropriando-se do título do conhecido romance de João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas reuniu um conjunto de trabalhos que tocam questões ligadas à circulação de pessoas e bens num mundo globalizado onde, segundo os comissários, “a parte afectiva e o sentimento de pertença a determinado lugar acaba por ser uma condicionante”.

É irónica a participação de Vasco Araújo – para citar um dos artistas mais conhecidos do grupo, que inclui ainda Ângela Ferreira, Pedro Barateiro, Ana Pérez-Quiroga e Sandra Rocha, mas também nomes menos conhecidos como Tiago Alexandre, Nuno Nunes-Ferreira, Horácio Frutuoso, Márcio Santos, Rodrigo Oliveira, Maciel Santos, Maria Trabulo e uma intervenção da Labareda, a editora musical de Sónia Câmara (na exposição, em dupla com Diana Policarpo). 

Na sequência das propostas apresentadas em Re Cordum (Voltar ao Coração), que em Setembro do ano passado apresentou na galeria Baginski, em Lisboa, Vasco Araújo volta a trabalhar as relações de poder, dependência e submissão que têm marcado grande parte da sua obra – relações, neste caso, enquadradas por noções de exotismo e alteridade. Sobre uma pequena mesa de madeira, uma natureza morta feita de ananases de plástico – a acompanhar, uma gravação em que se fazem notar as gargalhadas: “Oh, it’s so exotic!”, diz a mesma voz, uma e outra vez. E então as gargalhadas – o tom de indisfarçada superioridade e mofa.

No século XVII, quando os portugueses o trouxeram do Brasil e começaram a cultivá-lo nas suas ilhas atlânticas, o ananás abriu um dos grandes ciclos económicos açorianos. Cultivado inicialmente como curiosidade botânica ornamental, no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o ananás acabou por alicerçar a fortuna de uma nova elite local, com relações comerciais com países como a Inglaterra, a Alemanha e a Rússia.

Foi um período. Antes houvera o Ciclo da Laranja – aquele que Maciel Santos comenta em Sweet Orange Mega Beast (2013), o grande contentor marítimo a esmagar o citrino no centro da sala principal de Gente Feliz com Lágrimas. A mesma sala onde expõem, entre outros, Ângela Ferreira – evocando a mitologia colonial da travessia da linha imaginária do Equador –, Tiago Alexandre – que transforma os bilhetes dourados da fábrica de chocolates de Willy Wonka em cartas de chamada para os Estados Unidos e o Canadá, dois dos países que mais emigrantes açorianos recebem –, e Rodrigo Oliveira – com um grande mural inspirado no logotipo da Cadbury (os dois copos com leite aqui representados a derramarem-se ao infinito para dentro uns dos outros). Sobre o Leite Derramado (2008) inspirou-se inicialmente no contexto de produção de cacau e chocolate de São Tomé e Príncipe. Recontextualizado, nos Açores, parece evocar a produção de leiteira, o sector mais importante da agricultura local.

Contra o minimal

Referindo-se ao conjunto dos artistas com quem escolheram trabalhar, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira falam “numa estética que não é minimal, em revivalismo dos anos 1960 e 1970”: “Nos últimos anos tem-se promovido uma estética que não nos interessa especialmente. Aburguesada. Asséptica. Inóspita. Que não fala sobre as questões que nos interessam”, concretiza Nuno Alexandre. 


Uma das questões que importam é o próprio sistema da arte. A forma como a linguagem dessa arte “aburguesada” responde aos ditames do mercado. Ou como outro tipo de posicionamento comenta esses mesmos ditames, confrontando-os e iludindo-os.

Veja-se a participação de Gemeniano Cruz. Primeiro, um mural, como os que tem feito em Sintra. É verdade que, com a explosão da street art e a sua absorção pelo mainstream, mesmo os murais, intervenções à partida inamovíveis, começaram a ser transaccionados de diversas formas no circuito das galerias e leiloeiras. Mas que dizer das tatuagens que este mesmo artista tem vindo a fazer, por marcação, numa corner station montada dentro do espaço expositivo?

Com ele, há uma série de intervenções – assumidas pelo seu autor como obras – que saem da exposição e mergulham na realidade quotidiana isentas de viabilidade especulativa. Na verdade, abandonam o universo expositivo sem qualquer valor de mercado.

Depois, há o caso de D.A.E.S. As quatro pinturas de grande formato deste artista apresentadas em Gente Feliz com Lágrimas fazem parte de uma série agrupada sob o genérico St. Moritz, como a conhecida comuna suíça, uma das grandes estâncias de Inverno com tradição desde meados do século XIX. No blogue em que assume uma persona chamada Nuno von Schweiz (Nuno da Suíça, em alemão), D.A.E.S. tem um desenho em que elenca parte da iconografia da sua obra plástica, um estudo a que chamou painting for dummies e em que se esboça a base das St. Moritz paintings: uma superfície quadrangular dividida em dois planos pictóricos, um dos quais (o superior) ocupado por uma representação evocativa da forma de uma montanha.

O traço das St. Moritz paintings é denso e obsessivo, carregado de História. A História da arte, por um lado – e todo o fascínio romântico e pré-romântico por montanhas –, mas também a história da própria realização destas pinturas.

D.A.E.S., actualmente radicado em Berlim, viveu meio ano na Suíça. Mas não é isso. Tem a ver com o rasto da passagem da mão a carregar cada presença com a energia do movimento. E com a luz e a sombra de cada cor usada. 

É doloroso imaginar que qualquer destas obras possa desaparecer em breve, mas é o destino de muitos dos trabalhos de D.A.E.S., que quando não vende pinta por cima e destrói, deixando permanecer apenas o registo fotográfico na Internet, através do Facebook ou do blogue onde Nuno von Schweiz vai construindo, passo a passo, uma mitologia individual.

É uma forma de permanência. Uma nova forma de permanência.

No seu blogue, D.A.E.S. dá como elemento fundador o facto de ter nascido nos anos 1980. “Born in the eighties, Lisbon”, diz genericamente. Faz sentido.