Galp já factura 650 milhões com o negócio de combustíveis em África

Petrolífera vira-se para os mercados africanos para garantir crescimento da venda de combustíveis e lubrificantes.

O Estado detém 1% do capital da Galp através da CGD
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Galp quer tirar partido do crescimento económico previsto para África Filipe Casaca/Arquivo

Ainda só representa 8% do volume total de vendas de combustíveis a clientes directos, mas a Galp já tem muito mais que uma lança em África. No final do primeiro semestre a petrolífera tinha uma rede de 150 postos de abastecimento (e 92 lojas de conveniência) em seis países africanos: Moçambique, Suazilândia, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Gâmbia e Angola.

Embora não haja planos para abrir mais nenhum até ao final de 2015, “os planos de expansão para os próximos anos são da ordem das dezenas de novos postos”, disse ao PÚBLICO fonte oficial da empresa liderada por Carlos Gomes da Silva. É em Moçambique, onde já há 34 postos, que se tem registado o maior ritmo de aberturas e é também neste mercado (a par da vizinha Suazilândia, onde há 22 bombas) que a Galp tem apostado na abertura de lojas com a marca Tangerina, revelou a mesma fonte.

Contas feitas, no ano passado, a Galp Marketing Internacional (GMI), que gere os negócios africanos, teve um volume de negócios de 650 milhões de euros, adiantou a Galp, que emprega 820 colaboradores nestas operações. A aposta nos mercados africanos, onde algumas previsões de crescimento económico chegam aos dois dígitos, tem sido reforçada nos últimos anos e é o reverso da medalha do que se verifica na Península Ibérica onde a rede da Galp foi redimensionada na sequência da crise económica, que empurrou o consumo para níveis da década de 90.

Em 2009 (ano em que comprou as rede da ESSO e Agip em Espanha), a empresa chegou a ter 1451 postos na Península Ibérica, mas o número foi encolhendo progressivamente até 2013, ano em que estabilizou em torno dos 1300 postos (eram 1304 no final de Junho, segundo dados enviados pela Galp ao PÚBLICO). Nas contas do semestre, divulgadas no final de Julho, a empresa sublinhou que a abertura de postos em África compensou os encerramentos na Península Ibérica.

“Não temos perspectivado abrir mais postos no país, aliás, até têm vindo a ser reduzidos e isso é normal dentro do processo de optimização que existe na Galp", afirmou recentemente Carlos Gomes da Silva a propósito de Portugal, citado pelo site Dinheiro Vivo.

Assim, apesar de a Galp assumir que o seu motor de desenvolvimento é a exploração de petróleo no Brasil, a garantia de níveis de crescimento relevantes no negócio de combustíveis e lubrificantes está no mercado africano. Um sinal de que esta é uma aposta forte foi a contratação no final do ano passado de Paulo Varela como consultor para o negócio de distribuição dos produtos petrolíferos nos mercados internacionais, beneficiando da vasta experiência do ex-presidente da Visabeira nos mercados africanos.

Presentemente, a estratégia da Galp para África assenta naquilo a que chama os seus “três polos de desenvolvimento”: a África Ocidental (Cabo Verde, Gâmbia, Guiné-Bissau), África Austral-Índico (Moçambique, Malawi e Suazilândia) e África Austral-Atlântico (Angola). Mas a abordagem aos diferentes mercados tem sido também distinta e nos mercados de língua portuguesa, onde está há mais anos, a actividade vai muito além das bombas de gasolina.

Na Suazilândia (22 postos) e na Gâmbia (11 postos), a petrolífera entrou em 2008 através da aquisição das redes de distribuição da Royal Dutch Shell (um negócio de quase 36 milhões de euros, que também incluiu os activos em Moçambique). E nos vizinhos Moçambique e Suazilândia estão cerca de 50 das 60 lojas Tangerina que a Galp tem em África, de um total de 92 lojas, que na maioria dos casos são arrendadas e geridas pelos concessionários.

Em Moçambique, onde emprega 112 pessoas, a Galp tem ainda 45% do consórcio que está a construir infra-estruturas para o armazenamento de combustíveis e gás de petróleo liquefeito (GPL). “Este projecto constitui a criação de um centro logístico que permitirá à empresa assegurar o acesso a um aprovisionamento competitivo daqueles produtos, possibilitando inclusive a exportação dos mesmos para países vizinhos”, revelava a Galp no relatório e contas de 2014.

Já a entrada no Malawi passou pela abertura de uma sucursal em 2010. Em 2011, a empresa começou por importar, distribuir e comercializar os seus lubrificantes para, em 2013, iniciar-se na distribuição de gasóleo, ainda que não explore postos próprios.

Na Guiné-Bissau (11 postos), a Galp faz valer o estatuto de liderança do mercado com o controlo da Petrogal Guiné-Bissau, a partir da qual gere os negócios de importação, distribuição e comercialização de combustíveis para os mercados retalhista e grossista, além da armazenagem. E em Cabo Verde (24 postos), a petrolífera tem uma posição de 48,3% na Enacol, a empresa estatal que também detém as actividades de importação, armazenamento, distribuição e comercialização de lubrificantes e combustíveis. É neste país que tem o maior número de colaboradores: 317.

Em Angola a empresa tem 46 postos de abastecimento (e 181 empregados) e ainda um dossier sensível por resolver. Depois de em 2014 terem posto fim à Sopol, a parceria criada para a venda de combustíveis em Portugal, a Galp e a Sonangol discutem há meses a possibilidade de os angolanos saírem do capital da Sonangalp, a joint-venture criada para o mercado angolano. Mas quanto a esta empresa, que é controlada em 51% pela Sonangol, ainda não houve qualquer acordo. O mercado angolano é controlado pela petrolífera estatal, que tinha 494 postos, dos cerca de 900 estavam registados num relatório de Julho do Ministério dos Petróleos de Angola citado pela Lusa.