Erdogan diz que processo de paz com os curdos “é impossível”

Ancara volta atrás com a palavra e afasta negociações com separatistas curdos. Parceiros da NATO discutem intenções turcas para a guerra na Síria.

Protesto diante o edifício em que decorre a reunião da NATO, com imagens do líder do PKK, Abdullah Öcalan
Foto
Protesto diante o edifício em que decorre a reunião da NATO, com imagens do líder do PKK, Abdullah Öcalan Nicolas Maeterlinck / AFP

Reunidos de emergência a pedido da Turquia, os 28 parceiros da NATO discutiam na manhã nesta terça-feira a intervenção de Ancara no conflito sírio. Uma movimentação que o Governo turco evitou durante meses e que agora aproveita para atingir, para além dos extremistas, também os separatistas curdos do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e seus aliados.

A Turquia parece pouco disposta a abdicar desta ofensiva paralela. “É impossível avançar [um processo de paz] com aqueles que atacam a unidade nacional”, disse nesta terça-feira Recep Tayyip Erdogan, o Presidente turco, referindo-se às negociações que ele próprio iniciou como primeiro-ministro com o grupo separatista, em 2012.

Na sexta-feira, primeiro dia da ofensiva turca contra posições do PKK no Norte do Iraque, Ancara disse que as negociações de paz com os separatistas curdos prosseguiriam. Nos dias seguintes, vários membros da NATO repetiram os apelos para que o Governo turco não deixasse cair por terra as conversações que, em Março de 2013, resultaram numa trégua instável com os separatistas.

Este passo foi então considerado um momento “histórico” no caminho para terminar com a guerra interna que, ao cabo de mais de 30 anos, matou cerca de 40 mil pessoas. O cessar-fogo, contudo, caiu por terra na sexta, julgando pela resposta do PKK aos bombardeamentos turcos no Iraque. “A trégua não tem nenhum significado depois destes ataques aéreos intensos”, anunciaram os rebeldes.

Ancara parece estar mais investida em atacar separatistas curdos do que, neste momento, os extremistas islâmicos. Algo que preocupa os aliados da NATO, apesar de muitos incluírem o PKK nas suas listas de grupos terroristas e de considerarem os separatistas como um alvo legítimo para Ancara.

“É preciso ter atenção e não confundir os alvos”, disse nesta terça-feira aos jornalistas o Presidente francês, François Hollande, depois de um telefonema com Erdogan. O mesmo foi dito no fim-de-semana pela chanceler alemã, Angela Merkel, e, segunda-feira, pelo secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. Ambos disseram que a ofensiva turca deveria respeitar o “princípio da proporcionalidade” entre curdos e jihadistas.

Mesmo envolta em cepticismo, a decisão da Turquia em entrar definitivamente no conflito sírio está a ser bem recebida pelos seus parceiros internacionais. À entrada para reunião da NATO em Bruxelas, Jens Stoltenberg prometeu “forte solidariedade ao nosso aliado turco”.

“O terrorismo, em todas as suas formas, não pode ser tolerado ou justificado em caso algum”, disse ainda Stoltenberg, citado pela AFP.

Há várias indefinições em torno do plano de intervenção da Turquia na Síria. Sobretudo no que se prende com as “zonas de protecção”, negociadas por Ancara e Washington, para o Norte da Síria. A intenção é expulsar os jihadistas destes territórios e deixá-los para serem governados por grupos rebeldes no país – quais, no entanto, não se sabe –, e como zona para os mais de 1,8 milhões de refugiados sírios na Turquia.

Mas esta tira de terreno, que se estenderá para ocidente desde o rio Eufrates até à vila de Azaz, faz também parte das ambições das milícias curdas na Síria, inimigas da Turquia, mas um dos principais aliados no terreno da coligação liderada pelos Estados Unidos.