Caetano e Gil, excelência e sedução em Oeiras

O encerramento do festival EDP Cool Jazz 2015 não podia ter sido melhor: Caetano Veloso e Gilberto Gil construíram, juntos, um espectáculo magnífico.

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Caetano Veloso e Gilberto Gil no EDP Cool Jazz 2015 Enric Vives-Rubio
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Caetano Veloso e Gilberto Gil no EDP Cool Jazz 2015 Enric Vives-Rubio
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Caetano Veloso e Gilberto Gil no EDP Cool Jazz 2015 Enric Vives-Rubio
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Caetano Veloso e Gilberto Gil no EDP Cool Jazz 2015 Enric Vives-Rubio

E, por estranha coincidência, foram também 26 as canções ouvidas agora em palco (do espectáculo de 1994, só cinco foram agora retomadas: Sampa, Eu vim da Bahia, Toda menina baiana, Esotérico, Filhos de Gandhi e Desde que o samba é samba). Mas de resto, esta revisitação conjunta dos 50 anos de carreira de ambos (um século no total) nada teve de repetitivo ou revivalista, antes foi uma vibrante afirmação da vitalidade e do génio dos dois, potenciados no passar do tempo. A voz de Caetano, em excelente forma, soa magnífica (e para isso muito contribuiu o som límpido e absolutamente irrepreensível no estádio) e a de Gil, mantendo o seu tom peculiar de há décadas, evidencia calor, nervo e sedução. O público portou-se à altura, e fez da noite um espaço de comunhão musical como poucos.

Sendo um olhar introspectivo, o roteiro soube traçá-lo com argúcia. Desde logo, com a ideia, sempre presente, de regresso, com Back in Bahia. Regresso ao Brasil, do exílio; regresso a um Portugal por onde passaram a caminho do exílio. “Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui”, diz a canção. E dizem as vozes, em uníssono, a uma distância de quase cinco décadas. Depois Coração vagabundo (Caetano a escrever na senda de João Gilberto) e dois temas-manifesto, ambos de 1968: Tropicália, de Caetano (que agora o cantou de forma avassaladora) e Marginália II, de Gil (o refrão foi repetido pela audiência). É luxo só, de Ary Barroso, soou com um balanço incrível, as cordas dos violões em constante pulsação rítmica, e lembrou ali João Gilberto, que o gravou. Tal como É de manhã, escrito por Caetano para a irmã, lembrou Bethânia sem a nomear. Caetano e Gil cantaram-na magnificamente, abrindo o “tempo” para Caetano: Sampa, Terra, Nine out of ten e Odeio (de ) um dos temas mais recentes ouvidos na noite.

Tonada de luna llena (do venezuelano Simón Diaz, que Caetano gravou em Fina Estampa) passou a palavra a Gil, com Eu vim da Bahia, seguida de Super-homem, a canção, primeiro na voz de Caetano (que dela gravara uma excelente versão) e depois na de Gil, naquele que foi um dos mais fabulosos momentos conjuntos da noite. Gil escreveu este tema, belíssimo, em 1979, depois de ouvir Caetano Veloso contar-lhe, entusiasmado, o filme Super-Homem, a que acabara de assistir, e onde este – como depois escreveu Gil – mudara “como um deus o curso da história/ por causa da mulher”.

Nova incursão em palavras alheias: Caetano com Come prima (que ele gravou no disco de homenagem a Fellini e Giulietta Masina e é do repertório de Domenico Modugno) e depois Gil com Tres palabras, do cubano Osvaldo Farrés. Pelo meio, cantaram juntos Esotérico (grata memória dos Doces Bárbaros) e assim se mantiveram em Drão, um dos temas mais bem concebidos de Gil. Que teve, a seguir, o seu grande momento da noite: Não tenho medo da morte, primeiro cantado em tom excepcionalmente grave e depois com a voz lançada a tons mais altos. Criativo, vibrante, absolutamente excepcional.

Expresso 2222 chegou já no alegre caminho da festa. Que se manteve, em alta, com Toda menina baiana (com a audiência a cantar e a bater palmas cadenciadas), São João, Xangô, menino (também dos tempos dos Doces Bárbaros) e Nossa gente. Depois, os ritos e a crença: Andar com fé e Filhos de Gandhi, ambas de Gil, mas tocadas em duo.

Forte aplausos, falso fim e regresso. Como os sons baianos estavam de novo no ar, Caetano saudou (ali bem perto) “Santo Amaro… de Oeiras”, ele que nasceu num outro Santo Amaro, o da Purificação da Bahia. Isso serviu-lhe, a ele e a Gil, para recordarem em duo o magnífico Desde que o samba é samba, de Tropicália 2, que a audiência replicou palavra a palavra, num sussurro que se foi fazendo coro global. Depois Domingo no Parque e, a fechar, A luz de Tieta, remetendo para a entusiástica rítmica baiana e para Jorge Amado.

Uma dupla, escrevi em 1994, após o concerto do Coliseu, “imbatível nas artes de bem compor, bem cantar e melhor seduzir.” E que é, sem dúvida, imbatível na arte de bem envelhecer.