Lisboa já descobriu o Tejo?

A importância da memória e da natureza na construção da paisagem da cidade, a relação de Lisboa com o rio e a sua identidade ribeirinha. Conversámos com o arquitecto paisagista João Gomes da Silva, co-autor, com João Nunes, do projecto que devolveu a zona da Ribeira das Naus a Lisboa.

Marcamos encontro com João Gomes da Silva para as duas da tarde na Ribeira das Naus e procuramos um lugar na esplanada do quiosque, em frente ao Tejo. Há pessoas recostadas nas espreguiçadeiras a apanhar sol como se estivessem na praia. Atrás de nós, outras, algumas em fato de banho, deitam-se nas rampas de relva. A escultura com os olhos de Almada Negreiros ergue-se contra o céu. Passam carros e bicicletas. Um rapaz anda em cima de um elástico esticado entre duas árvores. O Tejo lança pequenas ondas contra o cais de pedra.

Há uns anos, nada disto existia. O edifício do Arsenal da Marinha estava ali, no mesmo lugar, mas as antigas docas da Ribeira das Naus não eram visíveis. Hoje já quase desapareceu da nossa memória esse triste pedaço de cidade, apenas uma ligação entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, pela qual passávamos apressados, por entre o trânsito, evitando olhar para a areia suja e para o rio escondido por vários obstáculos.

Os arquitectos paisagistas João Gomes da Silva e João Nunes são os autores do projecto que devolveu a Ribeira das Naus a Lisboa. Não para construir barcos, como no passado, mas para trazer a quem por ali passa um pedaço da memória da cidade. A ideia da memória é fundamental em todo o pensamento de João Gomes da Silva — e está também na exposição Paisagem como Arquitectura, que pode ser vista até 2 de Agosto na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém, com curadoria de Nuno Crespo e a partir de obras de Gomes da Silva e Paulo David.

Nascido em Lisboa em 1962, formado em Arquitectura Paisagista pela Universidade de Évora, João Gomes da Silva começou a sua carreira trabalhando com o arquitecto Álvaro Siza. Em 1997 fundou, com Inês Norton, o atelier Global Arquitectura Paisagista, e é autor ou co-autor de vários projectos, entre os quais os espaços públicos da Expo-98, a ciclovia Belém-Cais do Sodré (com o Atelier P06) ou o enquadramento de vestígios arqueológicos no Castelo de São Jorge (com João Luís Carrilho da Graça, projecto distinguido com o Prémio Piranesi). É hoje um dos mais destacados arquitectos paisagistas portugueses.

“Há muitas questões ligadas à paisagem que nos últimos anos foram relegadas para um plano secundário e que me parecem fundamentais”, afirma. “O [arquitecto paisagista, Gonçalo] Ribeiro Telles conseguiu transportar esses temas para a linguagem e as preocupações das pessoas comuns. Mas hoje, por razões várias, a questão da paisagem deixou de estar tão presente no nosso discurso. Por isso, acho que a minha geração tem o dever de falar.”

É precisamente pelo papel da memória na cidade que começa esta conversa. E, ainda antes das perguntas, é João Gomes da Silva quem diz:

“Estamos aqui na margem da cidade. Tenho lido bastante os olissipógrafos e há um termo que é constante na literatura antiga sobre a cidade, que é o de ‘ribeira’. Fala-se na Ribeira Velha, a Ribeira Nova, a Ribeira das Naus. E ‘ribeira’ não é mais do que a palavra que tradicionalmente designa a margem, o ponto de contacto entre a terra e o rio. Defendo a ideia de paisagem como uma construção e a construção da margem é isto que vemos aqui. Nos últimos anos construiu-se um pedaço de margem que não estava ainda construído depois do desaparecimento da Ribeira das Naus.

Ao longo dos tempos, os lisboetas foram afastando-se da ideia de que são uma população ribeirinha?

