Entrevista

Lianne La Havas à procura das suas raízes e dela própria

Passou por Portugal há uns dias, acabada de lançar Blood e no momento em que se pressente que vai sofrer um grande impulso. No novo disco, foi à procura das suas raízes: "Como se me estivesse também a descobrir", afirma ela.

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Nas letras das suas canções não há política, mas sim amor. Amor romântico. Amor fraterno. Amor familiar. DR

Está naquela fase em que o reconhecimento que já possui no Reino Unido vai alastrar para o resto do mundo. O seu trajecto é ascendente. Foi essa a imagem que ficou a pairar no pensamento dos que assistiram à estreia em palcos portugueses da britânica Lianne La Havas, 25 anos, no último domingo, durante o festival EDP Cool Jazz. Quando regressar a casa, o seu estatuto será outro. E o grande responsável é o segundo álbum, Blood, editado esta semana em todo o mundo. Um disco cujo centro é a sua voz e a guitarra, envolvidos por elementos que tanto remetem para ensinamentos soul como para inspirações repescadas no hip-hop ou componentes de R&B, jazz, folk ou funk. No entanto, para ela, o elemento aglutinador do novo disco são as letras das canções.

Tudo terá começado numa viagem à Jamaica, no final de 2013, na companhia da mãe. Ao que parece, depois da edição do primeiro álbum, Is Your Love Big Enough? (2012), Lianne sentia-se insatisfeita com as novas composições. A viagem serviu para desbloquear: “Há muitos anos escrevi uma canção sobre a minha avó, e quando comecei a compor este álbum dei por a mim a pensar que a maior parte das canções eram sobre a minha família”, diz-nos ela no interior do Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, horas antes do concerto. “Por alguma razão queria reflectir sobre as relações no seio da família e essa viagem à Jamaica, de onde é natural a minha mãe e aonde eu nunca tinha ido, serviu de motivação, fazendo-me pensar na minha herança familiar e nos meus descendentes. E quando voltei da Jamaica comecei a escrever com isso em mente, como se, ao revolver nas minhas raízes, me estivesse também a descobrir.”

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Nesse sentido, Blood é um álbum de autodescoberta, como se, ao tentar perceber de onde vem, ela estivesse também a tentar entender para onde vai. “Six years old/ Staring at my nose through the mirror/ Trying to get my toes in the mirror/ Thinkingwho's that girl’?”, canta ela em Green & gold. Em parte é por isso que o som melodioso e acústico do primeiro álbum está agora mais diversificado, com ambientes delimitados por soul, jazz ou R&B.

No magnífico tema de abertura do álbum, que foi também o do concerto, o single Unstoppable, canta também sobre intimidades, abordando uma relação terminada numa elegante combinação sonora tão pop quanto jazz com a subtileza do baixo, os arranjos da guitarra e o ritmo lânguido prevalecendo sobre uma brisa romântica difícil de alcançar sem cair na redundância. Em What you don’t do estamos em terrenos R&B, mas, em vez da versão artificiosa do género, somos levados numa viagem orgânica, com um coro de vozes a dar um colorido festivo ao todo, enquanto em Grow somos embalados por um registo misto, tão assente nos novelos acústicos como na forte percussão. A balada Wonderful reaviva o melhor que Lianne tem para oferecer, numa canção simples, de recursos mínimos, que resulta num momento nostálgico para piano e ritmo discreto. Pelo contrário, Never get enough faz vir ao de cima indecisão, entre o registo tranquilo e uma verve impetuosa e mal resolvida próxima do rock. Mas essa é a excepção, num álbum que flui de forma serena.

Há elementos sonoros em Blood que não estavam presentes de forma tão efectiva no anterior registo. Percebe-se que a viagem à Jamaica não foi determinante apenas por causa das letras. “Fui completamente imersa em música”, ri-se ela, “aquela ilha respira música por todos os lados, é incrível, parece que todas as pessoas têm uma sistema de som em casa ou no seu bairro e se predispõem a criar ou a desfrutar dela, seja nas ruas ou nas igrejas, por causa do elemento religioso, que é forte”.

