Análise

Hollande tenta travar a intransigência alemã

Tsipras vai ter de regressar a casa e pode passar rapidamente de herói a traidor.

1. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Luxemburgo, Jean Asselborn, avisava neste domingo a Alemanha de que um eventual Grexit (saída da Grécia do euro) poderia abrir “um conflito profundo com a França”, o que seria muito mau para a União Europeia.

Pode não ser um exagero. É um dos cenários possíveis para esta crise europeia que já leva cinco anos e que volta a encontrar uma curva apertada no seu caminho, arriscando uma derrapagem. Até agora, François Hollande e Angela Merkel conseguiram manter um bom entendimento na gestão da crise do euro, na sua última versão grega. Mas isso custou ao Presidente francês um relativo apagamento face à chanceler, que apenas conseguiu romper quando dos atentados terroristas de Paris. Agora, a questão grega abriu-lhe outra oportunidade. Não se distanciou da chanceler ao longo das atribuladas negociações da troika com o novo Governo grego do Syriza. Foi tão “surpreendido” quanto ela quando Alexis Tsipras decidiu romper as negociações e anunciar um referendo. Agora, face a nova reviravolta do primeiro-ministro grego, está perante uma nova oportunidade de reestabelecer o lugar da França no xadrez político europeu. Não vai hostilizar a chanceler nem recorrer ao tom mais desafiador do primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, que neste domingo dizia “já basta”. Mas não vai abdicar de defender posições distintas, aliás fáceis de compreender.

2. François Hollande marcou o terreno praticamente desde o dia seguinte ao referendo, quando recebeu Merkel no Eliseu para discutirem o que era preciso fazer. Nas declarações à imprensa, o Presidente francês avisou logo que não ia deixar cair a Grécia, mesmo que a Grécia tivesse ela própria de fazer a sua parte. Insistiu em que a credibilidade da Europa estava em causa. Merkel não o contradisse mas também não o apoiou. A chanceler, segundo a imprensa alemã, não apreciou o facto de Hollande ter enviado a Atenas um alto funcionário para ajudar o Governo a elaborar a proposta certa. Mas, com a nota positiva que as três instituições da troika (BCE, Comissão e Eurogrupo) deram à nova proposta grega, tinha as condições reunidas para apresentar uma alternativa. Tanto mais necessária quanto a intransigência do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, acabou por criar no próprio Eurogrupo um clima de confronto que levou à interrupção abrupta da reunião de sábado à noite. Mario Draghi falou dos riscos sistémicos, mas nada disso conseguiu abalar a determinação do ministro alemão, que nem sequer disfarça sua vontade de empurrar a Grécia para fora do euro. A já famosa proposta de um Grexit temporário (cinco anos) foi imediatamente rejeitada como um Grexit disfarçado. “Não há Grexit temporário (…). Há a Grécia na zona euro ou não há Grécia na zona euro”, disse o Presidente francês.

O que quer, afinal, o ministro alemão? Provavelmente, garantir que os Syrizas e os Podemos não terão vida fácil na união monetária. É uma aposta arriscada e pouco eficaz, que vai claramente longe de mais. O problema, aliás, não está só em Atenas. Basta ver como os Verdadeiros Finlandeses, que partilham o governo de Helsínquia, conseguem ameaçar a Europa com um veto a um terceiro resgate. E também não é preciso grande imaginação para antever o que aconteceria à Grécia se saísse do euro e consequentemente da União Europeia. Ficaria à deriva, escancarando as portas para o avanço de forças políticas muito mais assustadoras, como a Aurora Dourada.

Hollande percebe as razões pelas quais a chanceler desconfia do governo de Atenas. São perfeitamente legítimas, dado o historial dos últimos cinco meses. “Perdeu-se a moeda mais importante, que é a confiança”, disse Merkel antes de entrar na cimeira. É preciso reconquistá-la. A diferença está em que o Presidente se distancia dos prazos irrealistas dados a Alexis Tsipras para provar que é confiável. Hollande esteve reunido com os seus principais parceiros socialistas antes da cimeira da zona euro, incluindo o próprio Sigmar Gabriel, “número dois” de Merkel no governo de grande coligação que, aparentemente, se quer redimir da dureza com que tratou a Grécia. A proposta que os socialistas aprovaram dá aos gregos 10 dias, e não dois, para apresentarem algumas das suas reformas no Parlamento, e defende a criação de um Fundo gerido em conjunto por Atenas e pela Comissão (e não apenas por Bruxelas como queria Schäuble) com os activos a privatizar e a correspondente dívida a pagar. São exigências pesadas mas muito mais realistas.

3. Neste domingo à tarde as decisões passaram para as mãos dos líderes da zona euro. Sem Schäuble e com Merkel, que provavelmente continua a preferir uma solução com a Grécia dentro, mesmo sabendo como vai ser difícil a batalha no Bundestag para conseguir a aprovação de um terceiro resgate. Hollande sabe também que merece o aplauso dos grandes parceiros da Europa, que olham com horror para o risco de um Grexit e do seu impacte nos Balcãs Ocidentais e no Médio Oriente, onde a Rússia joga as suas pedras. Se há coisa em que o Presidente francês tem razão é a imagem de incapacidade que a Europa daria de si própria, deixando à deriva um país europeu com uma posição estratégica fundamental. A chanceler sabe que uma decisão a favor da Grécia afectará a sua popularidade. Mas sabe também que a Alemanha precisa da França para liderar a Europa, num momento em que a segurança subiu na lista das prioridades europeias. A melhor solução seria um entendimento político entre ambos num momento em que a Europa joga o seu destino. Só hoje saberemos se foi possível. Entretanto, ninguém se lembrou que Tsipras vai ter de regressar a casa e que pode passar rapidamente de herói a traidor.