Não sei… No outro dia estava a estudar com o meu filho textos de Cesário Verde, que é um homem que tem uma relação com o campo, o entorno rural da cidade, que cria sempre a imagem do homem urbano um pouco decadente e da mulher rural saudável. E um dos poemas falava dos armazéns, dos homens de trabalho. A cultura lisboeta é essencialmente portuária. Talvez hoje não tenhamos operários ou varinas na cidade, mas ainda me recordo de, quando era pequeno, virem vender peixe na rua ao pé da minha casa, em São Vicente. 
Durante décadas disse-se que Lisboa estava de costas voltadas para o rio. Isso transformou-se num mote político. Mas era uma meia verdade, porque o porto é cidade virada ao rio. Praticamente desde a Exposição do Mundo Português [em 1940] que começámos a refazer esse contacto com o rio.

Essa relação faz-se sobretudo através das actividades económicas a ele ligadas e não tanto à vida das pessoas, ao lazer. Podemos dizer que a cidade não estava de costas para o rio, mas os lisboetas sim?

Os lisboetas também trabalham nos portos e vinham ao cais do carvão e do gás. E as varinas… até meados do século XX, até se deslocar daqui o Arsenal da Ribeira das Naus, toda esta zona era acessível. Não a consideravam era suficientemente qualificada para lhe atribuírem um valor de recreio, mas deslocavam-se aqui para trabalhar ou para comprar. Com a Exposição do Mundo Português, libertaram-se zonas industriais. A exposição não é mais do que uma grande celebração do rio. Destruiu-se tecido urbano e industrial para construir um espaço de celebração, como aconteceu depois com a Expo-98.

Temos fotografias que mostram as varinas, os barcos que chegavam ao porto, os visitantes estrangeiros que eram recebidos com grandes cerimónias no Terreiro do Paço, os mercados. E depois temos a memória dos anos 1970 e 80 em que se fala dessa cidade de costas voltadas ao rio. O que é que se passou entre uma coisa e outra?

Ainda me lembro de ser miúdo e irmos brincar para o relvado da Torre de Belém, que é um grande parque público. Achamos que é uma espécie de encenação. E é. Mas era talvez o único sítio em que o plano da cidade contacta directamente com o rio. Tem aquela espécie de anfiteatro e nós chegamos à maré. E lembro-me de ir com os meus pais ao Museu de Arte Popular, toda aquela zona estava mais ou menos disponível. Mas é um facto que toda esta zona central da cidade estava fechada.

Houve um momento em que a cidade quis ser moderna e esse desejo passou por um afastamento do rio?

Foi ser moderna para o interior, sim. Mas, por outro lado, a destruição do Arsenal da Ribeira das Naus tem que ver com uma ideia muito moderna que é a de construir aqui uma avenida. Pensou-se acabar com o arsenal e as revoltas dos operários, mudando-os para o outro lado para os controlar melhor, e em simultâneo abrindo aqui a Avenida da Ribeira das Naus. E arrasaram-se coisas que só agora voltámos a ver. 
Ninguém que esteja hoje vivo tinha visto as docas que agora se puseram a descoberto. Há uma obliteração de uma presença de quase 400 anos neste lugar de arsenais, docas. A ideia de modernidade passava por fazer passar uma avenida tangente ao rio mas obliterar partes desse contacto. E isso fez-se com uma violência incrível, arrasando tudo isto.

Quando se fez a Av. da Liberdade, o Passeio Público, toda a ideia de uma Lisboa chique passava por esse avanço para o interior.

Passava. Ressano Garcia [engenheiro, 1847/1911] diz “vamos rasgar os
boulevards para o planalto, prolongar a Avenida da Liberdade, bifurcá-la, urbanizar todo o planalto da cidade”. Mas ao mesmo tempo há uma deliberação da câmara que diz que a Avenida 24 de Julho deve ser um extenso boulevard com alinhamentos de árvores, onde se localizarão a Bolsa, os grandes hotéis, e que fará Lisboa ser comparável a outras grandes cidades da Europa. Essa ambição de estender para o interior existe, mas o projecto para a Avenida 24 de Julho é um grande gesto de afirmação de urbanidade. Localiza-se aí o grande mercado da Ribeira, que não é para pescadores, é um mercado urbano, o maior de Lisboa.

Essa ambição não se concretiza inteiramente.

