Ervilhas de Mendel estampadas em novos selos dos CTT

Lançada a primeira emissão filatélica portuguesa que comemora as leis da hereditariedade enunciadas há 150 anos.

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Imagem da pagela, a brochura que acompanha a edição filatélica CTT/Atelier Design&etc/Elizabete Fonseca
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Um dos dois selos CTT/Atelier Design&etc/Elizabete Fonseca
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Um dos dois selos CTT/Atelier Design&etc/Elizabete Fonseca

Em 1865, um monge agostiniano determinava pela primeira vez as leis da hereditariedade. Gregor Johann Mendel tornava-se o “pai da genética” ao comunicar os resultados das suas experiências com ervilhas (Pisum sativum) na Sociedade de História Natural de Brno, a 8 de Fevereiro e a 8 de Março daquele ano. Os CTT- Correios de Portugal celebram os 150 anos das leis de Mendel com a emissão de dois selos, lançados esta terça-feira à tarde no Anfiteatro Químico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa.

Os dois selos (um com o valor facial de 45 cêntimos e uma tiragem de 155 mil exemplares e outro com um valor facial de 1 euro e uma tiragem de 165 mil exemplares) foram desenhados pelo Atelier Design&etc/Elizabete Fonseca. Esta é a primeira vez que os CTT lançam uma emissão filatélica sobre Mendel e o seu trabalho.

Gregor Mendel nasceu em 1822 em Hyncice, na actual República Checa, numa família de agricultores. Encorajado pelo seu professor de física do Instituto de Filosofia de Olomouc, onde estudou matemática, física, filosofia e ética, entrou para o Mosteiro de São Tomás, na actual Brno, e aí recebeu o nome Gregor com 21 anos, tornando-se monge agostiniano. Foi nesse mosteiro da ordem de Santo Agostinho que Mendel construiu uma estufa e se dedicou a experiências, durante cerca de dez anos, de cruzamento de ervilheiras para estudar a transmissão hereditária de determinadas características.

Em 1859, seis anos antes de Mendel apresentar os seus resultados, Charles Darwin tinha publicado Sobre a Origem das Espécies – Por Meio da Selecção Natural. A obra-prima de Darwin introduzia um mecanismo de acção para explicar a evolução das espécies, sem encontrar, porém, forma de a fundamentar: a selecção natural, que confere aos mais aptos a capacidade de transmitir as suas características aos descendentes. Não fossem os enganos do tempo, teria o naturalista encontrado a sua fundamentação nos estudos de Mendel seis anos depois.

Numa época em que a existência do gene era ainda desconhecida, Mendel foi capaz de perceber como determinadas características eram transmitidas e elaborar duas leis da hereditariedade, publicadas em 1866 nas actas da Sociedade de Ciências da Natureza de Brno. Mas o trabalho desafiava as leis da paciência: o jovem monge controlou a fecundação (evitando a autopolinização) das cerca de 28.000 plantas que usou em experiências e, entre estas, observou cuidadosamente 12.835 plantas.

A primeira lei, a Lei da Segregação Factorial, diz que um organismo herda dois factores de uma característica, mas transmite apenas um à descendência. Ou seja, o descendente terá dois factores que determinam a mesma ou diferentes características (por exemplo, a ervilha ser rugosa ou lisa), um herdado de um progenitor e outro herdado do outro progenitor. Aquele que for manifestado chama-se factor dominante, o outro é o factor recessivo.

A Lei da Segregação Independente, a segunda, afirma que os factores se transmitem de forma independente, ou seja, durante a formação dos gâmetas (células sexuais), os factores que determinam cada uma das características são segregados independentemente. Com as suas experiências, o jovem Mendel vinha propor que as características herdadas se deviam à existência de um par de unidades elementares de hereditariedade, agora conhecido como gene (constituído por dois alelos, cada um herdado de um progenitor).

Além dos estudos desenvolvidos na genética (que ainda não existia como tal), o monge agostiniano interessou-se ainda por áreas como a meteorologia, tendo fundado a Associação Meteorológica austríaca, e a astronomia. Ao tornar-se o abade do Mosteiro de São Tomás em 1868, a actividade científica de Mendel diminuiu para fazer face às novas responsabilidades administrativas.

A sua morte a 6 de Janeiro de 1884 deixou adormecidos os seus estudos até ao início do século XX, quando foram redescobertos por um grupo de botânicos. “Seria preciso esperar até ao início do século XX, para que os botânicos Hugo de Vries (1848-1935), Carl Correns (1864-1933) e Erich von Tschermak (1871-1962) lhe atribuíssem o crédito devido pela descoberta das leis da hereditariedade”, diz Francisco Malta Romeiras, do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia da Universidade de Lisboa, na pagela que acompanha a edição filatélica 150 anos das Leis da Hereditariedade.

Texto editado por Teresa Firmino