Opinião

A Língua Portuguesa na Guiné-Bissau

O governo guineense não pode andar a fazer de conta que a Guiné-Bissau é, formalmente, um país lusófono, quando não se verifica a sua correspondente prática no terreno.

Depois da independência, os sucessivos dirigentes, deslumbrados com uma nova realidade, nunca tinham pensado que o desafio maior era a construção de um estado de direito, digno deste nome. Todavia, à medida que o tempo foi passando, o sonho delirante transformou-se no verdadeiro pesadelo.

A seguir, começou o imparável ciclo de degradação de infra-estruturas e do conjunto da administração pública, herdados do poder colonial. O sistema educativo, fazendo parte deste conjunto, sofreu a derrocada com a sua implosão. Assim, o grande desejo dos guineenses de poderem aprender a falar e escrever bem em português não passou disso mesmo.

A Guiné tem de equacionar bem a sua política externa e decidir, sem hesitação, que países devem configurar as suas relações privilegiadas. Portugal deveria ocupar o primeiro lugar. A recente visita oficial do primeiro-ministro Passos Coelho à Guiné foi um claro sinal de afirmação dos indissolúveis laços históricos multisseculares que unem ambos os países. A língua, o importante legado, pode contribuir para perpetuar estes laços fraternos, se, entretanto, for estabelecido um plano sério de extensão do ensino do português.

Portugal tem dado sinais inquestionáveis de querer ajudar a Guiné-Bissau a sair da encruzilhada em que se meteu. Também tem sido até agora o único país que concretizou a sua promessa feita de ajuda à Guiné na realização da mesa-redonda sobre este país em Bruxelas.

Por outro lado, foi, de igual modo, o único governo que, até ao momento, tem mobilizado recursos humanos e materiais como medidas de prevenção contra o ébola na Guiné e forneceu um laboratório, que vai também servir para as análises das outras doenças infecto-contagiosas. Os técnicos portugueses estão no terreno a ajudar nos outros cuidados de saúde, além de estarem também a partilhar os seus conhecimentos profissionais com os colegas guineenses. Pois, como é óbvio, o veículo de comunicação para o efeito é a nossa língua comum. Mas será que estes entenderam bem o que lhes foi ensinado em português?

O governo guineense não pode andar a fazer de conta que a Guiné-Bissau é, formalmente, um país lusófono, quando não se verifica a sua correspondente prática no terreno, inclusive nas instituições públicas. Sendo o português a língua oficial do país e fundamental para o seu desenvolvimento, ela não pode ser vista com tamanha ligeireza pelos dirigentes nacionais. É por isso que há ministros e deputados que não sabem falar português, sendo alguns deles literalmente analfabetos.

Ora, um país que anseia pelo desenvolvimento não pode ter dirigentes cujo único interesse é estarem sentados na cadeira do poder, a todo o custo. Como tal, durante a campanha eleitoral, os partidos andam frenéticos à procura, desesperadamente, dos apoios dos chefes das tabancas e/ou dos líderes tribais, não hesitando em acenar-lhes com cargos de relevância política nos órgãos de estado, desde que garantam a vitória eleitoral à formação política com a qual tiveram compromisso.

A Guiné está habituada quase sempre a navegar no seu agitado mar da política interna, porém, quando está em risco de naufrágio, aparece logo Portugal como o seu porto de abrigo. Mas não se compreende o porquê de ainda não ter nomeado o seu embaixador para Lisboa.

A Guiné deve contar sempre com Portugal para a ajudar organizar o seu caótico aparelho administrativo e poder também contribuir noutras áreas, sem medo dos fantasmas do neocolonialismo que ainda paira sobre os espíritos de algumas pessoas. Importa mais do que nunca voltar o seu olhar para o outro lado do Atlântico sem, no entanto, pôr em causa a sua integração na sub-região. Aliás, o que vai reforçar a sua posição no seio da CEDEAO.

Portanto, a Guiné deveria também aprender a lição com o seu vizinho Senegal, que continua ligado, umbilicalmente, à França, porque ambos partilham muitos valores que as circunstâncias históricas lhes proporcionaram, ao longo de uma caminhada em comum.

Dirigente da Associação Guineense de Solidariedade Social