Turquia ataca Estado Islâmico pela primeira vez

Base área de Incirlik, no sul do país, deve finalmente ficar acessível aos aviões da coligação contra os jihadistas.

Caças F-16 turcos bombardearam posições do Estado Islamico junto à fronteira
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Caças F-16 turcos bombardearam posições do Estado Islamico junto à fronteira GIUSEPPE CACACE/AFP

A Turquia enviou nesta quinta-feira jactos F-16 para bombardear posições do Estado Islâmico perto de Kilis, no Sul, depois de uma unidade de protecção da fronteira ter estado sob fogo dos jihadistas, que lançaram rockets e dispararam contra os militares turcos, matando um deles. É o primeiro confronto armado entre o exército da Turquia e o grupo terrorista que controla território na Síria e no Iraque.

Este confronto directo sucede num clima de grande tensão entre o Estado turco e a minoria curda, após o atentado suicida de segunda-feira em Suruç, outra localidade no Sul, perto da fronteira com a Síria, em que morreram 32 pessoas e cerca de 100 ficaram feridas, numa associação de militantes da causa curda que pretendiam ir ajudar à reconstrução de Kobane, a cidade do Curdistão sírio que durante meses foi tomada pelo Estado Islâmico (EI).

Os curdos acusam o Governo de não os proteger o suficiente e de, com a sua política de se manter de fora da guerra que há cinco anos devora a vizinha Síria, estar efectivamente a ajudar à expansão do EI. No que afirma ter sido uma retaliação pela falta de acção do Governo contra os jihadistas, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão — uma organização ainda considerada terrorista — reivindicou o assassínio de dois polícias em Ceylanpinar, uma cidade no Sul, perto da fronteira com a Síria. E embora não tenha ainda sido reivindicado, outro polícia foi morto nesta quinta-feira, em Diyarbakir, a grande cidade de maioria curda no Sudoeste da Turquia.

A Turquia tem hoje 1,7 milhões de refugiados sírios e é quem tem assumido o fardo mais pesado dos deslocados que a guerra tem causado. Mas teme que os combates que não dão sinais de abrandar no país vizinho entrem pela fronteira de mais de 900 km que partilha com a Síria.

Por isso, embora seja um membro da NATO, tem negado acesso aos Estados Unidos à base aérea de Incirlik, no Sul da Turquia e perto da fronteira com a Síria — mas isso poderá ter mudado. O Wall Street Journal e o New York Times avançam que Ancara e Washington terão chegado a acordo para que tanto aeronaves tripuladas como não tripuladas possam fazer ataques deslocando de Incirlik.

A confirmar-se — não há ainda confirmação oficial, sublinha a Reuters, e já anteriormente se fizeram anúncios semelhantes que se vieram a revelar extemporâneos —, a utilização de Incirlik seria um factor muito importante na guerra contra o EI.

Fontes não identificadas da Administração norte-americana dizem aos dois jornais nova-iorquinos que o acordo sobre a base, negociado há muitos meses mas desbloqueado após uma conversa ao telefone entre Barack Obama e o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, na quarta-feira, faz parte de um aprofundamento da cooperação na luta contra o terrorismo.

Precisamente, os analistas dizem que o atentado de segunda-feira contra os activistas curdos terá sido uma resposta do Estado Islâmico a um reforço da vigilância contra as actividades terroristas — e um mais apertado controlo das fronteiras, para travar a circulação de armas e pessoas para a Síria — das autoridades turcas nos últimos meses.

“O ataque de Suruç parece ser uma retaliação pelas interdições recentes”, comentou ao Guardian Michael Weiss, co-autor do livro ISIS: Inside the Army of Terror (Estado Islâmico: Dentro do Exército do Terror).

Esta quinta-feira, com os confrontos entre o exército turco e as forças do EI junto à fronteira de Kilis, e a confirmar-se o acordo com os EUA sobre a base de Incirlik, pode marcar o início do envolvimento a sério da Turquia na guerra da Síria, e o momento em que este conflito sangrento cobriu um raio mais vasto do Médio Oriente.

“A seta já deixou o arco”, comentou também ao jornal britânico o especialista em Relações Internacionais Serhat Güvenç, da Universidade Kadir Has, de Istambul. “Não tenho a certeza que esse envolvimento fosse necessário, mas o que estamos a ver acontecer é o resultado directo das políticas da Turquia para a Síria.”