Com a verdade me enganas

Depois do seu documentário para João Bénard da Costa, Manuel Mozos inventa um passado cinéfilo para José Régio à sombra de Manoel de Oliveira

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Manuel Mozos Enric Vives-Rubio

O título é todo um programa: A Glória de Fazer Cinema em Portugal.

Vem de uma carta endereçada pelo escritor José Régio ao seu amigo Alberto de Serpa, e define também a mais recente curta-metragem de Manuel Mozos, na forma de uma investigação sobre a origem de uma misteriosa bobina de filme mudo descoberta em casa de um habitante de Vila do Conde. Essa bobina corresponderia à estreia por trás da câmara de Régio, que manifestara na tal carta a intenção de fundar um grupo de cinéfilos dispostos a introduzir em Portugal o cinema artístico. A bobina, cuja existência nunca teria sido confirmada, teria sido o único resultado prático dessa ambição, visto que daí para a frente o escritor apenas surgiria ligado ao cinema através da crítica que escrevia na lendária revista Presença, ou em adaptações cinematográficas de obras suas – várias delas (como O Meu Caso, Benilde ou a Virgem Mãe) assinadas por um grande amigo e companheiro seu de tertúlia chamado Manoel de Oliveira.

Duas semanas após a estreia de A Glória de Fazer Cinema em Portugal no Curtas Vila do Conde, que produziu o filme, Manuel Mozos, sentado numa pastelaria lisboeta, ri-se ao recordar a reacção de uma espectadora à saída da sala. “Uma rapariga, lá de Vila do Conde, disse-me: 'você a mim não me engana! Eu compro peixe todos os dias a uma daquelas senhoras!'"

A reacção da espectadora confirma a definição que Mozos faz desta curta-metragem encomendada pelo festival, que é, na verdade, uma invenção à volta de factos e pessoas reais. “É um divertimento,” explica, “e foi essa a intenção que tivemos.” O projecto inicial era muito mais documental, centrado na ligação do escritor ao cinema. “Fizemos uma investigação, junto de pessoas ligadas ao Régio e ao Oliveira, e deparámos no Centro de Memória de Vila do Conde com a carta, que existe realmente. A ideia de não nos cingirmos a uma coisa exclusivamente documental partiu do Miguel Dias”, um dos directores do Curtas e produtor do filme. E com a entrada em cena do investigador e artista vimaranense Eduardo Brito, que trabalhou o argumento, o filme descolou “cada vez mais em direcção à ficção”. “Mas sempre com a intenção de deixar uma coisa um pouco dúbia: até que ponto seria uma ficção ou se haveria aqui um lado verídico...”

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A curta acaba por “etiquetar” Manoel Mozos como uma espécie de “historiador” especializado no passado do cinema nacional

É em parte isso que explica as constantes piscadelas de olho cinéfilas, cúmplices, de A Glória de Fazer Cinema em Portugal, que é dedicado a Manoel de Oliveira, falecido há poucas semanas, e a outro dos elementos da tertúlia regular de Régio, o padre João Marques (1929-2015), que foi director do Centro de Estudos Regianos. Mozos reconhece a presença tutelar de Oliveira, embora o lendário cineasta portuense não tenha estado envolvido no projecto: “A Glória acaba por ter a ver com um certo humor do Manoel, particularmente em alguns filmes mais próximos da memória dele e da sua relação com o norte do país. Mas não foi uma coisa pensada. O filme foi delineado em 2014, ainda ele era vivo, mas a questão de se falar com ele durante o processo de produção estava um bocadinho posta de parte, devido ao seu estado de saúde.”

A Glória de Fazer Cinema em Portugal foi completado já após a morte de Oliveira em Abril, e surge após a aclamação global ao seu filme-testamento Visita ou Memórias e Confissões. Mas sucede também à inesperada carreira internacional que a evocação por Mozos do programador João Bénard da Costa, Outros Amarão as Coisas que Amei, tem tido; esse documentário, estreado no DocLisboa 2014 e que deverá chegar ao circuito comercial em Outubro, tem viajado por uma série de festivais de peso, o mais recente dos quais o FIDMarseille.

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enric vives-rubio

Mozos confessa-se francamente surpreendido com essas viagens - “a maioria das pessoas lá fora não sabe quem era o Bénard, e por isso agrada-me e espanta-me que se interessem” - mas reconhece que a proximidade entre os projectos possa criar ligações e sugestões que tornem A Glória de Fazer Cinema em Portugal num objecto fascinante para festivais. “É verdade que, vendo este, o filme do Bénard e o filme póstumo do Manoel, se vêem pontes entre os filmes e as pessoas, se descobrem ligações que não são de todo conscientes. Mas para mim é tudo um concurso de coincidências. Quando fiz o Bénard não tinha ideia sequer de fazer a Glória, não foram sequer filmes pensados em conjunto, mas há coisas que foram de algum modo transportadas para este. E, a posteriori, tenho de facto uma sensação de complementaridade entre eles.”

A curta acaba, de qualquer maneira, por “etiquetar” o realizador lisboeta como uma espécie de “historiador” especializado no passado do cinema nacional – para lá do filme sobre Bénard da Costa, basta recordar as múltiplas curtas que dedicou ao assunto, como Lisboa no Cinema (1994), Cinema Português? Um Diálogo com João Bénard da Costa (1997) ou Olhar o Cinema Português (2006), as suas montagens de cenas cortadas pela censura do regime salazarista.

Mozos anui. “Tenho a sorte de trabalhar no ANIM, e a investigação que tenho estado a fazer em relação à censura faz-me descobrir muito regularmente coisas fascinantes, fait-divers. Continuar a trabalhar sobre o cinema português é algo que me importa e que me interessa – não deixar cair as coisas no esquecimento.”