MMIPO, um novo museu no Porto com 500 anos de história dentro

Santa Casa da Misericórdia do Porto inaugurou esta quarta-feira o seu novo museu, na Rua das Flores.

A pintura Fons Vitae é uma das principais peças do novo Museu da Misercórdia do Porto
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A pintura Fons Vitae é uma das principais peças do novo Museu da Misercórdia do Porto Fernando Veludo/Nfactos

A Rua das Flores ganhou esta terça-feira mais uns pontos numa competição com outras artérias do centro histórico pela atracção dos turistas. A Santa Casa da Misericórdia do Porto inaugurou finalmente o seu museu, o MMIPO, que revisita a história de uma instituição que, nos últimos 500 anos, se confunde com a própria cidade. E que se abriu à arte contemporânea ao integrar na fachada do edifício uma escultura de Rui Chafes.

Financiada pela SCMP e integrada no programa de Arte Pública lançado há meses pelo município, a peça O Meu Sangue é o Vosso Sangue é, simbolicamente, um prolongamento escultórico da mais antiga, e porventura mais importante peça deste museu, a pintura Fons Vitae, do início do Século XVI. Neste enorme painel, que se acredita ter sido a peça central de um retábulo, D. Manuel e D. Maria surgem aos pés de um Cristo Cruxificado, cujo sangue “redentor” enche a fonte da vida. Chafes criou uma peça que, saindo dessa sala, se projecta, em queda, do exterior, para a rua onde a Santa Casa se instalou em meados do século XVI, depois de algumas décadas a funcionar no claustro da Sé.

A Catedral, no morro da cidade, é o espaço primordial para onde aponta, ao pé da uma janela, outro elemento contemporâneo, cónico, que nos faz assim recuar 516 anos, até àquele mês de Março de 1499 em que D. Manuel I ordenou aos homens do Porto que fundassem a instituição. Nos três pisos do museu, o visitante começa de cima, pelo 4º andar da casa, uma viagem por estes cinco séculos, em várias salas dedicadas à história e actividades da SCMP, aos benfeitores, à pintura e escultura, à ourivesaria e paramentaria, descendo para um espaço dedicado à igreja da Misericórdia – com o desenho da fachada reabilitada no século XVIII, do italiano Nicolau Nasoni - e esse outro compartimento dominado pela pintura Fons Vitae, atribuída ao flamengo Colijn de Coter.

Integrado na rede portuguesa de museus, o MMIPO foi inaugurado na manhã desta quarta-feira numa sessão presidida pelo Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, e sob a atenção, na rua, de dezenas de turistas que ganharam mais um motivo de interesse, ao lado da Igreja inaugurada pela instituição no início do século XVI. A artéria reabilitada há um ano fervilha de novos negócios, e o provedor da Santa Casa, António Tavares, admitiu que o nome pelo qual o novo espaço se identifica tenta ser de fácil apreensão pelos estrangeiros, que foram brindados com um duo de violinistas e alguns homem-estátua representando aspectos do espólio agora revelado à cidade.

Concretizado no mandato da mesa presidida por António Tavares, o museu foi ideia de um seu antecessor, há 125 anos. E foi pela voz de um actor interpretando o Conde de Samodães, que se percebeu o esforço deste homem culto, que fundou a sala dos benfeitores no pátio da casa, e mandou construir a sua cobertura em vidro sobre estrutura de ferro, para ali realizar exposições. Os visitantes, que pagarão cinco euros por entrada – ou quatro euros por pessoa, no caso de famílias com pelo menos quatro elementos – passam por este espaço para, pela porta travessa, entrarem na igreja ou na capela de Santa Isabel.

O primeiro-ministro e o presidente da Câmara do Porto elogiaram este esforço da SCMP, que contou com apoios de fundos europeus do último programa regional. “Há dias felizes”, assinalou Rui Moreira, depois de uma visita a um “equipamento fantástico, que revela riquezas até agora escondidas”. O autarca salientou o impacto que a abertura deste espaço cultural terá na “atractividade de uma cidade que se pretende mais diversificada” e na qual a cultura tem sido, e será, uma prioridade.