Entrevista

“PS está disponível para entendimentos com todas as forças políticas”

No rescaldo do confuso processo de constituição de listas de candidatos a deputados, o ex-secretário de Estado da Saúde e primeiro vereador na Câmara do Porto Manuel Pizarro reclama uma profunda reforma do sistema político e a criação de círculos uninominais.

Foto
Manuel Pizarro Nelson Garrido

O secretário nacional do PS Manuel Pizarro diz que não tem uma “visão sebastiânica nem do secretário-geral nem de nenhuma figura pública”. Lamenta a confusão com a lista de deputados no Porto e reclama uma profunda reforma do sistema político, que crie círculos uninominais e que permita um sistema de candidatos que vá para além dos directórios partidários.

Como encara uma eventual candidatura de Maria de Belém à Presidência da República?
Qualquer candidatura como a de Maria de Belém que venha a emergir do espaço do Partido Socialista terá de ser considerada pelo partido. Não é obrigatório o PS apoiar ninguém nas eleições presidenciais.

É uma candidatura que podia apoiar?
Candidaturas que sejam do espaço político do PS são susceptíveis de terem o apoio do partido.

Dizem que esta candidatura visa travar o apoio do PS a Sampaio da Nóvoa...
A candidatura do professor Sampaio da Nóvoa está a fazer o seu caminho no país e logo veremos qual vai ser o impacto.

O ex-reitor da Universidade de Lisboa vai ter o apoio do PS?
Há uma evidente proximidade entre o PS e o professor Sampaio da Nóvoa e essa proximidade é bem-vinda do nosso ponto de vista, mas isto não está directamente relacionado com o apoio à sua candidatura.

Carlos César admitiu a possibilidade de o partido não apoiar nenhum candidato da área socialista a Belém…Essa avaliação tem de ser feita no timing próprio. Todas as hipóteses têm de estar em cima da mesa, inclusive a hipótese de o PS não apoiar nenhum dos candidatos.

Rui Rio pode entrar na corrida das presidenciais. Gostaria de ver um homem do Norte em Belém?
Não faço das escolhas políticos combates regionais. Nós precisamos de um presidente que represente todos os portugueses. Rui Rio é, seguramente, uma personalidade respeitada da área da direita que, se aparecer como candidato, será bem-vindo à disputa eleitoral.

O Presidente da República tem sido muito criticado. Como o avalia os seus dois mandatos?
O Presidente da República perdeu o seu papel moderador. Infelizmente, tivemos um Presidente que resolveu abandonar esse papel e acho que isso faz com que muitos milhares de cidadãos portugueses se sintam órfãos de alguma representação politica.

António Costa prometeu unificar o PS, mas a escolha dos candidatos a deputados evidenciam bem o clima de divisão interna. Como explica que o PS não esteja pacificado?
O processo de feitura das listas é conflitual e está excessivamente entregue aos directórios partidários. No essencial, o PS está unido, depois há pequenos focos de tensão e de divisão, uns que resultam dos conflitos do passado recente, outros que resultam das aspirações das pessoas a figurarem em lugares diferentes das listas. É a vida!

É preciso uma reforma do sistema político?
Precisamos de uma profunda reforma do sistema político, que crie círculos uninominais e que permita um sistema de candidatos que vá para além dos directórios partidários, e que, designadamente, envolva a participação dos cidadãos em primárias ou noutros modelos de participação mais aberta.

A lista de deputados do Porto foi chumbada. O que é que aconteceu?
Na distrital do Porto, porventura, aconteceu de forma exacerbada o que aconteceu noutros locais, que é haver um conjunto de ambições que eu reputo de legítimas, mas que são em si mesmas conflituais, porque o número de lugares nas listas é sempre limitado.

Houve quem se zangasse e se tenha demitido do secretariado distrital…
Talvez isso reflicta um excesso de funcionamento aparelhístico da distrital do Porto do PS. O partido no país e, designadamente, no Porto, tem de se abrir mais à sociedade e tem de funcionar de uma forma mais aberta.

