Morreu E.L. Doctorow, o escritor caleidoscópico da história da América

E.L. Doctorow ficcionou a América procurando aliar a perfeição da escrita, a denúncia política e um experimentalismo que o tornou único, a par de autores como Philip Roth ou Saul Bellow. Morreu aos 84 anos, sem atingir a fama que merecia.

O escritor em Itália em 2007
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O escritor em Itália em 2007 Corbis

“Não me consigo definir. Aceito as definições que os leitores quiserem fazer desde que nenhuma seja definitiva. Não sou uma coisa só." E. L. Doctorow, sotaque nova-iorquino, conhecedor profundo da América que transportava para os seus romances, nunca repetindo fórmulas, conversava na sua casa de Manhattan num dia gelado de Janeiro, sobre a escrita e a sua fé na memória e na imaginação para conseguir livros capazes de envolver o leitor.

Era essa a premissa do escritor, grande como Philip Roth ou Saul Bellow, no modo como transpunha um modo de ser, uma identidade, para a ficção, e que morreu na terça-feira em Nova Iorque, onde nascera há 84 anos.

Chamava-se Edgar, uma escolha do pai, vendedor de discos na 6ª. Avenida, amante de literatura e de Edgar Allen Poe. O facto fê-lo sorrir. No início, também Edgar Lawrence Doctorow gostava do mestre do suspense e do macabro, tanto que tentava imitá-lo. Mudou de ideias. "Não era mau. Era o melhor dos maus escritores", disse tantas vezes sobre Poe, e voltou a repetir. O facto é que ter esse nome lhe deu muito cedo uma ideia de vida. Aos nove anos, era claro o que queria ser. Estava a ler Jack London, The Call of the Wild (1903). A história agarrou-o e ele interrogou-se sobre como se fazia para seduzir o leitor. Queria ser capaz de fazer o mesmo. Seria escritor. 

Foi um escritor caleidoscópico. Nos onze romances e nas três colectâneas de contos que escreveu mudava de paisagem e de tempo para narrar a vida de jogadores, prostitutas, excêntricos, aventureiros, e cada uma das personagens ganhava uma dimensão muito próxima do real graças a uma invulgar capacidade de descrição e detalhes de personalidade.

Ragtime

,

The Book of Daniel

,

Billy Bathgate

(adaptado ao cinema em 1991, com Dustin Hoffman no papel de um criminoso da mafia dos anos vinte e trinta), 

A Cidade de Deus

,

The March

e o mais recente

Homer & Langley

(Porto Editora), sobre a história verdadeira de dois irmãos, de apelido Collyer, que morreram na velha mansão onde viviam em Manhattan, vítimas do lixo que foram recolhendo ao longo das suas vidas.

Cresceu com essa história. "Eu era rapaz e a minha mãe, quando queria que eu arrumasse o meu quarto, dizia-me que ele estava a ficar parecido com a casa dos irmãos Collyer", lembrou nessa conversa onde aliou generosidade e uma enorme ironia. “Sou sua vítima”, disse antes das perguntas, depois de oferecer chá e biscoitos para recuperar do frio exterior, e interrompendo para saber de Portugal. Falou da Grécia, pediu comparações, chamou a atenção jornalística para um plano urbanístico que previa a construção de grandes edifícios no Village, junto à Universidade de Nova Iorque, onde dava aulas de Literatura e de Escrita Criativa.

Não despia a sua faceta de político, revelada em quase todos os seus romances; nunca de forma ostensiva, mas antes pelo modo como fazia denúncia sem que isso fosse notado. Era mais directo nos ensaios e nos escritos políticos que foi sempre publicando. E era um democrata. Barack Obama dizia que era o seu escritor preferido logo a seguir a William Shakespeare e, ao saber da sua morte, escreveu no Twitter: "E.L. Doctorow era um dos maiores romancistas da América. Os seus livros ensinaram-me muito e a sua falta será sentida.”

Amante de Kafka, referia que a sua opção pela escrita fora uma espécie de percurso de resistência. Refugiava-se a ler o autor de O Processo num liceu feito a pensar em matérias como ciências naturais ou matemática. Ia apurando a escrita. Formou-se em Filosofia no Ohio, serviu o exército americano na Alemanha do pós-guerra. Voltou com a intenção da literatura. Arranjou emprego no aeroporto de La Guardia, em Nova Iorque, e nos tempos livros escrevia. Pouco depois estava a ler guiões de cinema para a Columbia Pictures.

“Naquele tempo, os realizadores não tinham tempo para ler, ou não conseguiam, e eu lia tudo. Era um departamento onde chegavam diferentes tipos de argumentos. O trabalho era perceber se cada uma das histórias tinha matéria para um filme. Havia uma grande competição com leitores de outras produtoras e a minha função era ler westerns. Eu odiava. Uma vez escrevi um conto onde parodiava o género e mostrei-o ao homem para quem trabalhava. Ele disse-me que a história era muito boa, que a transformasse num romance”, contou. Era o princípio de Wellcome to Hard Times, em homenagem a Charles Dickens. Seria o seu primeiro romance e título de um filme com Henry Fonda estreado em 1957.

 "Gosto da palavra [romancista] por si só, sem modulação", afirmou numa conversa recente com leitores numa livraria de Washington onde também seria confrontado com o papel da História na sua escrita: “Não sou um romancista histórico, se pensarmos nisso, todos os romances se passam no passado". O passado, nos seus romances, era apresentado como forma de perceber o presente. Em muitos cruzou a autobiografia com um enorme experimentalismo. É o caso de Feira do Mundial (editado em Portugal pela Terramar, em 1991). Nunca repetia tom, estrutura, embora nessa vontade de experimentar prevalecesse um sentido clássico de narrar, falasse do mágico Houdini ou do gangster Dutch Schultz.

Vencedor do National Book Award, finalista do Pulitzer e do Booker, tinha uma ideia muito pouco elitista da escrita, o que em nada contrariava a busca pela perfeição a cada livro que escrevia, qualidade que também sabia detectar nos livros que lia.

Ainda naquele dia de Janeiro, declarou-se um grande admirador do “poeta extraordinário” Fernando Pessoa. “A propósito, roubei uma frase a Pessoa. Espero que não se importem.” Não a revelou; esperou secretamente que se desse pela matéria roubada. Pede desculpas por nunca ter estado em Portugal, embora sentindo que conhece Lisboa. “Sim, acho que era capaz de escrever sobre Lisboa sem nunca lá ter ido. Talvez um dia o faça. Costumo dizer a brincar que gosto de visitar lugares sobre os quais já escrevi". Os factos são uma coisa e a ficção é outra, mais permissiva, onde a ilusão é mais importante que a verdade histórica. “Pode-se escrever sobre um lugar sem nunca lá ter estado, basta que isso seja credível no texto". E volta quase ao início de tudo, a Kafka, o escritor que escreveu o romance América sem nunca ter estado na América.

Com Joana Amaral Cardoso