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Ana Marques Maia
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O novo terminal pode receber cruzeiros com mais de 3.000 passageiros Ana Marques Maia

Terminal de Leixões é uma linha curva com um milhão de azulejos

A 700 metros da costa, o edifício desenhado por Luís Pedro Silva para receber os passageiros de cruzeiros que chegam a Leixões impressiona pela dimensão. De azulejos que desafiam a perspectiva a um anfiteatro na cobertura, o novo terminal vai poder ser visitado por todos.

A melhor maneira de começar a ver o novo Terminal de Passageiros do Porto de Leixões é com as mãos. É isso que fazemos quando chegamos à entrada do edifício, que agora se inaugura. Pé fora do carro que nos levou ao meio do mar — são cerca de 700 os metros que nos separam da linha da costa — e mãos em riste para tocar nos azulejos hexagonais que cobrem grande parte do terminal. Não fomos os primeiros a fazer isto e os seguranças nem sequer estranham esta forma de ver e participar no edifício desenhado por Luís Pedro Silva. Afinal, estamos a falar de perto de um milhão de peças de cerâmica, entre revestimento interior e exterior, com espessuras e disposições variáveis. “Têm uma regra para parecer que não têm regra”, brinca o arquitecto de 44 anos.

Há dez anos que Luís Pedro Silva, natural de Oliveira de Azeméis, se dedica a este projecto, uma obra visível a partir das marginais do Porto e de Matosinhos. O cais, com 340 metros de comprimento, já está em funcionamento desde 2011, mas o terminal viu a inauguração oficial ser adiada. Nem todos os espaços do novo edifício estão ocupados, mas os passageiros dos cruzeiros com escala em Matosinhos já usufruem de um espaço cujas funções se assemelham às de um terminal de aeroporto, com segurança restrita: uma manga de acesso móvel e outra fixa, controlo de bagagens e alfândega, sala de espera, zonas comerciais. Todos enquadrados na envolvente do Porto de Leixões: céu, mar e barcos que chegam ou partem.

“O típico terminal de cruzeiros pode ser, na sua expressão mínima, um armazém”, reflecte o arquitecto. Não é o caso do de Leixões, orçado em 50 milhões de euros: não só pelas características arquitectónicas do edifício, mas também pela futura abertura ao público em geral. A luz natural (“a mais saudável”) está presente em quase todos os espaços, graças ao poço de 16 metros de diâmetro, e as sombras dominam. As linhas curvas — consequência do molhe curvo e “uma espécie de ponto de partida para o desenho do edifício” — aligeiram a dimensão do mesmo. São perto de 19 mil metros quadrados, contando com a área exterior, e 18 mil metros cúbicos de betão.

A inclusão de empresas portuguesas no processo de concepção e construção da infra-estrutura foi “sempre um ponto de honra” para o arquitecto. “Hoje, a visão global é importante mas continuamos a ser muito de um lugar e se perdermos essa relação, perdemos um bocadinho de tudo”, pondera. O milhão de azulejos tridimensionais [vê a galeria] é feito em Portugal. Vidrados, os azulejos garantem “iridescência para conseguir uma certa variedade cromática”: a forma como a luz do sol incide sobre as peças hexagonais muda ao longo do dia e das estações do ano.

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A forma como a luz do Sol incide sobre as peças hexagonais muda ao longo do dia e das estações do ano Ana Marques Maia

O terminal e a estação de cruzeiros, a área pública, os laboratórios e os gabinetes do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto, a cave e o biotério, as áreas de divulgação, o restaurante e o cais fluvio-marítimo (que pode ligar Leixões ao rio Douro) obrigaram a uma “diversidade programática”, cujas transições criam uma sensação serpenteante. “No interior, era importante que sentíssemos que estamos no mesmo edifício, daí essa sensação de que as coisas se vão sucedendo (…), num abrir de perspectivas diferentes”, explica.

Para que o espaço alcance a plenitude, terá que ser apropriado. E isso acontecerá quando todos os gabinetes e salas estiverem ocupados, quando os cerca de 200 investigadores do Pólo do Mar do CIIMAR invadirem os laboratórios e os corredores, quando o público puder aceder ao terminal por um novo passeio público com ligação à marginal de Matosinhos. “Fazer arquitectura hoje é algo muito plural, muito polissémico”, acredita Luís Pedro Sousa. “Gosto muito da expressão organizar espaço, que é aquilo que procuramos fazer com muitos conteúdos disciplinares (…). Mas o espaço é, sobretudo, para ser usufruído, como algo concreto”, continua. “A apropriação é o que dá sentido ao nosso trabalho.”

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Luís Pedro Silva, da Escola do Porto, tem 44 anos e é arquitecto desde 1995 Ana Marques Maia

A visita ao novo terminal — que, em breve, qualquer pessoa poderá fazer — tem fim na cobertura, nascida da necessidade de rematar o edifício, gerando “uma dimensão complementar”. De fora não é possível ver (ou imaginar) esta espécie de anfiteatro com capacidade para até 1800 pessoas, cuja vista se estende pelas marginais de Matosinhos e do Porto. “Infelizmente, não podemos ter aqui um concerto, na sua verdadeira acepção, porque precisávamos de um calibre muitíssimo maior de acessos verticais para evacuação em caso de incêndio”, lamenta o arquitecto. “É um espaço informal para uso informal”, descreve-o.

Na impossibilidade de assistir a um concerto no topo do novo terminal, a alternativa é sentarmo-nos nas escadas e olhar em volta — desta vez sem as mãos. De costas para a cidade, Luís Pedro Silva aponta para o Atlântico: “Há aqui uma dimensão que é a que eu gosto mais, o não ter fim.” É, no fundo, um outro espectáculo.

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