“Os clubes no Norte alimentam o ego dos lisboetas”

Jorge Peixoto, um dos mais influentes jogadores do pack do CRAV nos últimos anos, colocou um ponto final na carreia

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Helena Amorim

Nasceu em Braga, cidade onde começou a jogar aos 14 anos, mas foi em Arcos de Valdevez que Jorge “Primo” Peixoto fez praticamente toda a sua carreira. Um dos mais influentes jogadores do pack avançado do CRAV nos últimos anos, Jorge Peixoto foi nos arcuenses uma voz activa dentro e fora do campo, mas depois de quase três dezenas de anos de dedicação à modalidade, colocou um ponto final na carreira de jogador no último jogo do CRAV da época passada. Na hora da despedida como atleta, Jorge Peixoto, de 43 anos, destaca a importância de Júlio Faria na história do clube minhoto, reconhece que as novas gerações têm perdido o “espírito” que existia no passado e deixa críticas à forma como a Federação Portuguesa de Rugby beneficia os “grandes” em detrimento dos clubes mais pequenos.

 

Qual o jogo que mais marcou a sua carreira?

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O jogo com o CR Évora que ditou a subida do CRAV à Divisão de Honra, em 2010.

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Quando começou a jogar râguebi?

Comecei com 14 anos num clube que foi formado em Braga e treinávamos num pelado onde actualmente é a Toyota. Tínhamos um professor de ginástica nos Arcos de Valdevez, que tentou formar um grupo aqui em Braga. O grupo acabaria por se dissolver e o Sr. Júlio Faria tratou de levar a mim e a mais alguns para os Arcos de Valdevez, para treinarem e jogarem.

 

Foi fácil para um miúdo de 14 anos ir de Braga para os Arcos de Valdevez treinar?

Saía do trabalho em Nogueira às 18h00 e ia até à estação de camionagem a pé - cerca de dois quilómetros. Depois, ia da central de camionagem de Arcos de Valdevez a pé até ao campo de râguebi. Esperava que o Gil Gonçalves ou outros acabassem o treino de seniores e me trouxessem de boleia de novo para Braga. Às vezes à meia-noite… Ao fim de semana, o Sr. Júlio Faria apanhava-nos em Nogueira e depois vinha-nos trazer. O Sr. Júlio foi muito importante para o CRAV. Veio para os Arcos em 1984-85 e foi o meu primeiro treinador. No râguebi foi um pai para mim.

 

Como conseguiu conciliar o râguebi com o trabalho?

Tenho um trabalho com pessoas para gerir e ordenados para pagar, e estava a 50 quilómetros do campo de râguebi. Tinha de ir jogar râguebi porque é o que gosto e programava tudo para o conseguir. Se queres uma coisa, tu é que fazes a gestão do teu tempo, dos teus quilómetros e da vontade que tens. Se és capitão tens de ir aos treinos e dar o exemplo. Gostava do grupo, gostava das pessoas. Isso era fundamental.

 

Nestes anos todos, não se arrepende dos sacrifícios feitos para jogar? Foi por amor à camisola?

Nem acho que se possa dizer que seja amor à modalidade. É mais que amor: é um vício pelo desporto e pelo companheirismo. Quando se fala da terceira parte, é completamente diferente dos outros desportos.

 

Não se está a perder esse espírito da terceira parte?

Aquele sentimento que tínhamos de união e companheirismo, penso que se está a perder. Se calhar, já não ia para a guerra com todos actualmente e isso tem muito a ver como os miúdos são criados, com muitos paninhos quentes. Até compreendo isso e eles hoje até podem ser unidos, só que eu já não vejo aquele espírito de sacrifício. O tipo de companheirismo é diferente.

 

O que faz um bom pilar esquerdo?

Ter um grande espirito de sacrifico, gostar da posição e depois ter todas as técnicas que se aprendem. Há as técnicas universais que cada um melhora e adapta à sua personalidade e à sua agressividade.

 

O CRAV chegou a ter um pack temido…

Todos gostavam da posição que tinham e isso fez um grupo, além de que era um pack pesado e com muita experiência. Já não havia muitos segredos.

 

As mudanças introduzidas nas regras das formações ordenadas foram positivas?

Eu preferia as anteriores. Há luta na mesma, o impacto não é tão forte mas consegues lutar mais facilmente. Há manhas diferentes. Não penso que haja grande diferença a nível de lesões.

 

Qual é o modelo que defende para a Divisão de Honra?

Acho que voltar ao sistema de 12 equipas, divididas em quatro grupos em que dois primeiros de cada grupo disputavam um campeonato e as restantes, outro. As equipas só evoluem competindo e competindo ao mais alto nível. Para o CRAV é um sacrifício perder 80 ou 90% das vezes. Fazer 800 quilómetros, jogar e perder. Mas só assim se cresce.

 

A federação e os clubes de Lisboa compreendem esse sacrifício?

A maneira dos clubes lisboetas encararem o râguebi é particular. Se tivessem de fazer os quilómetros que nós fazemos, se calhar entendiam que era difícil ter um clube a sério e ter atletas dispostos e alegres para isso. Para além disso, os clubes no Norte não se unem e isso alimenta o ego das equipas lisboetas. Só se fizermos como o Pinto da Costa e puxarmos a federação para cima. Se tivessem de fazer tantas viagens como nós fazemos, duvido que fossem tão fortes como são e que tivessem tantas pessoas a jogar como têm. Se calhar o râguebi não seria como está hoje.

 

Como será o seu futuro? Treinar é uma hipótese?

Não sei. Tenho curso de nível I, mas esses cursos… Estamos no amador, amador, amador, onde as pessoas gastam dinheiro para poder jogar, e as regras nesses cursos são profissionais, profissionais, profissionais. Para mim não faz sentido…

 

Quais as razões para os resultados menos conseguidos das selecções nacionais?

Houve uma selecção com alguns elementos com uma vontade forte de jogar e um espirito de sacrifício que mais nenhuma teve, com jogadores como o Malheiro, o “Xixa”, o D’Orey, o Cordeiro… Agora há às políticas do Tomaz Morais de levar os meninos para o Direito e lá jogam como vedetas… Isso alimenta os grandes, mas aumenta o fosso entre os dois níveis. Algo que também se poderia considerar era fazer-se uma selecção regional no Minho para disputar um campeonato com as equipas do Sul, até estarem a um nível mais semelhante. Cresciam os clubes dessa selecção, ganhando assim condições para a médio prazo se tornarem mais competitivos, dando depois mais luta aos que já estavam noutro nível.

 

O que é que a federação pode fazer para juntar essa duas realidades: uma super amadora a Norte e outra semi amadora a Sul?

Acabar com as festinhas aos grandes e olhar para os pequenos com olhos de ver. Se tu hoje és pequeno, amanhã podes crescer.