As apoteoses de Caetano e Gil

É a Gilberto Gil e Caetano Veloso, juntos, num formato de voz e violão, que cabe este ano encerrar o EDP Cool Jazz, a 31 de Julho. Duas vozes ímpares da música brasileira e universal, num jogo de memórias fundado na amizade.

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Gil: “Sempre se descobrem novas coisas, novas sonoridades quando se volta a uma canção que há muito não se cantava/tocava”. Caetano: “Sim, coisas que estão lá e a gente nunca tinha ressaltado” DR

Já protagonizaram, juntos, concertos míticos: Barra 69, antes do exílio, e Solo/Duo, que trouxe a Portugal há 21 anos o espírito do disco Tropicália 2. Este show pode ser visto como uma espécie de Tropicália 3?
Gilberto Gil Sim, pode ser considerado uma comemoração dos 50 anos da Tropicália, que serão em 2017. Mais um encontro nosso no palco!
Caetano Veloso Eu não diria assim. É uma mirada mais ampla do que a que vai só até à Tropicália. Se bem que desta vez, para minha grande emoção, eu cante a canção Tropicália, que não estava em nenhum dos outros exemplos que você cita. Desta vez vai-se até De manhã, coisa que fala de um tempo bem anterior ao tropicalismo. 

O show obedece a um roteiro semelhante ao de Solo/Duo, com passagens entregues a cada um e outras partilhadas pelos dois, ou assenta num outro conceito?
G.G. – Ficamos o tempo todo do show os dois no palco. Às vezes não canto, só toco, às vezes Caetano faz o mesmo ou nem sequer toca, e um escuta o outro e observa!
C.V. – Sim, mas ninguém sai do palco. Cada um de nós contribui minimamente com algum som durante os números solo do outro. Ou simplesmente assiste de perto ao desempenho do companheiro. O conceito é de convivência, amizade, diferença e proximidade.

O vídeo do vosso ensaio, com Esotérico, remete-nos para o tempo dos Doces Bárbaros, mas também para a sua recordação em Solo/Duo, de 1994. O repertório de Dois Amigos retoma idênticas releituras?
G.G. – Não, são outras canções de um modo geral, mas há algo daquele repertório que são clássicos dos quais não podemos e às vezes não queremos fugir.
C.V. – Acho que Esotérico é o único número quase idêntico a algo apresentado em 1994.

Como é que o cancioneiro dos vossos 50 anos de carreira é valorizado neste formato de vozes e violões, em duo? O que vos preocupou mais na escolha dos temas para o alinhamento?
G.G. – Quisemos visitar todos os períodos de nossas carreiras, destacar músicas de relevância para nós nesses anos, e um opinou no repertório do outro.
C.V. – Começámos por não nos preocupar de mais. Gil está numa fase de sabedoria da maturidade. Pedi que começássemos por Back in Bahia, que é do meio do caminho mas aponta para a história toda, e ele simplesmente concordou. Parecia que eu poderia ter dito qualquer outro título. Assim, fomos seguindo o que vinha à mente. Muitos sentidos só vieram a ser pensados depois. Hoje Gil é quem mais desvela conteúdos sugeridos pela associação de canções.

Que canções de Caetano gostaria Gilberto Gil de ter escrito?
G.G. – Muitas, mas destaco Terra, Queixa, Desde que o samba é samba, Você é linda e O Quereres.

Que canções de Gil gostaria Caetano Veloso de ter escrito?
C.V. – Drão, Expresso 2222, Eu vim da Bahia, Oriente, Não tenho medo da morte.

Estão, ambos, a viver bons momentos em termos musicais. E estão, ambos, com 72 anos de idade. É coisa que vos preocupe agora, a idade? Condiciona-vos de algum modo?
G.G. – Não me preocupa, mas procuro levar uma vida condizente com minha idade. Cuidado com a alimentação, exercícios, repouso… Em tempo: acabo de completar 73 anos em 26 de Junho e Caetano será em 7 de Agosto.
C.V. – Claro que condiciona. Faço muito menos coisas fora do show na tournée do que fazia quando tinha 30, 50 anos. É assunto que atrai, mais do que preocupa.

Numa entrevista que deram ao PÚBLICO, antes do vosso show de 1994, Caetano disse que “é maravilhoso redescobrir canções antigas”, porque há coisas “que se revelam com o passar do tempo”. Isso ainda vos sucede? Há alguma “descoberta” recente, vossa, ao revisitarem o vosso cancioneiro?
G.G. – Sempre se descobre novas coisas, novas sonoridades quando se volta a uma canção que há muito não se cantava/tocava. A gente não é mais o mesmo e a canção se revela diferente muitas vezes.
C.V. – Sim, coisas que estão lá nas canções e a gente nunca tinha ressaltado. Gil me disse, pela primeira vez, que o “2222” do Expresso 2222 vem de uma numeração de locomotivas que chegavam à pequena cidade onde ele morou na infância. Ele estava lembrando... Eu disse que sempre me pareceu uma referência ao “dois-dois”, modo popular de, na Bahia, as pessoas se referirem a São Cosme e São Damião. E ao primeiro restaurante macrobiótico de Salvador, que se chamava Dois-dois. Gil riu: ele só estava pensando nas locomotivas de sua cidadezinha.

Este Dois Amigos, Um Século de Música nasceu com a ideia de ser apenas um show passageiro, comemorativo, ou existe a ideia de que ele venha a dar origem a um CD ou a um DVD ao vivo?
G.G. – Na verdade, a tournée surgiu de um pedido de nosso produtor na Itália, Ettore Caretta, que, desde que fizemos o Solo/Duo a partir do Tropicália 2, em 1994, vinha dizendo que a queria fazer novamente. Finalmente os 50 anos de carreira foram a motivação para voltarmos a esse formato. Há a ideia de se gravar um DVD/CD desse projecto mas ainda não há nada de certo. Faremos alguns poucos shows no Brasil quando voltarmos da Europa e ainda algumas cidades da América do Sul. Há pedidos para EUA e Ásia mas não sei se faremos.
C.V. – Ideia nossa não houve nesse sentido, mas as produções tendem naturalmente para isso. Já gravam conversas e situações na tournée para usar num possível documentário e seguramente num DVD contendo o show.