Como pensar o presente europeu

Como frequentemente recorrem a uma linguagem hiperbólica oriunda de um certo moralismo básico, e alheia ao rigor exigível à análise histórica e política, extasiam-se levianamente em proferir sentenças assentes nas palavras “ humilhação “, “ colaboracionismo “, “ diktat “, “ vingança “, “ capitulação “, “ retaliação “ e “ chantagem “. Chegam mesmo ao ponto de opor as aparentes virtudes da momentânea democracia referendária helénica às tenebrosas intenções de uma imaginada autocracia germânica que, nas mentes mais delirantes, surge associada à tão vilipendiada burocracia de Bruxelas. É muito difícil travar um debate razoável com este tipo de gente, mesmo quando se trata de pessoas de uma inteligência inquestionável. Contudo, basta fazer uma rápida leitura dos jornais ou observar o que se vai passando nas redes sociais para perceber a popularidade destas representações algo maniqueístas.

A resposta para isso talvez se encontre numa simples frase pronunciada pelos alunos do Professor Alexandre Quintanilha aquando da cerimónia de jubilação do mesmo ocorrida à poucos dias na Universidade do Porto. A frase é a seguinte: “ Obrigado, Professor por nos ter ensinado a distinguir o óbvio do verdadeiro. “. A afirmação reveste-se de uma complexidade epistemológica, e até ontológica, que sobreleva em muito o âmbito desta modesta excursão analítica. O que importa retirar dela neste caso é a ideia de um confronto entre um simplismo enganador e uma complexidade capaz de abrir as portas a uma melhor compreensão da realidade. Não é bem a célebre Alegoria da Caverna de Platão, dado que não está em causa a referência a uma ordem essencialista de natureza metafísica; o que está em causa é antes a possibilidade de alcançar uma discussão que se projecte muito para lá do domínio das aparências. Ora, se essa atitude metodológica é imprescindível à ciência moderna ela também não deve ser elidida no campo da avaliação do debate político. Infelizmente no tempo dos “sound bytes”, do elogio da comunicação pela comunicação ( por mais indigente que ela seja ) e da apologia de uma democracia das emoções há uma natural propensão para aderir às posições mais polarizadas. Curiosamente, o avanço tecnológico pode conduzir a uma regressão no grau de elaboração do debate cívico e político. Por isso mesmo assistimos a exuberantes manifestações do pensamento mágico e a penosas representações de um verdadeiro infantilismo mental. Neste contexto quase tudo se remete para o domínio de uma oposição binária referenciada a uma pauta doutrinária muito rígida.

O esforço para superar esta tendência para cair na tentação da exaltação do óbvio exige uma disponibilidade para aceitar a dúvida, a inquietação e a incerteza. Não creio que seja possível pensar o presente europeu sem recurso a esta predisposição mental. De outro modo andaremos todos, como demasiadas vezes andamos, a contar contos infantis uns aos outros.

2.O Presidente da Comissão Europeia formulou esta semana uma das mais graves acusações até hoje dirigidas ao Governo português. A ser verdade que o nosso Executivo subordinou o interesse geral europeu aos interesses eleitorais imediatos dos partidos que o compõem estaremos perante um comportamento de extraordinária irresponsabilidade e de inaceitável oportunismo. Este tipo de atitudes concorre para o sucesso das interpretações maniqueístas. Merece esclarecimento imediato, sob pena de se acentuar a degradação institucional em curso.

Ainda a este propósito não se pode deixar passar em claro a surpreendente declaração proferida pelo Presidente da República. Não compete ao titular deste órgão de soberania apressar-se a fazer a defesa pública do Governo de uma forma que o rebaixa à condição de porta-voz do mesmo. Que se saiba o Professor Cavaco Silva não frequenta os Conselhos Europeus nem é presença habitual nos corredores da Comissão Europeia em Bruxelas. Não pode, assim, alegar um especial conhecimento do assunto em discussão.

O facto é que Juncker fez uma acusação gravíssima e as explicações até agora dadas pelo Primeiro-Ministro denotam clara inconsistência. Os partidos da oposição não deixarão, decerto, de reclamar as necessárias justificações.

3. A recusa de Maria de Belém em integrar as listas de candidatos do PS à Assembleia da República em lugar elegível só pode ter uma leitura – está a ponderar seriamente numa candidatura à Presidência da República. Se o fizer tem fortíssimas possibilidades de ser eleita pelas simpatias que suscita à esquerda e à direita, que no fundo traduzem o reconhecimento do seu percurso cívico e político. Tem, entre muitas outras qualidades, uma que me parece especialmente necessária nos tempos conturbados que atravessamos: uma elevada sensatez, entendida esta no sentido que os gregos atribuíam à palavra prudência. Prudência não é conservadorismo e muito menos imobilismo; é apenas e tão só uma imensa sabedoria prática.