Há uma grande ambiguidade. Existe um plano que se começou a realizar e do qual ainda hoje há traços. Propunha construir ali grandes quarteirões — estão lá dois ou três edifícios que fazem parte desse plano, que rebentava aquele tecido industrial e se colava à Praça D. Luís I, o grande jardim ao lado do Mercado da Ribeira. 
Havia ali um desejo de urbanidade, mas provavelmente a cidade não tinha pujança para tanto e expandiu-se mais para o interior. No entanto, existia essa consciência de que Lisboa tinha de se afirmar como uma cidade ribeirinha. D. Luís I promove a construção do Porto de Lisboa, que tem projectos absolutamente incríveis, utópicos, de redesenho de uma frente ribeirinha monumental no seu traçado, escala, na amplitude das suas avenidas. Houve um concurso público internacional que tinha uma visão sobre tudo isto. A Praça do Comércio, numa dessas visões, passaria a ser uma espécie de praça interior porque a cidade crescia bastante para cima do rio.

Mas não se foi por aí. O que aconteceu?

Provavelmente, lotear terrenos particulares para o planalto é um negócio muito mais interessante do que lotear a zona ribeirinha que era em grande parte do domínio público. Não houve fôlego económico para tanto.

Ainda hoje, se formos para a zona oriental da cidade, temos uma área desqualificada em termos de espaço urbano, com vários projectos e ideias que não se concretizaram.

Há duas partes de Lisboa, quase ribeirinhas, que têm um esplendor que não se chega nunca a atingir na parte interior da cidade. Uma é a Rua da Junqueira, que tem um alinhamento de alguns dos maiores palácios de Lisboa. Os que não estão ali estão do outro lado ao longo da Rua de Xabregas, Grilo, Beato, onde se alinham palácios e conventos de uma qualidade e uma escala que não tem igual no centro da cidade.

Que surgiram numa época em que ainda era uma zona rural?

Não exactamente rural, era um subúrbio, no melhor sentido da palavra. Tal como a Estrada de Benfica, onde se alinharam os palácios de altíssima nobreza, como o Palácio de Fronteira e Alorna. Sempre existiu o centro da cidade, compacto, e estes subúrbios de altíssima qualidade onde vivia a aristocracia. Hoje algumas dessas zonas estão decadentes, mas é espantoso como os melhores palácios de Lisboa estão ali.

Na zona oriental foi a indústria que começou a ocupar muito desse espaço.

O que faz a revolução liberal é descapitalizar a velha nobreza, deixar emergir a alta burguesia, os grandes comerciantes e industriais. O Marquês de Pombal vai buscar o grande capital imobilizado da velha aristocracia e põe-no à venda. Muitos palácios são ocupados por fábricas, os conventos a mesma coisa. A indústria vai ocupar esse espaço livre na margem entre Chelas e o rio.

As transformações que vão acontecendo na cidade são sobretudo consequência das mudanças nas actividades económicas, como as que estão ligadas ao rio?

A paisagem é o resultado de uma economia que se estabelece num lugar e da cultura que lhe é subjacente. É uma construção, uma forma de arquitectura, que surge com uma base económica fortíssima.

O que pergunto é se essas mudanças económicas são mais determinantes para a transformação da cidade do que um pensamento estruturado sobre ela?

São ciclos e contraciclos. Há períodos em que a cidade se pensa, se desenha. No período pombalino desenha-se toda a zona industrial de Lisboa, Alcântara, as Amoreiras. É feito o loteamento, as estradas que ali acedem, desenham-se os moinhos de marés, as Tercenas do Marquês, em Santos. Há fases em que o espaço se desenha, noutras já é uma força livre, liberal, de puro mercado.

Em Lisboa houve uma circunstância muito particular que foi o terramoto e a possibilidade de redesenhar do zero uma parte central da cidade.

