Que teatro fazer em tempos de terrorismo e alienação?

Como resposta a esta pergunta que inquieta o Teatro da Garagem, a companhia concebeu Daylight Project, nome para um projecto de ambição internacional e para uma peça esta sexta-feira estreada no Teatro Taborda, em Lisboa.

O espectáculo final de <i>Daylight Project</i> resulta do trabalho faseado em vários módulos, como o de videoarte (ou desenho de luz)
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O espectáculo final de Daylight Project resulta do trabalho faseado em vários módulos, como o de videoarte (ou desenho de luz) Tadeu Machado

Está quase tudo na primeira cena de Daylight Project: um grupo de jovens cobertos de burkas está na conversa e, na sequência desse entusiasmo colectivo, desatam a tirar selfies umas atrás das outras.

 E está quase tudo aqui porque, nesta curta cena, a peça anuncia muito daquilo que lhe está na base – a proximidade do outro, do desconhecido, informada pelo mesmo tipo de comportamentos que reconhecemos no nosso quotidiano; a assunção de um perfil baseado no reconhecimento imediato da burka como representativa de um contexto religioso, político, cultural; a certeza de que debaixo de cada burka está alguém que não conhecemos e que, portanto, tudo aquilo que passe pela cabeça dos espectadores vem desse perigoso lugar de presunção de um mundo alheio, com base num frequente estereótipo absolutamente superficial.

E será certamente por isso que durante toda a apresentação de Daylight Project ouvimos discursos em português, turco ou grego, mas as burkas são mantidas até ao último instante, quando as portas da sala se abrem pondo fim à escuridão e se oferecem à luz exterior. Este é, de certa forma, um subtexto sempre presente na construção de um espectáculo que funciona como primeira experiência do Daylight Project pensado e implementado por Carlos J. Pessoa e Maria João Vicente, do Teatro da Garagem. E é a primeira resposta artística a uma inquietação que tomou conta da dupla: “tentar encontrar que teatro fazer para responder a uma época marcada pelo terrorismo e pela alienação”, descreve Pessoa, autor, encenador e director da companhia residente do Teatro Taborda, em Lisboa.

“Coloco o terrorismo e a alienação num mesmo plano de igualdade”, justifica, “porque acho que são duas formas diferentes de obter o mesmo. Se o terrorismo acaba por ter um impacto mais cénico, a alienação (digital, pelo capitalismo, pelo consumo) tem um efeito talvez ainda mais intrusivo.” Ao perceber nestes dois efeitos inibidores e anestesiantes das populações uma implicação à escala global, o Teatro da Garagem não quis limitar o diagnóstico à sua regular programação teatral. Em vez disso, partiu em busca de interlocutores internacionais com os quais pudesse partilhar estas questões e desenvolver a tentativa de criação de um teatro que espelhasse “uma plataforma de entendimento”. A mesma tecnologia que alimenta essa alienação, acreditam, deve ajudar a criar uma comunicação à escala global e uma “micro-sociedade representativa da diversidade das muitas formas como essas pressões são vividas em diferentes latitudes”.

As pontes criadas a Sul

Tendo procurado parceiros no Brasil, mas também no Norte da Europa, no Magrebe e no Médio Oriente, as respostas mais entusiastas acabaram por vir dos países do Sul e da periferia europeia. Embora Carlos J. Pessoa admita que não encontraram ainda os interlocutores certos entre os nórdicos, observa também que “é um sinal dos tempos – os do Norte, regra geral, estão-se nas tintas”. “Isto que vemos acontecer com a
troika não é um acaso. Estão a dar voz ao sentimento comum das pessoas que é um desprezo e uma enorme incompreensão pelas gentes do Sul e pelo que se está a passar aqui. Acham que estas questões da emigração e do terrorismo não lhes dizem respeito.” Daí as pontes, como forma de contrariar a tendência que o dramaturgo diz encontrar hoje no tabuleiro político: “Enquanto a América está a tentar criar pontes, a fazer pazes com os cubanos, nós aqui na Europa estamos, cada vez mais, a criar fossos.”

Depois dessa ponte inicial construída com base nas temáticas aventadas por Carlos J. Pessoa e o Teatro da Garagem, os actores que esta sexta-feira e amanhã apresentam o Daylight Project no Teatro Taborda viajaram até Lisboa passaram mais de um mês a trabalhar em vários módulos – do desenho de luz e de som à videoarte, à improvisação e ao teatro clássico, e mesmo até à automotivação e aos cuidados paliativos –, respeitando sempre uma ideia nuclear de morte e de beleza sugerida por um poema do norte-americano Wallace Stevens. “A morte é a mãe da beleza; por isso dela, / só virá realização para os nossos sonhos / e os nossos desejos...”, escreveu Stevens (tradução Luísa Maria Lucas para a Assírio & Alvim, 1991). O papel de Pessoa passou depois por organizar o resultado de todos estes módulos num objecto coerente.

E foi nesta fase de composição deste primeiro espectáculo do Daylight Project – cuja continuação no próximo ano parece estar já assegurada – que o director do Teatro da Garagem percebeu que a generosidade e o empenho dos participantes permitira criar um objecto artístico válido. Esse investimento é evidente em blocos como aquele em que, debaixo das burkas, cada um dá voz a um relato pessoal sobre a sua experiência com a morte de alguém querido. Nesse estado de vulnerabilidade sobrevêm as semelhanças, quer sejam originários de uma cultura ortodoxa, islâmica ou católica. Debaixo dos seus pés, existe então uma série de campas, desenhada por uma teia de ligaduras que os actores hão-de recolher nos minutos finais da peça. Nesse momento, o que deixam no ar é a ideia que da morte nascerá qualquer outra coisa; e tanto melhor se essa qualquer coisa se revestir de um sentido comunitário e de negação da lógica da lei da selva.