O presidente da mesa da comissão política distrital criticou ferozmente a quota da Trofa na lista de deputados, por se estar a beneficiar um concelho que perdeu eleições…
Houve uma concentração excessiva nalgumas concelhias dos nomes propostos na lista apresentada e isso criou dificuldade e acabou por conduzir à rejeição.

Várias distritais desrespeitaram os critérios aprovados pela direcção nacional. Isto é uma afronta ao secretário-geral?
Prefiro achar que em muitos casos isso corresponde a dificuldades próprias dos líderes dessas distritais face às tensões internas que existem em muitos sectores. A mudança do secretário-geral ocorrida há sete ou oito meses significou o quebrar de muitas expectativas que são difíceis de acomodar num espaço de tempo tão curto.

Alexandre Quintanilha foi escolhido para liderar a lista do Porto. A ideia foi do secretário-geral?
Sim e corresponde a um programa político de grande relevo que visa valorizar personalidades conhecidas pela qualidade do seu pensamento pela qualidade da sua acção e pela sua independência. A sua presença à frente da lista e no Parlamento é uma garantia acrescida para os portuenses e para os portugueses de que o PS está preocupado em ter um grupo parlamentar que ajude a que, mesmo num cenário de maioria absoluta, estejamos disponíveis para o diálogo e para o encontrar posições com as outras forças políticas.

Numa entrevista recente, o professor disse que não está na disposição de perder a sua independência. Preocupa-o?
Não. Não seria sério convidar o professor Quintanilha para limitar a sua independência, essa é precisamente uma das qualidades que o faz ser tão desejado como cabeça de lista do PS no Porto.

Costa mudou todos os cabeça de lista à excepção de Vieira da Silva, escolhendo independentes e vários académicos. É uma estratégia acertada quando o histórico diz-nos que a incursão de académicos pela política não costuma ter um bom desfecho?
A história diz-nos que há casos que correram menos bem e casos que correram bem. A solução encontrada por António Costa é a solução. É uma combinação de experiência política com experiência e com currículo feito e, ao mesmo tempo, abrir a participação da política a outros cidadãos.

A principal missão dos cabeça de lista do PS será repor a “confiança minada” pelo Governo. De que forma?
Pela sua credibilidade. No programa do PS não há nada dúbio nem nada escondido. O PS tem uma estratégia de médio prazo e um programa de governo transparente que criam condições para retomar a confiança.

Que explicação é que tem para que, depois de quatro anos de austeridade, os estudos de opinião não dêem uma vitória folgada ao PS?
Os estudos de opinião dão ao PS mais 10% do que o resultado que teve nas legislativas de 2011 e dão à direita menos 10% do que teve nas legislativas. Os estudos de opinião são influenciados pelo facto de estarmos ainda a três meses das eleições.

Concorda com a posição de Rui Moreira de não apoiar nenhum candidato a primeiro-ministro?
O dr. Rui Moreira construiu toda a sua vida pública na base da sua independência e ganhou a Câmara do Porto à frente de uma lista independe e, nesse contexto, é absolutamente compreensível a sua posição.

Mas Rui Moreira tem um acordo com o PS na câmara…
Isso é outro assunto. Fizemos um acordo sobre a governação da cidade do Porto que é exemplar. O que se tem passado no Porto permite às pessoas refazerem a sua confiança em relação ao sistema político e contribuiu para o prestígio do PS.

Vamos ter Rui Moreira como independente a liderar a lista do PS à autarquia em 2017?
O dr. Rui Moreira já disse que não aceitará ser candidato em nenhuma lista de nenhuma força partidária. É ainda muito cedo para pensarmos o que vai acontecer nas próximas autárquicas.

Vai ser o número dois da lista de Rui Moreira ou esse lugar está reservado a Nuno Botelho, ex-director de campanha do actual presidente da Câmara do Porto?
(Risos) Não faço a mínima ideia sobre o que vai acontecer nas autárquicas de 2017.