Os grandes períodos das utopias e invenções arquitectónicas são os que se seguem a uma destruição profunda. Nós não tivemos a destruição física das duas guerras mundiais, mas tivemos o terramoto, que permitiu, num momento de fôlego económico e de cultura iluminista presente nas Cortes, reconstruir não só o espaço da cidade enquanto infra-estrutura, mas reorganizar-se a produção, a pesca, a agricultura. 
Esses períodos de grande mudança dão origem a formas de paisagem urbana muito intensas e inovadoras. O movimento moderno da arquitectura surge na Europa porque após a II Guerra é preciso reconstruir, e então surgem as ideias acerca do que deve ser a reconstrução da Europa e a relação com o passado. Porque é que [o arquitecto franco-suíço] Le Corbusier propõe demolir o centro de Paris para construir uma cidade limpa, arejada, etc.?

E o momento actual, como é que se pode classificar?

A questão da memória interessa-me particularmente. Não que me sinta culturalista ou historicista, mas parece-me que não é possível reinventar o futuro sem perceber exactamente porque é que as coisas são como são. [O filósofo italiano, Giorgio] Agamben diz que a arqueologia é o único acesso que temos ao presente. Compreender a história é a única maneira que temos de entender o presente e projectar o futuro. A arqueologia é esta arte que nos permite através da subtracção de matéria entendermos a própria matéria. Com o projecto da Ribeira das Naus, procurámos escavar vestígios que a arqueologia trata, trazê-los para o tempo presente e reinventar um espaço que é contemporâneo. Este espaço em que estamos serve para a circulação dos carros, para as pessoas estarem, os marinheiros estarem ali [no edifício do Arsenal], para debaixo de nós existir a maior central de bombagem da frente ribeirinha de Lisboa, para o Metro passar por baixo. Este é um lugar em parte de altíssima tecnologia mas simultaneamente de lazer. A memória e a história são instrumentos muito poderosos da reinvenção.

Mas pode ser complicado aplicar essa ideia numa cidade como Lisboa, em que tudo é escavável e potencialmente interessante. Como se compatibiliza essa visão com a necessidade de se construir novos edifícios?

Estamos aqui a olhar para o Castelo de São Jorge, que é uma construção da história. Tal como Alfama. São construções que, a um dado momento, a cultura dominante se propõe fazer para que nós possamos interpretar, ver e criar uma relação com o passado. Foi uma política do regime [Estado Novo], o nacionalismo baseado na recuperação dos monumentos. 
Alfama é uma construção cultural que se faz com o cinema, com os filmes populares dos anos 40, 50, que o António Ferro promove. Vamos a Alfama, vemos aquelas escadinhas, mas a maior parte delas foram construídas nos anos 40, há projectos disso. Tal como o castelo, que é uma construção que consolida estruturas que ali estavam. Porque é que se reconstrói uma estrutura que já não tem qualquer utilidade? O castelo era defensivo, que utilidade tem hoje? J.B. Jackson é um norte-americano que tem um texto muito interessante, The Necessity of Ruins, no qual discute porque é que nós precisamos de reconstruir esta relação. Atribuímos depois o estatuto de monumento a uma coisa que é valorizada não pela utilidade, mas enquanto lugar capaz de activar a nossa relação com a comunidade, a história, a colectividade, todas essas ideias que vão até à ideia de nação. Essa questão interessa-me fortemente, não pelas razões ideológicas do Estado Novo no século XX, mas porque, através da escavação destas docas e da sua contextualização com outros elementos que são absolutamente novos e contemporâneos, se constrói um espaço feito de grande complexidade, camadas sucessivas, estruturas que se revelam.

Também aqui se está a construir uma narrativa, uma ideia de cidade.

A identidade de um lugar.

Hoje a ideia de um castelo reconstruído como uma ficção choca-nos.

Sim, porque não podemos dizer que a construção que estamos a fazer é um restauro. Na teoria do património, existem várias atitudes. Aqui percebemos que a partir da matéria da história temos a capacidade de inventar contemporaneamente e perspectivar um futuro. O que está aqui experimentado poderia ser experimentado a uma escala bastante mais vasta. 
Um dos projectos que está na exposição do CCB é um estudo da zona da ribeira de Lisboa, feito por mero acaso ao longo de mais de dez anos, que resultou de vários concursos e projectos. Parte da ideia do que seria a cidade do futuro se escavássemos toda a muralha da Ribeira Velha de Lisboa, assumíssemos as várias espessuras e profundidades destas plataformas e recriássemos uma relação com os vários tempos que constituem este lugar. Quando pensamos fazer isso a uma escala que vai do Cais do Sodré a Santa Apolónia, estamos a falar de mil anos de história, mais ou menos. E provavelmente dos últimos quatro séculos de construção desta parte da paisagem urbana. Uma das propostas que lá estão registadas é a possibilidade — utópica, porque não ganhámos aquele concurso e nunca aquilo poderá ser feito — de conseguir ler essa estratificação, esses vários tempos do mesmo lugar mas em sincronia.

