Bernie Sanders, o socialista que começa a enervar Hillary Clinton

Tem 73 anos, um respeitável passado político e um discurso pouco habitual nos grandes palcos da política dos EUA. Em apenas um mês, o senador Bernie Sanders conseguiu gerar uma onda de entusiasmo na ala mais à esquerda do Partido Democrata.

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Sanders é um senador independente pelo estado do Vermont Win McNamee/AFP

O espectáculo quase circense do magnata Donald Trump e o peso do apelido de Jeb Bush atraíram nas últimas semanas quase toda a atenção de quem segue a política norte-americana. Mas do outro lado da corrida à Casa Branca, no Partido Democrata, há um nome que está rapidamente a transformar-se numa nova dor de cabeça para Hillary Clinton, depois de o furacão Barack Obama lhe ter roubado o sonho em 2008: chama-se Bernie Sanders, tem 73 anos, e é com muito orgulho que se apresenta como "socialista".

Os seus apoiantes falam numa onda de entusiasmo à volta de Sanders – chamam-lhe "Bernie-mentum" , e apontam para as sondagens e para as crescentes multidões que o têm recebido em várias cidades quando lhes perguntam em que se baseiam para porem em causa a esperada nomeação de Clinton.

Os números dão-lhes razão. Enquanto a candidatura de Hillary Clinton foi anunciada no dia 12 de Abril mas era um segredo mal guardado há qualquer coisa entre vários meses e alguns anos, Bernie Sanders só revelou que iria a jogo no último dia de Abril, numa singela e pouco concorrida comunicação nos jardins do Capitólio. A campanha propriamente dita só arrancou quase um mês depois, no dia 26 de Maio, e as sondagens trataram-no como se fosse um convidado pobre e mal-agradecido que chegou tarde à festa organizada por uma família aristocrática: em Maio, a diferença entre Hillary Clinton e Bernie Sanders num dos primeiros estados a ir a votos, o New Hampshire, era um fosso de 44 pontos.

Já no terreno, Sanders e a sua modesta equipa de campanha – com o seu igualmente modesto orçamento – conseguiram sair do canto escuro onde os media costumam arrumar os candidatos destinados ao desastre eleitoral, e puseram analistas e repórteres a discutirem a possibilidade de Hillary Clinton ser novamente ultrapassada pela esquerda sem se aperceber de que tinha alguém atrás de si a aproximar-se a alta velocidade. Em apenas um mês de campanha, Bernie Sanders duplicou o seu favoritismo entre os eleitores do New Hampshire, e reduziu a diferença em relação a Hillary Clinton para uns incómodos dez pontos percentuais, de acordo com uma sondagem da Universidade de Suffolk, em Boston, divulgada na quinta-feira.

Eleito senador pelo estado do Vermont – um dos mais pequenos e mais liberais dos EUA – em 2006, Bernard "Bernie" Sanders é um independente alinhado com o Partido Democrata. Habituado a ser o elo mais fraco no arranque das suas aventuras eleitorais, quando na década de 1970 concorreu a governador e a senador e perdeu, Sanders acabou por impor a sua personalidade e forma de estar na política ao longo dos tempos – em 2012, foi reeleito senador pelo Vermont com 71% dos votos.

Seja qual for o resultado final do processo que vai escolher o candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de Novembro de 2016, Bernie Sanders já obteve uma vitória – a voz de um assumido "socialista", com toda a carga extremamente negativa que essa palavra tem nos EUA (e não só entre os eleitores do Partido Republicano), empurrou Hillary Clinton para um terreno pouco confortável entre o eleitorado mais à esquerda: convencer esse eleitorado de que é possível denunciar a "ganância" de Wall Street e receber o apoio de Lloyd Blankfein, presidente executivo do banco Goldman Sachs.

Num resumo de um recente discurso de Hillary Clinton na universidade The New School, em Nova Iorque, o jornal The Wall Street Journal deu destaque às diferenças que a candidata quis vincar entre si e o "socialista" – "Mais progressismo, por favor. E também: há poucas diferenças substanciais entre mim e Bernie Sanders, para além de o Goldman Sachs gostar de mim, o que apenas prova a minha abrangência. A esquerda não precisa de fugir."

A diferença nas sondagens entre Clinton e Sanders ainda não é suficiente para tirar o sono à ex-secretária de Estado, mas os títulos dos principais jornais e sites norte-americanos começam a reflectir o tal "Bernie-mentum" de que os seus apoiantes falam. "A campanha improvável de Bernie Sanders está a ganhar velocidade", escreve o The Wall Street Journal; "É oficial – Bernie Sanders tirou o lugar a Hillary Clinton nos corações e na mente dos Democratas", titula o Huffington Post; "A campanha de Clinton tem medo de Bernie Sanders", sentencia a revista The Atlantic.

A experiência do senador do Vermont dá-lhe a confiança necessária para falar ao eleitorado mais à esquerda sem o habitual labirinto de palavras em que se entra quando a única resposta possível é andar às voltas com as frases.

Numa entrevista ao jornal Des Moines Register, na semana passada, Sanders foi questionado sobre o que significa assumir-se como um "socialista" e um "socialista democrático": "O socialismo democrático significa olhar para o que têm feito países como a Dinamarca, a Suécia, a Noruega e a Finlândia ao longo dos anos, e tentar perceber o que fizeram bem na protecção das necessidades de milhões de famílias trabalhadoras, dos idosos e das crianças. Acho que temos muito a aprender com esses países, que têm governos sociais-democratas."