Quando esquerda radical e extrema-direita convergem

“Para mim, esta atmosfera é um pouco similar aos tempos que se seguiram ao 1968 na Europa. Pressinto não uma disposição revolucionária mas algo como uma impaciência generalizada. Quando a impaciência deixa de ser individual para se tornar numa experiência social, é o prenúncio de revoluções.”

Há uma ressalva a fazer: não tem sentido evocar o Maio 68, a não ser pelo efeito de contágio que provocou. Ao contrário do clima depressivo dos nossos dias, Maio 68 foi uma explosão social na era da prosperidade, no auge do pleno emprego e do welfare state. Os jovens europeus ocidentais aborreciam-se de ser “ricos” e depressa foram intoxicados pelo romantismo revolucionário. Olhavam para Cuba ou para a China. Em países como a Itália e a Alemanha houve depois uma derrapagem terrorista.

Mas o ponto que Tusk quer realçar é outro: “O mais impressionante é a aliança táctica entre esquerda e direita radicais, e não apenas no Parlamento Europeu. (...) A discussão sobre a Grécia é uma discussão contra a austeridade, contra a tradição europeia e contra a Alemanha. É isto que provoca entusiasmos em ambos os lados. É muito simbólico.” Conclui: “Foi sempre o mesmo jogo antes das maiores tragédias da história europeia — a aliança táctica entre radicais de ambos os lados. A melodia dominante é hoje anti-europeia.”

Esquerda e direita
Este fenómeno não é uma novidade histórica mas não vale a pena recuar aos anos 1920-30. O politólogo italiano Luca Ricolfi convida-nos a revisitar a tese de Norberto Bobbio sobre a direita e a esquerda. Nesse modelo, extrema-direita e extrema-esquerda apenas partilhavam a recusa da democracia. Podiam convergir no plano dos “meios” mas nunca dos “fins”: as esquerdas querem abolir as desigualdades, as direitas aceitam-nas.

Como explicar a aliança governamental entre o Syriza e um partido da direita radical como o ANEL? Porque assumiram um fim comum: “A recusa da supervisão europeia e dos sacrifícios impostos pela troika. Portanto, o esquema de Bobbio está ultrapassado. No século XXI, direita e esquerda radicais não só podem convergir no plano dos fins como já não comungam da recusa da democracia, como no passado o faziam fascistas e comunistas.”

Sublinha Ricolfi que o exemplo grego se pode estender a outros países em que “a hostilidade às autoridades supranacionais que ditam, ou condicionam fortemente, a política económica interna, atinja um certo patamar [eleitoral]. Direita e esquerda radicais estão juntas por bons motivos: terem um inimigo comum, a autoridade europeia, e um objectivo comum — dela se libertarem o mais depressa possível.”

Entram em desacordo quando se pergunta para onde querem ir. “A esquerda radical quer desmantelar a Europa de Bruxelas” para impor a soberania dos cidadãos e um outro modelo económico. “A direita radical sonha com uma Europa das nações, com menos imigrantes e mais autonomia dos Estados.”

A hipótese de Ricolfi é lógica mas não é a mais provável. A hipótese realista é a de uma convergência internacional de esquerdas radicais e extremas-direitas numa generalização da contestação anti-UE.

A situação varia de país para país. Na Itália há uma extrema-esquerda débil, uma extrema-direita em expansão — a Liga Norte, de Matteo Salvini — e o inclassificável Movimento 5 Estrelas, de Beppe Grillo. Na França há a forte Frente Nacional, de Marine Le Pen, e uma minoritária Frente de Esquerda. Na Espanha, há o Podemos e não há extrema-direita. Na Alemanha, os esquerdistas do Die Linke, os eurocépticos da Alternativa para a Alemanha (AfD) ou movimentos anti-imigração como o Pegida não ameaçam Merkel mas podem contagiar o ramo bávaro da democracia-cristã, a CSU — o que já preocupará Merkel.

Nestes países, são improváveis alianças formais de extrema-direita e extrema-esquerda. Ao contrário, na Holanda, na Dinamarca ou na Finlândia a extrema-direita participa ou participou em coligações governamentais, para manter os governos reféns em dois terrenos: a Europa e a imigração.

Bruxelas e os governos nacionais não deram uma resposta política ao surto populista nas eleições europeias de 2014. A Europa continua a perder credibilidade aos olhos dos cidadãos, que vêem em Bruxelas sinais de miopia, de uma exasperante lentidão institucional e até de irresponsabilidade política. A vertiginosa desconfiança dos cidadãos na política e nos partidos tradicionais degrada o próprio mecanismo democrático. A crise já não é apenas económica mas, repita-se, política e de legitimidade, na UE e nos seus Estados. Este contexto é o caldo de cultura do eurocepticismo.

O efeito de “fusão”
A vitória do Syriza nas eleições de Janeiro foi o catalisador duma nova vaga anti-Bruxelas, sobretudo na esquerda radical. O “não” no referendo de 5 de Julho uniu os dois extremos e foi exaltado por Pablo Iglesias e Marine Le Pen, por Bepe Grillo e Nigel Farage, deixando vislumbrar a contestação generalizada das políticas europeias a que alude Tusk. A viragem de Tsipras após o acordo de Bruxelas foi um balde água fria. Mas a crise grega ainda vai no adro.

A “fusão” destas forças não é uma hipótese académica. Basta-lhes “cavalgar a onda”, condicionar as políticas dos grandes partidos, à direita e à esquerda, e tentar paralisar a UE. Há um terreno em que os extremos divergem: a imigração e a xenofobia. E outros que os opõem, como a clivagem Norte-Sul, que se acentuará. Mas aquela “fusão” não precisa de um acordo político e ideológico: chega que as diversas e divergentes contestações se somem, ao ponto de aparecerem como uma reacção geral dos cidadãos europeus.

A construção europeia sempre foi feita de sobressaltos e de viragens. Nada se deve dar por adquirido, nem o positivo nem o negativo. Uma sondagem italiana há dias publicada mostra algo de desconcertante em plena crise grega: a desconfiança na UE sobe para 55%, mas 65% dos jovens confiam nela. E, para 64,9%, o euro é “um factor de estabilidade”.

O último sobressalto é o da Grécia. O próximo teste será na Espanha, em Dezembro, e tem um nome: Podemos.