Está a falar do projecto que apresentou a concurso em 2012 para o Campo das Cebolas [que ficou em terceiro lugar]?

Sim, articulado com este e com o projecto para o Terminal de Cruzeiros. Era uma possibilidade de construir a Lisboa do início do século XXI a partir da relação de tempos diferentes nos mesmos lugares. Não se trata de subdividir em larguinhos mas de perceber exactamente o que era a Ribeira Velha com as suas alfândegas, a do vinho, do trigo, a alfândega velha, etc. Pretendíamos escavar as muralhas que estão agora a ser escavadas pela arqueologia, e ter, a uma quota ligeiramente mais baixa, um parque que era a antiga Praia da Ribeira. Depois, voltarmos a subir e termos a plataforma que foi construída pelo Porto de Lisboa no final do século XIX, início do XX. Isso permitia-nos complexificar aquele espaço e oferecer à população de Alfama um parque, uma sequência de mercados, praças, a circulação viária da maneira como ela é entendida hoje e toda a infra-estrutura que por ali segue, o Metro, as condutas dos esgotos. 
A cidade de que falamos nessa hipótese utópica é uma cidade de futuro e não de passado, mas que se constrói a partir da leitura de tempos diferentes do mesmo lugar. E isto faz-nos retornar a um pensamento: de que é que nos serve a memória? De que modo o tempo e a nossa relação com ele nos ajuda a entender o futuro? Isto sem sermos historicistas a ponto de reconstruirmos os castelos.

Talvez em relação ao castelo tenhamos mais essa consciência de que é algo dos anos 40, mas as escadinhas de Alfama…

Pensamos que estão ali desde os mouros. Mas não. O que está ali é uma reconstrução.

Ainda mantemos uma relação, talvez infantil ou mágica, com a pedra que é supostamente a verdadeira, a história do “foi aqui que aconteceu”.

Não é nada infantil. Há uma força enorme no “foi aqui que aconteceu”. É fascinante a capacidade que as pessoas têm de se relacionar com a força dos símbolos, e os lugares têm essa força. Quando se escavou aqui a Doca da Caldeira, punham-se vários problemas. Era mais fácil deixar como estava, e politicamente a mensagem que passou era a de que, se queríamos uma doca, o melhor seria fazer-se um plano de água. Mas uma doca é uma doca, o rio tem de entrar lá. Ou entra a água do rio ou estamos a fazer um espelho de água memorial e isso não nos interessa. 
Para que é que serve isto? Pormos aquela doca à maré com todos os problemas que isso traz, porque de vez em quando ela entope? Serve também para nos lembrar que existem marés. São também formas de explicar a própria natureza de estar na margem. Não vejo nada mais natural do que a pulsação da marés debaixo da doca. É completamente distinto fazê-lo assim ou bombar a água do rio lá para dentro e criar uma espécie de ficção.

Falamos muito da zona ribeirinha, da margem, mas não se trata apenas de uma margem, há uma relação com a água, uma razão para a cidade ter nascido aqui, há nascentes de água em Alfama, uma ideia que também se perdeu.

São águas termais e continuam lá. Provavelmente não tantas como anteriormente, mas há ali uma falha e aquela falha tem águas que são manifestações de termalismo.

Mas desapareceram da nossa vista.

Sim, tal como estes tanques tinham desaparecido. A paisagem é uma construção cultural, mas não deixa de ter uma natureza própria que se manifesta permanentemente. Se eu faço entrar a água na doca, manifesto a natureza, as rampas tornam-se verdes, a natureza apropria-se delas. É toda a física platónica, os materiais oxidam-se, a matéria transforma-se.