Como é que o PS se livra do fantasma da instabilidade, após as legislativas?
O melhor é convencer os portugueses que o mais seguro, mais seguro, mais seguro, é darem-nos a maioria absoluta. Mas o PS está disponível para a construção de uma alternativa. O PS está muito disponível para o diálogo com todas as forças, nomeadamente com aquelas que estão à sua esquerda. Infelizmente, há muito pouca disponibilidade das forças à esquerda do PS para um entendimento, o que significa que a única garantia que os portugueses podem ter para terem um governo absolutamente estável é darem uma maioria absoluta ao PS.

Acredita que é possível o PS ter maioria absoluta?
Não me parece que seja excesso de optimismo imaginar que é possível ter uma maioria absoluta.

No encerramento do congresso do PS, Costa recusou um bloco central e disse que com a esquerda logo se vê… Como é que vai ser se o PS ganhar as eleições com maioria relativa?
Se ganhar com maioria relativa, vai construir na Assembleia da República uma solução de governabilidade que pode ter diferentes perspectivas. O cenário do bloco central é impossível face àquilo que é a traição da actual direcção do PSD.

Que avaliação é que faz dos quatro anos do Governo PSD/CDS?
Foi um governo muito negativo para o país - os resultados são, alias, desastrosos. O problema para a direita, para o país e para os portugueses é que as finanças públicas estão piores em 2015 do que estavam em 2011. A dívida pública cresceu de cerca de 100% do Produto Interno Bruto para cerca de 130% do PIB, o que é extremamente penoso para o nosso presente e para o nosso futuro.

O PSD espera pelo PS para fazer a reforma da Segurança Social. Qual é a disponibilidade do partido?
O PSD está à espera do PS para promover cortes nas pensões e nós estamos disponíveis para promover iniciativas de reformas da Segurança Social. A principal medida que tem de ser promovida é fazer crescer a economia.

António Costa apareceu quase como um salvador da pátria, mas passados alguns meses o seu projecto político parece não convencer…
O líder do PS continua a ser encarado por uma grande maioria dos portugueses como pessoa capaz de liderar um projecto de mudança. Agora, também não tenho uma visão sebastiânica, nem do secretário-geral do PS, nem de nenhuma figura pública. A situação do país é tão difícil que nós precisamos de trabalhar em conjunto.

Não considera que, depois do acordo com a Grécia, a austeridade imposta pelo Governo português,passou a estar justificada?
Não há nenhum sentido de uma austeridade que prejudica as pessoas e prejudica a economia, criando a certa altura uma pescadinha de rabo na boca em que cada medida de austeridade põe as coisas ainda pior, justificando novas medidas de austeridade.

Está disponível para integrar um futuro Governo do PS?
Tenho a obrigação de cumprir o meu mandato de autarca no Porto até ao fim. Há um longo trabalho a fazer na cidade e foram geradas muitas expectativas e eu contribuí para que muitas dessas expectativas aparecessem junto dos cidadãos. Não entendem que fosse adequado para mim e bom para o PS que deixasse de ser vereador na Câmara do Porto.

Um dos casos mais polémicos do actual mandato é o concurso para a concessão do pavilhão Rosa Mota. Vê alguma pertinência nas críticas feitas ao concurso pela empresa BBZ, cujo responsável fez a sua campanha para a Câmara do Porto?
Não vejo nenhuma pertinência nessas críticas. Já tive oportunidade de manifestar a minha solidariedade com o processo concursal. Tenho confiança que o júri do concurso decidirá de forma totalmente independente e responsável em relação ao caderno de encargos que lhe foi presente.

Ao contrário de si, Rui Moreira mostrou grande incómodo com críticas a todo o processo do pavilhão Rosa Mota feitas por uma pessoa do seu partido…
Não acho que, pelo facto de uma pessoa ser do PS, veja limitado o direito de expressão pública da sua opinião. Não estou de acordo com a opinião da empresa BBZ sobre o concurso, mas estou completamente disponível para defender o direito da empresa BBZ a ter essa opinião. O PS é favorável ao concurso do pavilhão Rosa Mota e acha que o processo está a ser conduzido com transparência e com rigor.