A música na ilha é essencialmente o reggae, o dub ou o dancehall, mas nas canções de La Havas esses traços não se pressentem. “Não queria fazer um álbum de reggae, não era por aí, a experiência foi marcante por outras razões”, esclarece. “Quando cheguei a Londres, percebi que a consciência que as pessoas têm do som, do ritmo e do balanço da música na ilha foi muito importante para mim. O reggae tem isso. Tem de nos fazer sentir bem. Esse é o elemento mais importante. E isso, sim, foi marcante – a partir daí foi fácil reconhecer o sentimento e o balanço que queria que a música me transmitisse quando a estava a fazer.”

A maior diferença em relação ao primeiro álbum prende-se precisamente com o entendimento do ritmo e do balanceamento físico da música. “Senti que depois da viagem estava finalmente apta a explorar esse lado da minha personalidade musical”, afirma ela, considerando que existe um crescimento em relação ao anterior registo. “A forma de compor está mais refinada e a maneira como toco guitarra também está diferente, mas a principal distinção tem a ver com a incorporação de novos sons na minha música que lhe atribuem mais corpo e fisicalidade.”

Ordem e desordem
A mãe de Lianne La Havas é jamaicana, o pai grego. Se a Jamaica apenas a conheceu recentemente, na Grécia esteve aos nove anos, nunca mais lá tendo regressado. Mesmo assim sente afinidades com o país e diz-se triste pelos acontecimentos que têm marcado a actualidade europeia nos últimos meses, com a Grécia no centro do furacão. “A minha música não tem carga política, mas como cidadã não posso deixar de reflectir sobre o que se passa e a situação na Europa, neste momento, está extremamente confusa, é um facto.”

Nas letras das suas canções não há política, mas sim amor. Amor romântico. Amor fraterno. Amor familiar. “Enfim, amor, em todas as suas implicações”, ri-se ela, não receando afirmar que todas as suas canções são “autobiográficas” e acabam, de forma directa ou indirecta, por “evocar o amor”, porque é uma construção sentimental que “apetece transformar em música.”

Nascida Lianne Barnes, viveu grande parte da infância e da adolescência com os avós, no Sul de Londres, depois de os pais se terem separado quando tinha dois anos. A sua relação com a música iniciou-se aos sete, quando o pai lhe ofereceu um teclado. Depois de ter passado por um colégio de artes, tornou-se cantora de suporte de Paloma Faith, vindo a desenvolver o duo Paris Parade quase em simultâneo. Após o lançamento do primeiro álbum, a cena musical inglesa acolheu-a sem reservas, tendo sido desde então comparada a Jill Scott, Erykah Badu ou Laura Mvula.

Quem também gostou dela foi Prince. Lianne cantou ao lado dele, participou no seu último álbum, e Prince devolveu-lhe a gentileza, dando um concerto surpresa em sua casa que, no dia seguinte, haveria de ser notícia em quase todos os jornais britânicos.

Apesar de todas as referências, a única palavra que não gosta de ouvir quando se fala da sua música é neo-soul. E explica porquê: “Quem diz isso não tem em atenção o conteúdo da minha música, que é diversa, e apenas fala dela a partir da cor da minha pele.” E para justificar o que diz nomeia que tanto gosta de Billie Holiday como dos Radiohead, explicitando que o rock também corre nas suas veias, apesar de apenas a espaços o expressar na sua música.

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No início do seu percurso, também chegou a ser comparada a Amy Winehouse. E às tantas começa a falar ao Ípsilon do documentário Amy, que viu há cerca de duas semanas: “Era uma escritora de canções admirável e satisfaz-me que, através do documentário, se consiga perceber essa sua faceta de forma clara. É um bom documento para acedermos a outros aspectos da sua vida e da sua personalidade que durante anos os escândalos encobriram.”

Amy trabalhava no meio do caos, La Havas diz precisar de tranquilidade e organização totais. “Posso escrever uma canção em qualquer sítio, mas preciso de estar totalmente desperta e concentrada para me focar nas canções. Da mesma forma, quando trabalho com outras pessoas tenho de ter bem presente o que quero delas, apesar de estar receptiva ao que possa acontecer. Ou seja, preciso de ordem à minha volta para aceitar a desordem.”

E não é apenas assim na música. No seu quotidiano a receita repete-se. Gosta de rituais precisos, daí que diga que andar em digressão não é fácil. Constitui um corte com as práticas que lhe são normais e que lhe dão prazer. “No fim de contas sou muito caseira, gosto de acordar, de fazer café, de comer tostas e cereais e de preparar o meu dia, ouvindo música ou então optando pelo silêncio, que é cada vez mais um bem raro nos nossos dias.”