Tem-se discutido porque é que não existe um Museu dos Descobrimentos em Lisboa. Ainda há problemas relativamente há forma como nos relacionamos com a memória?

Temos imensos esqueletos nos armários.

Mas sente alguma ambivalência nessa questão?

O mais simples quando se faz uma intervenção desta complexidade como a Ribeira das Naus é não nos preocuparmos com a questão dos vestígios arqueológicos ou os significados que podemos atribuir a este lugar. Não nos preocuparmos se o chão é em basalto, que é a pedra que constrói a história natural da cidade, porque é mais fácil pavimentar a granito que vem da China ou do Norte do país a preços mais baratos. É mais fácil isso do que lutar por uma pedra. Muitas vezes estas questões são dificilmente compreendidas por quem pensa e quem decide.

Porque ainda não se valoriza a ideia da memória?

Em parte por isso e em parte porque a realidade é tão complexa que valorizar se torna extremamente difícil. É mais fácil demolir um edifício pombalino por dentro do que o reabilitar. No centro de Paris ou de Londres, nos centros históricos da maior parte das cidades, raras vezes vemos um edifício ser implodido por dentro para ser todo reconstituído com técnicas completamente distintas.

Conhecemos Lisboa o suficiente para a conseguirmos pensar?

Não acho que os lisboetas tenham um conhecimento assim tão aprofundado, o que é natural. Nas outras cidades, os habitantes também não têm, em regra, um conhecimento tão aprofundado como isso. Há, no entanto, nas populações mais antigas, uma espécie de conhecimento empírico e de amor empírico à cidade. Parece-me é que as atitudes de quem gere, pensa e transforma a cidade devem estar muito conscientes dessa própria história, e quanto mais consciente estiverem mais a cidade se mantém rica. É muito fácil apagar, esquecer, obliterar, é muito fácil desaparecer da memória colectiva.

Regressando um pouco atrás, existe o risco de que num trabalho que pretende recuperar a memória surjam críticas por se estar a criar uma narrativa que condiciona a leitura da cidade?

Não sou pós-moderno nesse sentido de ter uma preocupação com as narrativas. A mim e ao João Nunes, interessa-nos mais criar espaços que achamos que se adequam aos dias de hoje, que são utilizáveis. 
Mas é possível criarmos pontes de leitura com tempos diferentes no mesmo lugar. Gostaria muito de conseguirmos reabilitar esta doca seca, que foi apenas consolidada. Gostaria de a escavar até aos nove metros de profundidade, porque aí as pessoas iam ter a noção do que é uma espécie de uma nave de igreja invertida, construída em pedra. Se as pessoas forem expostas a esse espaço, tenho a certeza absoluta de que isso as interroga. Os museus ajudam-nos a ler fenómenos da nossa memória colectiva. Uma das coisas que me pareciam importantes não era fazer um Museu dos Descobrimentos no sentido evocativo e épico, mas haver aqui dentro deste edifício [do Arsenal da Marinha], talvez no piso térreo que está pouco ocupado, algo que mostrasse o que é que, do ponto de vista da cultura náutica, este espaço representou num determinado momento da história da Europa.

Porque é que não foi possível escavar mais a doca seca?

Para já, não houve dinheiro nem oportunidade política. O que se fez já foi um esforço colectivo enorme.

A sua proposta para o Campo das Cebolas também passava por uma espécie de centro de interpretação daquele espaço?

Um dos dados do programa era construirmos uma pequena torre, de três ou quatro pisos, junto a um dos ângulos da Doca da Marinha, um projecto do arquitecto Pedro Pacheco — uma janela apontava à Sé, outra ao Tejo, outra à Doca, outra à Casa dos Bicos. A ideia era que fossem chaves de interpretação.

E a ideia de levar os mercados de especiarias que existem no Martim Moniz para aquela zona? São mercados que nasceram de forma espontânea, fará sentido reenquadrá-los?

