Revolta no Syriza não deverá impedir aprovação das medidas de austeridade

Maior incógnita é quantos deputados do partido de Alexis Tsipras se vão abster ou votar contra o plano acordado em Bruxelas.

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Sondagem indica que 72% dos gregos consideram que não havia alternativa ao acordo trazido por Tsipras de Bruxelas Eric Vidal7Reuters

O maior desafio de Tsipras é controlar a dimensão da rebelião do seu próprio partido, que parecia ir bastante além dos estimados 30 deputados em 149 que são a Plataforma de Esquerda, a facção mais radical do Syriza, cujos membros já decretaram ser impossível aprovar este plano, que “transforma a Grécia numa colónia de dívida da Alemanha”. O jornal Kathimerini admite que o número de deputados do Syriza que tencionam votar contra pode “chegar a 40 ou ultrapassar” esse número.

Há muita pressão sobre deputados do Syriza, e vários círculos, incluindo das zonas empobrecidas de Salónica (a segunda cidade no Norte) ou Pireu (o porto semi-privatizado) estão a pressionar os seus deputados para votarem “não”.

O gabinete do primeiro-ministro já terá indicado que quem não assinar as novas leis terá de se demitir. O ministro da Energia, Panagiotis Lafazanis, disse que não assinaria a lei e também que não se demitiria.

Fonte governamental afirmou que está a ser preparada uma remodelação governamental, que acontecerá depois da votação de quarta-feira. Disse que esta não deverá incluir novos partidos, mas que irá ser uma remodelação alargada, para além da substituição dos dois ministros que já disseram ser contra as medidas.

Não é claro como poderá funcionar a manutenção da actual coligação, com o principal partido no Governo a partir-se ao meio e o seu principal aliado – os Gregos Independentes  –  a dizer que não aceitará algumas das medidas embora continue a apoiar o Governo no Parlamento.

No entanto, esta é uma das linhas de argumentação do Governo – que a União Europeia queria um golpe e uma substituição do Governo por um de união nacional ou tecnocrata, mas que isso não acontecerá. Analistas dizem que mais tarde ou mais cedo o executivo terá de ser alargado a mais partidos, ou terá de haver eleições antecipadas, provavelmente no Outono. Tentando convencer os deputados a votar a favor de Tsipras, o líder do grupo parlamentar do Syriza, Nikos Filis, argumentou que se não o fizerem serão coniventes com “o golpe de Bruxelas”.

Segundo uma sondagem do instituto Kapa para o jornal To Vima, a grande maioria dos inquiridos defende que Tsipras deverá continuar primeiro-ministro: 68% defende esta hipótese contra 22,6% que são de opinião que o executivo deveria ser liderado por "uma outra figura com grande base de aceitação".

Mais são aqueles que consideram que não havia alternativa ao acordo, 72%, e os que defendem que o Parlamento deve aprovar as medidas reclamadas pelos parceiros europeus: 70,1%. Mas os que declararam considerar o acordo positivo são apenas 51,5%

O Ministério das Finanças anunciou ao final da tarde de terça-feira que a lei para permitir a aprovação as medidas foi já submetida ao Parlamento, que a deverá votar na quarta-feira como esperado. Não havia previsão de horários de discussão ou votação.

A sessão far-se-á com a presidente do Parlamento, Zoe Konstantopoulou, contra a aprovação das medidas. Konstantopoulou também já disse que não se demitiria, apesar de muitos pediram o seu afastamento com medo que boicote os trabalhos parlamentares. Segundo as regras do Syriza, os deputados que não concordem com as medidas do partido deveriam demitir-se e oferecer o seu lugar de novo ao partido. Até esta terça-feira, apenas um tinha feito isso.

Os olhos também estão postos no ex-ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, que se absteve da última votação e tem vindo a fazer várias revelações sobre as negociações e apreciações como a que compara o acordo agora imposto à Grécia ao Tratado de Versalhes, visto como o elemento que semeou as condições para a II Guerra ao esmagar a Alemanha da República de Weimar. Varoufakis diz, no entanto, que espera ouvir de viva voz o primeiro-ministro e o seu sucessor na pasta das Finanças, Euclides Tsakalotos.

O Presidente francês, François Hollande, disse que a Grécia não tinha saído humilhada por este acordo. “Humilhação teria sido a saída da zona euro”, defendeu.

Mas na Grécia ninguém sente outra coisa. No acordo, o país compromete-se a aprovar esta quarta-feira todo o plano acordado em Bruxelas e ainda quatro leis específicas (simplificação e alargamento da base do IVA, reforma do sistema de pensões, reforço da independência do organismo responsável pelas estatísticas oficiais e introdução de mecanismos quase automáticos de cortes da despesa). Uma semana depois terá de aprovar outras duas. Mais, tem ainda de reverter as leis aprovadas desde a eleição de Janeiro que não tiveram o acordo dos credores – casos de medidas simbólicas como a reabertura da emissora pública ERT ou a readmissão das empregadas de limpeza do Ministério das Finanças.

O debate anterior, em que os deputados autorizaram o Governo a negociar em Bruxelas com base num acordo, já deu pistas sobre os problemas para os deputados do Syriza aprovarem medidas contra as quais passaram os últimos cinco anos a lutar. Uma deputada chegou a chorar na altura de declarar o seu voto.

Um documento do FMI aparece mais uma vez numa altura crucial, dizendo que a dívida vai aumentar para 170% do PIB em 2022, quando o cenário há duas semanas era de estar a 142%. A Grécia precisará de um perdão da dívida, ou de não pagar pelo menos durante 30 anos, diz o documento.

Em Bruxelas ainda se discute o financiamento de transição até estar assinado o acordo - o que só será feito depois de todas as medidas aprovadas pelo Parlamento grego, ou seja, depois do dia 22 de Julho. O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, veio dizer esta terça-feira que a negociação poderá demorar ainda quatro semanas. O ministro das Finanças da Grécia já admitiu que os bancos não abrirão esta semana.