Presidente do Burundi vence terceiro mandato e arrisca violência étnica no país

Pierre Nkurunziza avançou com candidatura face a ameaças da comunidade internacional e uma onda de violência que matou mais de 100 pessoas em três meses.

Comunidade internacional diz que eleições presidenciais no Burundi não foram justas ou livres
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Comunidade internacional diz que eleições presidenciais no Burundi não foram justas ou livres Mike Hutchings / Reuters

Sem surpresas e sob uma violenta onda de contestação interna, Pierre Nkurunziza venceu as eleições presidenciais no Burundi e avança agora para um polémico terceiro mandato. Os resultados divulgados nesta sexta-feira, três dias depois das eleições, dão 69,4% dos votos a Nkurunziza e 18,9% ao seu rival mais próximo.

A candidatura de Pierre Nkurunziza sobreviveu a três meses de confrontos no país e a uma tentativa de golpe de Estado. Os seus opositores dizem que um terceiro mandato presidencial viola a Constituição, que prevê o limite de dois mandatos. Mas Nkurunziza, com o apoio do Tribunal Constitucional, diz que o seu primeiro mandato não é válido, uma vez que foi decidido por voto do Parlamento, no mesmo ano em que terminou o conflito civil no país.

Desde que Nkurunziza anunciou formalmente a sua candidatura, no final de Abril, morreram cerca de 100 pessoas em confrontos com a polícia e exército e mais de 175 mil fugiram para países vizinhos. As principais figuras da oposição boicotaram as eleições desta semana, alegando abusos da polícia e exército. Na quinta-feira, um relatório da Amnistia Internacional veio dar força a estas acusações. De acordo com a organização humanitária, as autoridades do Burundi usaram força mortífera para dispersarem manifestações pacíficas contra Nkurunziza.

A contestação vem também do exterior. União Europeia, Estados Unidos – as principais fontes de ajuda humanitária ao país – e também a União Africana dizem que as eleições no Burundi não deram garantias de serem livres ou justas. Nas semanas que antecederam o voto, aliás, europeus e norte-americanos ameaçaram cortar apoios ao país e acenaram com sanções caso Nkurunziza tentasse o terceiro mandato.

Mas o maior risco para o Burundi é que se reacendam as tensões étnicas que alimentaram a guerra civil no país entre 1993 e 2005. Cerca de 300 mil pessoas morreram ao longo dos 12 anos de confrontos étnicos entre as comunidades hutu e tutsi – Nkurunziza foi comandante de uma guerrilha da maioria hutu – e o fantasma do conflito provoca agora o êxodo do país. À semelhança do Ruanda, também o Burundi atravessou então um período de violenta limpeza étnica. 

No rescaldo da tentativa falhada de golpe de Estado, em Maio, um grupo de generais burundianos no exílio lançaram uma revolta armada nas regiões Norte do país. As Nações Unidas alertam para que o número de refugiados do Burundi que fogem da violência dos últimos meses pode aumentar para mais de meio milhão de pessoas.