Os grandes comerciantes de especiarias do Martim Moniz são asiáticos, quase todos, com uma capacidade de empreendedorismo extraordinária. Se se criarem condições para que tenham um mercado aqui, penso que muito facilmente iriam aderir. Se isso se tornava uma espécie de gentrificação? Depende. Se fizemos um pólo do Museu da Marinha que funciona como um parque temático, estamos a criar uma experiência gentrificada, mas se for construído de um ponto de vista científico, de um modo muito sólido e comprometido com a excelência, não estamos a criar narrativas ou parques temáticos, mas algo que nos ajuda a conhecer melhor a cidade. Este conhecimento da cidade é o que cria o amor à cidade. E o amor é o que mantém as coisas vivas.

É possível, noutras zonas menos centrais da cidade, trabalhar da mesma forma a questão da memória ou não faz sentido?

O que é que diferencia Lisboa de outras cidades com as quais competimos hoje pela atracção do turismo? Uma delas é a gastronomia, que é uma forma de cultura. E o que distingue a cultura alimentar de Lisboa? Os produtos do estuário e das hortas. Um bom peixe grelhado, umas ostras. Quando escavámos a doca, estava pejado de ostras mortas. O futuro para todo este estuário passa pelo porto e pela ideia de que é daqui que nos alimentamos e de que estes vales férteis em redor nos podem trazer alimentos de altíssima qualidade. Pergunto-me se isso também não tem um potencial qualquer. Diria que é do reconhecimento dessas qualidades que poderemos construir alguma coisa.

Que passa pela relação entre as duas margens?

Onde é que está o centro geométrico da região de Lisboa? No Barreiro. Só o desvirtuamento da economia pode explicar porque é que não existe uma rede intensíssima de comunicação de um lado para o outro. Ela tem vindo a reduzir-se. Há alguma coisa de que gostemos mais do que ir ao Ginjal comer peixe? Mas devia haver uma navegação cruzada… falta uma certa articulação económica entre os lados. 
Há uma gastronomia que não está explorada. O Turismo de Lisboa está mais preocupado em fazer uma espécie de parque temático na doca do que em identificar os sítios em que se come bem na outra margem e como se pode lá ir. Dizer às pessoas que se estiverem instaladas num apartamento na Baixa podem apanhar um cacilheiro e ir à outra banda comer marisco. Porto Brandão quase não tem acesso. Trafaria tem restaurantes excelentes e quase ninguém lá vai. No caso do Douro, construiu-se uma imagem do que é o Douro como destino, e aquilo passou a ser perceptível. Acho que este tipo de construções culturais não é um problema de marketing, mas de construção de uma determinada cultura.

Voltamos, portanto, à questão da necessidade de conhecer melhor a história de Lisboa.

Quando se analisam os planos directores municipais das cidades que completam o estuário, percebemos que não estão articuladas entre si, que não valorizam o que têm de mais vernáculo. Uma das coisas mais bonitas para mim ao atravessar a ponte Vasco da Gama é ver os mariscadores, uma actividade que está ali desde a pré-história, profundamente enraizada. Uma visão um pouco mais inteligente, mais atenta, poderia ajudar-nos a construir realidades muito mais interessantes. O principal potencial está em nós mesmos e no espaço que habitamos e que é extremamente rico. Está aí o nosso futuro. Não está numa espécie de quimera que homogeneiza e simplifica tudo. Lisboa, se souber entender a sua génese, permanece viva durante muito tempo, se não, volta a decair muito rapidamente.

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Exposição do Mundo Português - 1940 eduardo portugal
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Varina descarrega peixe na Ribeira Nova Anónimo, Colecção Seixas in Lisboa à beira Tejo/José SArmento de Matos
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Venda ambulante no Cais das Colunas, c.1900 Anónimo, Colecção Seixas in Lisboa à beira Tejo/José SArmento de Matos
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Castelo de São Jorge, 1944 antónio passaporte
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Doca da Caldeirinha no Arsenal da Marinha, que foi posta a descoberto com o recente projecto da Ribeira das Naus In Lisboa à beira-tejo/josé sarmento de matos
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A praia na zona da Ribeira das Naus em 1962 Artur Goulart
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“Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo”*

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